17/07/2024 - Edição 550

Brasil

‘Se sua irmã dormir comigo, te dou ouro’: o assédio contra yanomamis

Bolsonaro tenta fugir de culpa por genocídio yanomami com tática 'E o PT?'

Publicado em 30/01/2023 7:20 - Fabíola Perez, Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On

Divulgação Imagem: Charles Vincent/ISA

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Garimpeiros de Boa Vista, em Roraima, oferecem perfumes, roupas, bebidas alcoólicas e até ouro para aliciar yanomamis e abusar sexualmente de meninas e mulheres em comunidades indígenas. A prática tem se intensificado com o avanço do garimpo ilegal na região.

“Aquela moça que você levou consigo é sua irmã? Se você fizer ela deitar comigo, sendo que você é o irmão mais velho dela, eu vou pagar 5 gramas de ouro.” – Depoimento de um yanomami sobre o aliciamento de um garimpeiro

O relato faz parte do relatório “Yanomami Sob Ataque”, produzido pelas associações Hutukara e Wanasseduume Ye’kwana e publicado em abril do ano passado. O documento reúne as formas mais recorrentes de aliciamento em terras Yanomami.

“O que se observa é a utilização do ouro e da comida como meios de seduzir e envolver indígenas e ter acesso aos seus territórios”, afirma Luísa Molina, antropóloga do ISA (Instituto Socioambiental).

O aliciamento é uma estratégia de entrada e permanência de garimpeiros em terras indígenas. “Eles prometem cestas básicas, motor de embarcações, porcentagens de ouro em troca de acessos aos territórios”, diz a antropóloga.

A violência sexual contra mulheres é outra forma de garantir a entrada às terras. “Elas têm seus corpos violados pela investida dos garimpeiros”, afirma Molina.

Uma fonte que trabalha em território Yanomami, mas preferiu não ser identificada, afirmou que pessoas mais velhas costumam ser mais resistentes ao aliciamento.

Já os indígenas mais jovens tendem a ser alvos preferenciais de garimpeiros. As abordagens são feitas em comércios e até em postos de saúde.

As principais formas de aliciamento são:

– Oferta de materiais de alto valor em troca de acesso a territórios;

– Oferta de porcentagem de ouro ou dinheiro em troca de acesso a regiões;

– Oferta de bebidas alcoólicas e armas;

– Oferta de trabalho para jovens como “seguranças” em áreas de garimpo;

– Oferta de acesso à internet nas cidades.

– Comida em troca de relações sexuais com indígenas

Segundo o relatório, garimpeiros abordam indígenas oferecendo comida em troca de relações sexuais com jovens. No documento, pesquisadores destacam trechos de diálogos entre eles:

Yanomami: “Vocês estão tirando ouro de nossa floresta, vocês devem dar comida para nós sem trocar.”

Garimpeiro: “Vocês não peçam nossa comida à toa! É evidente que você não trouxe sua filha! Somente depois de deitar com tua filha eu irei te dar comida. Se você tiver uma filha e a der para mim, eu vou fazer aterrizar uma grande quantidade de comida que você irá comer! Você se alimentará!”

Garimpeiro: “Se eu pegar tua filha, não vou mesmo deixar vocês passarem necessidade!”

Segundo o relatório, somente depois de tocar as jovens, os garimpeiros ofertam os alimentos.

Ouro e perfume para perderem o medo

O relatório mostra também as estratégias utilizadas para ganhar a confiança das mulheres. Segundo os pesquisadores, os alimentos são entregues para afastar o medo das jovens.

Yanomami: “Eles entregaram para mim comida sem razão! Talvez sejam generosos?'”

Garimpeiro: “Da próxima vez que você vem, vou comprar uma saia que te entregarei!”. “Irei te entregar também ouro. Com aquele ouro, você poderá pegar aquilo que você gostar!”

“Se você quiser tomar cachaça, vou comprar cachaça”

Consta no documento que garimpeiros abusam sexualmente de mulheres quando estão sob efeito de álcool.

Há relatos, segundo a fonte ouvida pela reportagem, que grupos de garimpeiros convidam yanomamis para eventos e oferecem bebidas alcoólicas para abusar de meninas e mulheres.

Pouco habituados ao consumo de álcool, os indígenas sentem mais rapidamente os efeitos da bebida – e os garimpeiros se valeriam disso para cometer os crimes.

“Vivo com angústia”

Para a maior parte das mulheres indígenas, segundo o relatório, os homens do garimpo representam uma “terrível ameaça”, gerando um clima de terror e angústia permanente nas aldeias.

Yanomami: “Quando as pessoas disseram que eles se aproximavam, eu fiquei com medo. Por isso, desde que ouço falar dos garimpeiros, eu vivo com angústia.”

Doenças e estupros

A transmissão de doenças sexualmente transmissíveis é outro tema recorrente nos relatos de mulheres indígenas. Com o avanço do garimpo ilegal, organizações que atuam no local têm enfrentado dificuldade para entrar em algumas áreas.

Esse cenário, segundo fontes ouvidas pelo UOL, faz com que muitas não tenham acesso a exames e tampouco tenham problemas diagnosticados, gerando subnotificação.

Depois que os garimpeiros que cobiçam o ouro, estragaram as vaginas das mulheres, fizeram elas adoecer. Estão transando muito com as mulheres. É tanto assim que, em 2020, três moças, que tinham apenas por volta de 13 anos, morreram. Os garimpeiros estupraram muito essas moças, embriagadas de cachaça. Elas eram novas, tendo apenas tido a primeira menstruação.” – Relatos de um yanomami que consta no documento.

“Quero morrer simplesmente de velhice”

Os relatos colocam a invasão de terra indígenas em um novo patamar. “É algo tão profundo que elas não têm como determinar se vão morrer de velhice ou não. É como se estivessem vivendo um estado de guerra”, diz o documento.

“Não queremos que nossos maridos sejam mortos pelos garimpeiros, depois que se instalem nas proximidades. Não quero morrer de fome. Eu quero morrer simplesmente de velhice, sem outras causas. Eu quero morrer como uma mulher idosa.”

E o PT?

Sentindo que vai se formando um consenso de que suas ações e omissões representaram uma tentativa de genocídio dos yanomamis, Bolsonaro se pronunciou nas redes sociais e resgatou a velha tática “E o PT?”

“A verdade Yanomami: nunca um governo dispensou tanta atenção e meios aos indígenas como Jair Bolsonaro”, tuitou ele, no sábado (28), trazendo um link para um relatório de uma CPI no Congresso concluída em 2008, ou seja, durante o segundo governo Lula, sobre desnutrição infantil em territórios indígenas.

Detalhe que o epicentro dos problemas era Mato Grosso do Sul e Maranhão naquela época. A fome não era um problema sistêmico para os yanomamis, como afirmou ao jornal Folha de S.Paulo o seu líder, Davi Kopenawa. E o poder público agia contra a fome enquanto Bolsonaro a incentivou ao estimular a invasão da terra indígena por garimpeiros e desmobilizar a fiscalização. Sim, tivemos um presidente que intencionalmente agiu contra um povo inteiro.

Ou seja, a postagem é uma nuvem de fumaça produzida pelo ex-presidente para que seu rebanho possa responder às discussões no grupo de zap da família.

Sem contar a hipocrisia de Jair. Uma das soluções para a fome indígena é avançar nas demarcações de territórios – coisa que Jair prometeu não fazer de jeito nenhum e cumpriu. Além de garantir mais acesso de saúde aos indígenas – coisa que Jair se negou a fazer até durante a pandemia de covid-19.

Como resultado, temos uma crise humanitária sem precedentes, com 570 crianças de menos de cinco anos mortas em quatro anos de seu governo, segundo levantamento do portal Sumaúma. Segundo a nova presidente da Funai, Joenia Wapichana, em entrevista ao UOL, esse número já cresceu com 100 novos casos.

Nenhum governo vergonhosamente garantiu o total cumprimento dos direitos dos povos indígenas, ressalte-se. A diferença com Bolsonaro é que ele tinha um projeto e impôs a eles um ultimato: ou se aculturavam e liberavam suas terras para serem exploradas por garimpeiros, madeireiros e fazendeiros ou morriam de fome, de doença, à bala. Dessa forma, retomou o genocídio de onde a ditadura militar havia parado.

A colheita de mortos a partir da situação semeada e adubada por ele aumenta a chance de ser punido por esse genocídio. Talvez não no Brasil, que ainda engatinha no respeito aos direitos de povos e comunidades tradicionais, mas fora.

“Nunca um governo dispensou tanta atenção e meios aos indígenas como Jair Bolsonaro.” Num ponto, ele está certo. Ele tinha verdadeira fixação.

Jair já disse que indígenas são “fedorentos”, “animais em zoológico”, mandou eles “comerem capim”, afirmou que “cada vez mais são seres humanos iguais a nós” – ou seja, um dia chegam lá. A sua verborragia violenta produziu provas contra ele, ajudando a expor esse projeto genocida de tomada de terras. Nenhum mandatário chegou perto de dar tanta atenção negativa quanto ele.

Tanta dedicação merece ser reconhecida. Pelo Tribunal Penal Internacional, em Haia.


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