22/06/2024 - Edição 540

Brasil

Queda no preço da carne é tão ruim para Bolsonaro quanto sumiço das joias

Grande parte da classe trabalhadora está mais interessada no seu poder de compra do que no destino das joias, no golpe, no cartão de vacina

Publicado em 14/09/2023 9:10 - Leonardo Sakamoto - UOL

Divulgação Pixabay

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Diante da promessa de campanha de Lula de que, em seu governo, as famílias voltariam a comer picanha e tomar cerveja, o então candidato Jair Bolsonaro disse que a promessa era “conversa mole”. E cravou em agosto: “não tem filé-mignon pra todo mundo!”

Como o mundo é redondo e, portanto, dá voltas, o filé-mignon foi o corte que apresentou a maior queda de preço desde o início do governo do petista, com 16,95%. Mais do que a redução da alcatra (-13,46%) e do contrafilé (-11,77%). Os dados são do IPCA, a inflação oficial medida pelo IBGE, de agosto.

Para os planos eleitorais do bolsonarismo, a notícia é tão ruim quanto os escândalos criminais que envolvem Jair e família. Pois grande parte da classe trabalhadora está mais interessada no seu poder de compra do que no destino das joias, no golpe, no cartão de vacina. A melhora da percepção da qualidade de vida sob Lula aumenta a força do petista como cabo eleitoral e, consequentemente, diminui a de Jair – que pode ficar marcado como um tempo de doença, busca por ossos e vacas magras.

A picanha, por sua vez, acumula uma queda de 9,14% no ano, enquanto a cerveja aponta alta de 3,66%. Como o peso da carne é maior que o da bebida, no saldo, o churrasco de final de semana ficou bem mais barato.

A queda no preço da ração, o aumento de oferta de determinados cortes no mercado interno, a relação com a exportação, enfim, há uma série de elementos influenciado na queda – que, ao que tudo indica, deve continuar.

Se a picanha tem lugar cativo nos discursos de Lula, o filé-mignon conta com seu espaço nos de Bolsonaro.

Em 18 de julho de 2019, em sua live semanal, o então presidente mostrou que, em caso de pouco filé-mignon, quem primeiro levaria sua parte são seus filhos.

Ao defender a indicação do deputado federal Eduardo Bolsonaro ao cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, disse: “Lógico, que é filho meu, pretendo beneficiar filho meu, sim. Pretendo, se puder, dar filé-mignon”.

No final, a pressão da opinião pública foi tão grande que os planos foram interrompidos e o deputado não levou o filé pago com dinheiro do contribuinte. Mas foi o suficiente para perceber, já nos primeiros meses de seu mandato, que o presidente teria uma visão pitoresca sobre a diferença do público e do privado.

Tanto que encerrou seu governo com o escândalo das joias doadas ao patrimônio do Brasil por governos árabes, contrabandeadas, desviadas, surrupiadas e vendidas em nome de sua glória.

A declaração de que não haveria carne com valor acessível foi péssima para a sua campanha à reeleição e foi explorada pelos adversários. Reforçou Jair com a imagem de candidato dos ricos, apesar de ele tentar desesperadoramente trazer os mais pobres para perto. Não conseguiu e Lula foi eleito.

As classes D e E não esperavam comer filé-mignon e picanha todos os dias – até porque, mesmo com a queda, eles não são produtos para o dia a dia. Mas com a inflação alta e a queda da renda, a compra eventual desses produtos deixou de acontecer. Na verdade, a compra da carne bovina deixou de acontecer.

Quem comia carne, passou para o frango; quem comia frango, migrou para o ovo. E quem comia ovo e não tinha mais como comprar? Bem, tivemos cenas que ficaram tristemente célebres, como as de famílias revirando caçambas de caminhão de lixo e disputando doação de ossos de boi.

Mesmo com o Auxílio Brasil, em menos de dois anos, entre 2020 e 2022, o número de famintos subiu de 19 milhões para 33,1 milhões, segundo dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar.

No mesmo dia 26 de agosto da declaração sobre o filé, Jair afirmou que a fome era uma fake news no Brasil, que ela não existia “pra valer”. Ainda hoje, os seguidores mais radicais do ex-presidente dizem, nas redes sociais, que o IBGE mente e que o preço da carne subiu. Sobra, dessa forma, mais carne para quem acredita em números.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *