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Brasil

Tarifas de Trump forçam indústrias a conceder férias coletivas

Áudios de Bolsonaro expõe chantagem e articulação por sanções contra o país

Publicado em 22/08/2025 9:59 - Semana On

Divulgação Reprodução

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As sobretaxas impostas pelos Estados Unidos às exportações brasileiras já provocam efeitos diretos na indústria nacional. Setores como o madeireiro, calçadista e de armamentos enfrentam queda nas vendas, acúmulo de estoques e paralisações parciais, recorrendo a férias coletivas como primeira estratégia para evitar demissões em massa.

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Sem a reversão do chamado “tarifaço” implementado pelo governo de Donald Trump ou a abertura de novos mercados, empresários pressionam o governo federal por medidas emergenciais. A expectativa é que iniciativas semelhantes às adotadas durante a pandemia da COVID-19 sejam aplicadas para preservar empregos.

O setor de madeira processada mecanicamente está entre os mais afetados. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), contratos com compradores norte-americanos foram congelados ou cancelados, travando a operação de empresas que não têm mais espaço para armazenar a produção.

A Millpar, segunda maior empresa do setor no país, foi um dos primeiros casos de impacto direto: concedeu férias coletivas aos funcionários da unidade de Quedas do Iguaçu (PR) e, diante da continuidade da crise, encerrou totalmente as atividades da planta na terça-feira (19), concentrando a produção em Guarapuava (PR). “Estamos tomando decisões extremamente difíceis, mas necessárias para manter a sustentabilidade do negócio e preservar parcela significativa dos postos de trabalho”, afirmou o presidente da empresa, Ettore Giacomet Basile.

Segundo Paulo Pupo, superintendente da Abimci, as demissões ainda são pontuais, mas o setor estima ter fôlego para, no máximo, mais duas semanas antes de decisões mais drásticas.

Outros segmentos também adotaram medidas emergenciais. A indústria calçadista decretou férias coletivas em várias unidades, enquanto a Polimetal — fornecedora da Taurus — colocou 33 de seus 50 funcionários em São Leopoldo (RS) em férias. A própria Taurus informou que a decisão faz parte de uma estratégia de transferir parte da produção para os Estados Unidos, minimizando os efeitos da taxação sobre armas brasileiras.

Estratégia das empresas: segurar custos e evitar demissões

As férias coletivas, segundo os empresários, são o primeiro passo para conter os custos operacionais em meio à queda brusca nas vendas. A medida também permite postergar decisões mais duras, como demissões, e reduz encargos trabalhistas, uma vez que evita o pagamento em dinheiro de férias acumuladas no momento da rescisão contratual.

Entretanto, sem uma solução no curto prazo — como a suspensão das tarifas, a abertura de novos mercados ou apoio direto do governo — os setores veem a demissão como próxima etapa. Algumas alternativas ainda em estudo incluem uso de banco de horas, antecipação de feriados, acordos diretos com sindicatos e programas de demissão voluntária (PDVs), que têm menor risco jurídico.

“A legislação trabalhista não contempla cenários excepcionais como pandemias ou tarifaços”, pontua o advogado e professor de direito do trabalho Giovanni Cesar.

Setores pedem apoio do governo para preservar empregos

Diante do agravamento do cenário, os representantes das indústrias atingidas elogiaram o plano de contingência apresentado pelo governo federal, mas cobram medidas mais diretas e ágeis para impedir cortes de pessoal.

A Medida Provisória publicada pelo governo Lula prevê a liberação de R$ 30 bilhões em crédito para compensar perdas com exportações e estabelece como contrapartida a manutenção dos empregos. A MP também prevê benefícios tributários, mas muitos detalhes sobre sua operacionalização ainda não foram definidos.

“Estamos trabalhando para a criação de medidas de proteção similares às que tivemos durante a pandemia, para mitigar os efeitos desse adicional de tarifa até o problema ser resolvido”, afirmou Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados.

A Abicalçados, inclusive, apresentou um parecer ao vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, solicitando a implementação de mecanismos de redução temporária de jornada e salário, suspensão de contratos por até 90 dias e auxílio financeiro custeado pela União.

Estados Unidos não desejam negociar tarifas, diz Amorim

O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, embaixador Celso Amorim, afirmou que o governo dos Estados Unidos não tem demonstrado disposição para negociar as recentes barreiras comerciais impostas ao Brasil. “Eles não têm o desejo de negociar”, declarou durante audiência pública na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados.

