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Brasil

Trump coloca empresários bolsonaristas na mesa de negociação de Lula

Governo reage com pragmatismo e articulação internacional para conter os danos

Publicado em 15/07/2025 10:32 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A ofensiva tarifária de Donald Trump contra as exportações brasileiras virou o tabuleiro político e econômico de cabeça para baixo: ao anunciar tarifas de até 50% a partir de 1º de agosto, o ex-presidente americano não só ameaça diretamente setores vitais da economia nacional como também empurra para os braços do governo Lula uma parte do empresariado que, até dias atrás, apostava suas fichas na direita bolsonarista e no nome de Tarcísio de Freitas para 2026. Em resposta, Brasília articula medidas diplomáticas, comerciais e estratégicas que vão da diversificação de mercados à cooperação internacional em defesa de um comércio menos instrumentalizado por interesses eleitorais.

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Um cenário global cada vez mais hostil

A decisão unilateral de Trump de impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, seguindo sua conhecida cartilha protecionista e nacionalista, inaugura mais um capítulo da já longa tradição de guerras comerciais lideradas pelos Estados Unidos. Não se trata apenas de uma disputa técnica sobre balanças comerciais. Como apontou a historiadora e economista Ha-Joon Chang, “o livre-comércio nunca foi uma prática universal, mas um discurso seletivo usado pelas potências quando lhes convém”. Trump, à sua maneira crua, encarna esse princípio com precisão brutal.

O Brasil, que exportou US$ 20 bilhões aos EUA no primeiro semestre de 2025 — sendo 80% produtos da indústria de transformação —, é atingido no coração da sua economia produtiva. Com isso, setores como o agronegócio e a indústria pesada são lançados em um cenário de incerteza. A resposta do governo Lula foi rápida: a criação de um comitê interministerial liderado por Geraldo Alckmin, vice-presidente e ministro da Indústria, para articular estratégias e mitigar os impactos.

Lula ganha fôlego político

Ao confiar a coordenação da crise a Alckmin, o presidente Lula escolheu o caminho do equilíbrio e do diálogo. A composição do comitê é, acima de tudo, um gesto político: um governo que, embora atacado por empresários durante as eleições, escolhe sentar à mesa para escutar, negociar e agir.

A crise revela como as alianças políticas e econômicas no Brasil continuam, como afirmou o sociólogo Florestan Fernandes, “profundamente marcadas por interesses conjunturais e instintos de sobrevivência, mais do que por projetos nacionais”. O empresariado que, até pouco tempo, demonstrava fidelidade quase ritual ao bolsonarismo, agora se vê forçado a buscar no Estado um mediador de seus prejuízos.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas — principal nome do bolsonarismo viável para 2026 — reconheceu que é Brasília, e não os estados, quem deve conduzir a negociação com Trump. Esse reconhecimento é, na prática, a admissão de um limite: a retórica ideológica tem pouco a oferecer quando o mercado sente o golpe no bolso.

Atlas/Bloomberg: aprovação de Lula em alta

Uma nova rodada da pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada nesta terça-feira (15) mostra alta na aprovação do presidente Lula diante das ações de Trump. A aprovação do petista saiu de 47,3% em junho deste ano para 49,7% em julho, o maior percentual registrado em 2025. Já a desaprovação do chefe do Palácio do Planalto teve queda de 1,5%, saindo de 51,8% no mês passado para 50,3% em julho.

A pesquisa entrevistou 2.841 brasileiros, entre os dias 11 e 13 de julho, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

A avaliação do governo Lula também oscilou positivamente. Em junho, 41,6% dos entrevistados consideravam a gestão petista como ótimo ou bom, subindo para 43,4% no levantamento de julho.

Segundo a pesquisa, 62,2% dos brasileiros consideram injustificada a decisão de Trump de aplicar a taxa de 50% contra os produtos brasileiros e outros 36,8% acreditam que a ação do presidente norte-americano é justificada.

A pesquisa também questionou os entrevistados se o presidente Lula representa o Brasil melhor ou pior do que o ex-presidente Bolsonaro no cenário internacional. Para 61,1% dos brasileiros, o petista reproduz uma imagem superior no plano internacional.

Quando questionados sobre como o governo brasileiro tem reagido às tarifas norte-americanas, 44,8% dos entrevistados consideram como adequadas, enquanto 25,2% avaliam como fraca.

Por fim, o levantamento também questionou os entrevistados a respeito da imagem de Donald Trump. Para 63,2% dos brasileiros, o presidente dos Estados Unidos é uma figura negativa, outros 31,9% consideram como positiva.

O mundo além dos EUA

O governo brasileiro aposta, agora, na diversificação comercial. O Itamaraty e o Ministério da Indústria intensificaram as tratativas com ao menos oito mercados estratégicos: Canadá, Japão, México, Vietnã, Emirados Árabes Unidos, Coreia do Sul, Indonésia e União Europeia.

