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Brasil
Em meio a tensão no Caribe, Mauro Vieira deve se reunir com Rubio no Canadá
Publicado em 12/11/2025 1:50 - Semana On
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A promessa de Donald Trump de reduzir tarifas sobre a exportação do café — feita em entrevista recente à Fox News — reacendeu não apenas a esperança do agronegócio nacional, mas também um debate complexo que ultrapassa a pauta comercial e ecoa no coração da política internacional contemporânea. Mais que uma questão de taxas alfandegárias, trata-se de um jogo de poder, onde política interna, diplomacia e geopolítica se entrelaçam numa coreografia global marcada por interesses econômicos, estratégias eleitorais e disputas ideológicas.
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Os Estados Unidos consomem cerca de 25 milhões de sacas de café por ano, das quais entre 7,5 e 8 milhões historicamente vieram do Brasil, maior produtor mundial da variedade arábica. Com uma safra anual entre 40 e 45 milhões de sacas, o Brasil responde sozinho por cerca de 34% das exportações de café aos EUA — um mercado fundamental, considerando que 76% dos consumidores norte-americanos bebem café diariamente, segundo dados da National Coffee Association. Ainda assim, os produtores brasileiros vêm sofrendo com uma tarifa de 50% imposta por Trump a partir de julho, no bojo do chamado “tarifaço”, um pacote protecionista que atingiu, de forma simbólica e estratégica, produtos nos quais o Brasil se destaca.
Pavel Cardoso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), foi claro ao declarar ao Estado de S. Paulo que as tarifas são “uma forma de pressão política”, sem lógica econômica. Afinal, menos de 1% da demanda norte-americana por café é suprida pela produção local, restrita ao Havaí e a Porto Rico.
Diplomacia em movimento e cautela estratégica
A reabertura do diálogo entre Brasília e Washington, iniciada com o encontro entre Lula e Trump em Kuala Lumpur no final de outubro, sinalizou uma inflexão na postura da Casa Branca. Embora não tenha resultado na suspensão imediata das tarifas, a reunião foi considerada um avanço simbólico. Desde então, o governo brasileiro intensificou as tratativas diplomáticas, entregando um dossiê solicitando a exclusão de diversos produtos — entre eles, carnes, pescados, frutas e, claro, o café.
O chanceler Mauro Vieira poderá avançar ainda mais nas negociações com uma possível reunião com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, durante a cúpula diplomática do G7 em Niágara, no Canadá. Embora o encontro ainda não tenha sido confirmado, há expectativa de que Vieira insista na “reversão das medidas adotadas pelo governo norte-americano a partir de julho”, conforme antecipado por fontes diplomáticas.
Rubio, que declarou nas redes sociais estar focado em “colocar a segurança e a proteção dos americanos em primeiro lugar”, parece representar uma ala do governo Trump mais refratária à flexibilização tarifária, ancorada no discurso da autossuficiência econômica e da proteção à indústria nacional — um dos pilares da doutrina “America First”, ressuscitada com fervor desde a campanha de 2016.
Os ecos internos nos Estados Unidos
O embate, no entanto, não se dá apenas entre nações. Dentro dos próprios Estados Unidos, a política tarifária de Trump vem sendo criticada por opositores democratas, como o governador da Califórnia, Gavin Newsom, que escolheu a COP30, em Belém, como palco para fustigar o presidente. “Essas tarifas contra o seu país são uma piada, uma abominação. As tarifas do [ex-presidente Jair] Bolsonaro. Vamos estabelecer o que eles são”, afirmou Newsom em coletiva, expondo o viés político das medidas e oferecendo-se, de forma simbólica, como contraponto à ausência oficial dos EUA na cúpula climática.
Ao associar Trump a Bolsonaro, Newsom tocou numa ferida sensível: a afinidade ideológica entre os dois ex-presidentes, marcada por políticas de confronto com o multilateralismo, ceticismo climático e apelo ao nacionalismo econômico. A crítica do governador californiano revela uma disputa profunda pelo rumo da política externa norte-americana, em especial no que tange à América Latina — uma região historicamente tratada ora como quintal, ora como rival.
Uma questão maior que o café
O gesto de Trump, portanto, precisa ser lido com cautela. A possível suspensão das tarifas sobre o café, ainda que benéfica para o Brasil a curto prazo, pode representar uma manobra estratégica para angariar apoio de setores do agronegócio internacionalmente vinculados aos EUA, suavizar sua imagem externa e reduzir tensões com parceiros estratégicos em tempos de campanha. A história mostra que concessões comerciais não são, via de regra, desprovidas de interesses ocultos.
Segundo a politóloga e especialista em relações internacionais Monica Herz, da PUC-Rio, “as relações entre Estados-nação, mesmo quando vestidas com roupagens comerciais, são atravessadas por interesses políticos de longo prazo”. A citação, retirada de seu livro O lugar do Brasil no sistema internacional (Editora Vozes, 2010), ajuda a entender o pano de fundo mais amplo das decisões tarifárias e dos gestos diplomáticos.
Um novo capítulo nas relações Brasil-EUA
A conjuntura atual pode marcar uma inflexão importante nas relações Brasil-EUA, não apenas no campo do comércio, mas também no posicionamento geopolítico. Com o Brasil assumindo maior protagonismo nos fóruns multilaterais — como no G20 e na própria COP30 —, e os EUA em meio a disputas internas que fragilizam sua liderança global, abrem-se novas possibilidades de redefinir a agenda bilateral com base em interesses comuns e respeito mútuo.
O desafio brasileiro será manter firme sua posição nas negociações, sem se deixar seduzir por promessas que possam se esvaziar diante de mudanças no cenário político norte-americano. Ao mesmo tempo, será preciso aproveitar as fissuras no bloco trumpista para estabelecer pontes com setores progressistas e pragmáticos dos EUA, como a gestão californiana de Gavin Newsom, que já se mostrou disposta a abrir canais diretos de cooperação.
Enquanto isso, o café segue sendo mais que uma commodity: torna-se símbolo de uma disputa por espaço, reconhecimento e autonomia na arena internacional. E, como sempre, a diplomacia — essa arte de avançar sob tensão — será testada em cada xícara exportada, em cada tarifa negociada e em cada palavra dita ou silenciada nas cúpulas do poder.
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