Segundo Amorim, ao adotar medidas unilaterais como a imposição de sobretaxas a mais de uma centena de países, a administração do presidente Donald Trump coloca em risco todo o sistema multilateral de comércio construído desde o pós-Segunda Guerra Mundial. “Estamos vivendo um momento de profundas mudanças na ordem internacional. O que está em xeque não é apenas a disputa comercial entre Brasil e EUA, mas o próprio sistema multilateral”, avaliou.

O embaixador lembrou que desde sua entrada no Itamaraty, nos anos 1960, o Brasil defende regras comerciais multilaterais baseadas no Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt) e, posteriormente, na Organização Mundial do Comércio (OMC), criada em 1995. “Sempre ouvimos falar da necessidade de regras comuns. Porque, na medida em que um país muito forte impõe tarifas unilateralmente, desnorteia todo o comércio global”, alertou.

Amorim criticou ainda o caráter político das medidas aplicadas especificamente contra o Brasil, que, segundo ele, está sendo penalizado por motivações ideológicas. “Que eu saiba, somos o único país onde a política interna foi citada abertamente como justificativa para a elevação de tarifas”, destacou. Ele se referia à Ordem Executiva de 30 de julho, na qual o governo Trump justifica o aumento das tarifas sobre produtos brasileiros mencionando os processos judiciais enfrentados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF).

Além disso, o embaixador classificou como “sem precedentes” o teor e a forma de divulgação de uma carta enviada por Trump ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo Amorim, o documento, de conteúdo crítico, foi tornado público antes mesmo de chegar ao destinatário. “Nos meus mais de 60 anos de carreira diplomática, jamais vi algo semelhante. A carta começa com dois parágrafos sobre política interna brasileira. Isso fere todas as práticas diplomáticas”, afirmou.

Apesar das tensões, Amorim reafirmou o compromisso do governo brasileiro com o diálogo. “Não queremos romper com os EUA. Não tomamos nenhuma ação hostil. Sempre procuramos negociar”, disse. Ele relatou, inclusive, que uma reunião telefônica entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, chegou a ser agendada, mas foi cancelada por “interferência externa”.

Governo vai comprar perecíveis que iriam para os EUA

O ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, anunciou que o governo federal passará a adquirir alimentos perecíveis — como frutas, carnes, peixes, mel, açaí e uvas — para abastecer programas públicos de alimentação.

A iniciativa, segundo Teixeira, visa evitar o desperdício desses produtos diante das oscilações no mercado internacional e garantir que eles sejam direcionados a políticas públicas estratégicas, como a merenda escolar, os hospitais, as Forças Armadas, os restaurantes universitários e os programas de combate à insegurança alimentar.

“O governo vai estimular que estados e municípios adquiram esses produtos por meio dos programas públicos de alimentação escolar”, afirmou o ministro, destacando que a medida resultará em uma alimentação mais nutritiva e de maior qualidade nas escolas públicas.

Teixeira explicou que o governo está atuando para regulamentar a comercialização desses alimentos no mercado interno, já que, segundo ele, alguns setores da agricultura conseguem redirecionar rapidamente a produção para o exterior, o que pode deixar o mercado interno desabastecido. “Nós estamos só regulamentando porque percebemos que alguns setores conseguem redirecionar rapidamente esses programas para outros países”, disse.

Entre os exemplos citados pelo ministro, estão a castanha — cuja exportação para a Europa tem crescido — e o café. “Hoje, não há café no mundo que substitua o produto brasileiro”, destacou. Já em relação à carne, o ministro lembrou que, por ser congelável, ela pode ser estocada e exportada posteriormente. No entanto, no caso dos alimentos mais perecíveis, o caminho será o consumo via programas de compras públicas.

Proteção à cadeia produtiva

Segundo Teixeira, os editais de compras públicas do governo federal passarão a incluir, de forma sistemática, a aquisição desses produtos. O objetivo é evitar prejuízos para os produtores e proteger toda a cadeia produtiva, do campo à mesa.

“O governo vai incluir em todos os seus editais de compras públicas a aquisição para que não haja perda de alimentos”, garantiu. A proposta é que o governo atue como regulador do mercado, comprando os produtos a preços praticados internamente. “Certamente, o governo não tem como pagar o preço em dólar, que é o preço de exportação. Mas o governo tem como pagar o preço do mercado interno”, explicou.

A medida também representa uma estratégia de fortalecimento da agricultura familiar e do abastecimento nacional em um momento de instabilidade nos mercados globais, segundo o ministro.