A escolha desses países não é aleatória. Muitos também enfrentam barreiras semelhantes impostas por Trump, e veem no Brasil um aliado natural em uma nova arquitetura comercial multipolar. O Canadá, por exemplo, em recente cúpula do G7, manifestou ao Brasil a necessidade de reduzir sua dependência do mercado norte-americano. A proposta: estreitar laços com o Mercosul, bloco que, mesmo com seus impasses, ainda serve de plataforma de projeção regional.

O acordo com a União Europeia, que há décadas patina por divergências ambientais e protecionistas, ganha novo fôlego. Em um contexto em que os EUA se isolam, a UE se torna uma parceira de valores e interesses mais convergentes. Como destacou Celso Amorim, ex-chanceler brasileiro, em entrevista à Folha de S.Paulo, “a União Europeia pode ser, para o Brasil, uma ponte entre o Sul global e as democracias liberais do Norte”.

O fantasma da dependência

Outra aposta é o aprofundamento das relações com a China, principal parceiro comercial do Brasil. O governo Lula, no entanto, adota cautela: a ideia é ampliar o comércio, mas sem agravar a já elevada dependência da economia brasileira em relação ao mercado chinês — especialmente em setores de baixo valor agregado.

No setor de carnes, por exemplo, a perda do mercado americano poderia ser compensada com a entrada em novas praças asiáticas. Mas o governo também sabe que a repetição do modelo de exportação de commodities — sem diversificação e industrialização — aprisiona o país em uma lógica de subordinação que remonta à formação econômica brasileira, como descreveu Celso Furtado.

Retaliação, sim — mas com inteligência

O Brasil descarta uma retaliação direta e generalizada aos EUA. Isso porque setores da indústria nacional dependem da importação de insumos americanos. Taxar indiscriminadamente produtos dos EUA significaria, na prática, penalizar ainda mais o empresariado brasileiro.

Em vez disso, o governo estuda medidas cirúrgicas — como as que envolvem o setor de propriedade intelectual. Esse foi o caminho adotado na histórica disputa do algodão com os EUA, há 20 anos, que resultou em concessões após pressão legal junto à Organização Mundial do Comércio.

Unidade contra o isolacionismo

A instrumentalização do comércio por parte de Trump será um dos temas centrais do encontro internacional que Lula participará no Chile, no próximo dia 21. A reunião, que reunirá líderes democráticos em oposição à ascensão da extrema-direita global, será uma oportunidade para o Brasil vocalizar a necessidade de novas alianças estratégicas baseadas em solidariedade, democracia e multilateralismo.

O Chile, que também foi alvo de tarifas americanas (no caso, sobre o cobre), surge como parceiro-chave nessa articulação. A ideia é construir uma frente política e comercial que denuncie os abusos do protecionismo e promova uma integração regional baseada em interesses comuns — não em subordinação.

Entre pragmatismo e sobrevivência

O tarifaço de Trump foi, paradoxalmente, o gatilho para um raro momento de convergência entre governo e empresariado no Brasil. A crise mostra como a realidade econômica, por vezes, impõe o abandono das trincheiras ideológicas. Mostra também que o Brasil, para proteger sua soberania e seu desenvolvimento, precisa de uma política externa ativa, técnica e humanista — não de alinhamentos automáticos ou bravatas eleitorais.

Como ensinou o cientista político Giovanni Sartori, “a democracia não se define apenas pelo sufrágio universal, mas por instituições capazes de mediar os conflitos sociais com racionalidade e equilíbrio”. No Brasil de 2025, essa mediação passa, agora, pelo Planalto — e até os mais fiéis empresários bolsonaristas parecem ter percebido isso.

Reciprocidade

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou ontem (14) o decreto que regulamenta a Lei da Reciprocidade Comercial. A norma autoriza o governo brasileiro a adotar medidas comerciais contra países que imponham barreiras unilaterais aos produtos do Brasil no mercado global.

A medida poderá ser usada para responder à imposição da tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras para os Estados Unidos (EUA), a partir do dia 1º de agosto, conforme anunciado na semana passada pelo presidente norte-americano, Donald Trump.  O decreto não menciona especificamente nenhum país e estabelece os mecanismos necessários para dar cumprimento à lei.

Aprovada em março pelo Congresso Nacional e sancionada em abril, a nova lei é justamente uma resposta à escalada da guerra comercial desencadeada por Donald Trump contra dezenas de países.

No caso do Brasil, a tarifa inicialmente imposta pelos EUA foi de 10% sobre todos os produtos exportados para o mercado norte-americano. A exceção nessa margem de tarifas são o aço e o alumínio, cuja sobretaxa imposta pelos norte-americanos está em 25%, afetando de forma significativa empresas brasileiras, que constituem os terceiros maiores exportadores desses metais para os norte-americanos.

A Lei da Reciprocidade Comercial estabelece critérios para respostas a ações, políticas ou práticas unilaterais de país ou bloco econômico que “impactem negativamente a competitividade internacional brasileira”.

A norma valerá para países ou blocos que “interfiram nas escolhas legítimas e soberanas do Brasil”.

No Artigo 3º do texto, por exemplo, fica autorizado o Conselho Estratégico da Câmara de Comércio Exterior (Camex), ligado ao Executivo, a “adotar contramedidas na forma de restrição às importações de bens e serviços”, prevendo ainda medidas de negociação entre as partes antes de qualquer decisão.

Produtores brasileiros começam a sentir efeitos da taxação

Produtores brasileiros aguardam reuniões e medidas do governo brasileiro para reverter ou mesmo minimizar a taxação anunciada pelo presidente dos Estados Unidos. Para alguns setores, o momento é de apreensão e espera, para outros, os impactos já começaram a ser sentidos.

O setor de pescados é um dos que foram imediatamente impactados. De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), pelo menos 58 contêineres com 1.160 toneladas de pescados que seriam destinadas aos Estados Unidos perderam os compradores e terão que retornar aos produtores.

“Os embarques que seriam feitos agora chegam em agosto. Pelo timing aí do translado dos contêineres eles já chegariam sob essa nova tarifa. Então, os compradores de lá suspenderam as compras, suspenderam os embarques”, disse o diretor executivo da Abipesca, Jairo Gund.

Segundo Gund, os EUA respondem por 70% do mercado externo brasileiros de pescado. Somente de tilápia, o país é o destino de 90% do produto. Os contêiners que tiveram as compras canceladas eram de congelados. O mercado de produtos frescos, feito por avião, segue normalmente.

Os mais impactados são os produtores mais vulneráveis, afirmou Gund.

“O principal item de exportação é a lagosta. A lagosta é vista como um produto de gente rica, mas quem produz é gente pobre. É peça artesanal. Então, o impacto nesse público é direto. Quem vai sofrer não é que quem vai comer lagosta, vai sofrer quem produz. Quem produz são pessoas de baixa condição social, geralmente de comunidades tradicionais”, ressaltou.

A Abipesca está entre as entidades que se reunirão nesta terça-feira (15) com o vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin.

A principal demanda será pelo menos adiar a taxação para o setor em 90 dias, para que a produção já contratada possa ser escoada. Além disso, os produtores pedirão que se discuta a exclusão dos pescados das tarifas, uma vez que o Brasil representa menos de 1% da importação americana dos itens, acrescentou a Abipesca.

“A gente está no meio da safra das principais espécies. E com contratos andando”, informou a associação. “Que a gente consiga, sensibilizar o governo americano de tirar o pescado, pelo menos. Porque a gente representa menos de 1% de todo o abastecimento americano, de tudo o que eles importam. É pouco para eles, mas muito para nós.”

Aguardando decisões

Os produtores de cítricos também aguardam os próximos passos.

“Temos que ter cautela. Essa tarifa é para o dia 1º de agosto. Temos que deixar o governo fazer as ações, fazer a defesa e negociar. Acho que uma boa conversa é muito melhor do que uma má discussão”, ressaltou o presidente da Câmara Setorial da Citricultura do Estado de São Paulo e vice-presidente da Associação Brasileira de Citros de Mesa, Antonio Carlos Simonetti.

O Brasil é o maior fornecedor de suco de laranja para os EUA, que compram mais de 40% das exportações brasileiras.

A produção de Simonetti segue com normalidade. “Ainda está tudo normal, sem nada de alertar, tudo correndo normal por enquanto. Não tivemos ainda nenhuma estratégia anunciada.”

O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) participa de uma série de reuniões com os governos federal e estaduais, entidades de classe e parlamentares que foram marcadas desde esta segunda-feira (14). As reuniões prosseguem até quarta-feira (16), quando, além de falar sobre o que foi discutido, o Cecafé deverá apresentar o desempenho das exportações do grão no fechamento do ano safra 2024/25.

O café está entre os dez produtos que representam 57% das exportações brasileiras. Apenas o café torrado representa 4,7%.

Indústria

Em posicionamento divulgado nesta segunda, a Confederação Nacional da Indústria (CNI), alertou que o momento “exige ações enérgicas, contundentes”, para reverter o quadro, tanto interna quanto externamente.

“Nas relações exteriores, precisamos de moderação e equilíbrio para contornar a política tarifária dos EUA. Devemos negociar a revogação da taxação na condição de país parceiro e de nação soberana. Cabe ao governo brasileiro defender os interesses da sociedade brasileira, evitando, sobretudo, as armadilhas da polarização política que o episódio coloca no caminho”, diz a confederação.

Além disso, a CNI enfatiza que a taxação coloca em risco os planos de investimento e os negócios em andamento.

“A taxação põe fim à previsibilidade que sustenta milhares de contratos de longo prazo, afetando fábricas brasileiras e plantas nos Estados Unidos que dependem de componentes e insumos produzidos no Brasil para manter linhas produtivas e empregos. Aumenta, portanto, o risco de retrocesso de forma substancial, ameaçando a competitividade de ambos os lados e lançando mais incerteza sobre planos de investimento e negócios em andamento”, diz a nota.

Confira como o tarifaço de Trump prejudica o agro no Brasil


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