Áudio de Bolsonaro sobre tarifaço expõe chantagem política e pressiona Tarcísio

A revelação de um áudio do ex-presidente Jair Bolsonaro, em que condiciona negociações comerciais com os Estados Unidos à aprovação da anistia para golpistas de 2022 e 2023, provocou um abalo político com efeitos cruzados: alivia a pressão sobre o governo Lula e impõe um novo constrangimento à direita bolsonarista — especialmente ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, principal nome do campo conservador para 2026.

Na mensagem, enviada ao pastor Silas Malafaia no último dia 13 de julho, Bolsonaro afirma com todas as letras: “Se não começar votando a anistia, não tem negociação sobre tarifa”. A referência é à tarifa de 50% imposta pelo ex-presidente Donald Trump a produtos brasileiros. Bolsonaro sugere que a retirada dessa punição estaria diretamente ligada à aprovação, pelo Congresso, de uma anistia que o livraria de eventual condenação por tentativa de golpe. “Resolveu a anistia, resolveu tudo”, crava.

O áudio integra o relatório da Polícia Federal que resultou no indiciamento de Bolsonaro e de seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, por tentativa de coação no curso do processo sobre os ataques golpistas de 8 de janeiro. A gravação reforça que, mais do que uma divergência comercial, o tarifaço assumiu contornos de chantagem política e ingerência externa nos assuntos internos do Brasil.

O silêncio de Tarcísio e o peso do cálculo eleitoral

Mesmo diante da gravidade da revelação, Tarcísio de Freitas evitou comentar o conteúdo da fala de Bolsonaro. Preferiu criticar a divulgação das mensagens. “Me preocupa um pouco o rumo que as coisas estão tomando”, declarou, sugerindo que há investigações em curso por simples críticas — uma distorção do que está em jogo, já que o foco da investigação é uma tentativa de subversão da ordem democrática.

Ao adotar essa postura, Tarcísio sinaliza fidelidade ao padrinho político, mas também assume os riscos desse alinhamento. A omissão diante de uma tentativa explícita de condicionar a soberania nacional ao benefício pessoal do ex-presidente lança dúvidas sobre o compromisso do governador com princípios como autonomia institucional e autodeterminação nacional.

Trata-se de um cálculo político evidente: pesquisas recentes, como a Genial/Quaest divulgada hoje, mostram que a postura firme de Lula diante do tarifaço gerou dividendos eleitorais. O presidente melhorou sua avaliação e ampliou sua vantagem em simulações de segundo turno contra Tarcísio, passando de 4 para 8 pontos de diferença. Já Bolsonaro, cada vez mais associado a manobras antidemocráticas e ações de desestabilização, tornou-se tóxico para parcelas significativas do eleitorado.

Entre o Planalto e a Casa Branca: o que o áudio revela

A frase de Bolsonaro, na prática, sugere que ele utilizou ou tentou utilizar canais diplomáticos ou influências junto ao governo Trump para pressionar instituições brasileiras. O conteúdo da mensagem reforça que a imposição das tarifas pelos EUA não teve apenas fundamento comercial — como costuma ser alegado pelos aliados do ex-presidente —, mas se insere em uma estratégia geopolítica com objetivos internos no Brasil: livrá-lo de uma eventual responsabilização criminal.

O contexto não é trivial. Desde o início do mandato de Joe Biden, o governo Lula vem tentando reverter as tarifas que afetam diretamente setores como o madeireiro, calçadista e de armamentos. Mesmo antes disso, ainda durante o governo Trump, o Brasil já era alvo de taxações crescentes. A resistência à negociação não parece técnica, mas política.

Soberania em xeque

O episódio revela mais do que uma tentativa de chantagem: escancara o uso de relações internacionais como ferramenta de coerção sobre o Judiciário e o Legislativo brasileiros. Ao ignorar esse ponto e seguir atacando o governo federal pela falta de avanços nas negociações, setores da oposição corroboram, ainda que indiretamente, com uma lógica que relativiza a soberania nacional.

“Como confiar que, uma vez no poder, esses atores não cederão novamente às pressões de potências estrangeiras?”, pergunta-se uma parcela crescente do eleitorado, especialmente diante da clareza com que Bolsonaro sugere que sanções externas podem ser suspensas caso seus interesses pessoais sejam atendidos.

A resposta, por ora, se expressa nas pesquisas de opinião. Lula se beneficia da crise que não criou. Bolsonaro compromete seus aliados. E Tarcísio, ao seguir orbitando o núcleo bolsonarista sem demonstrar autonomia crítica, corre o risco de perder o capital político que vinha acumulando como gestor técnico e moderado.

Bolsonaro arrecada R$ 44,3 milhões após tentativa de golpe


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