01/03/2024 - Edição 525

Brasil

Procuradoria relaciona ataques em escolas à cultura de ódio e armas de Bolsonaro

De Realengo a Blumenau, massacres em escolas crescem junto com a extrema-direita no país

Publicado em 18/04/2023 11:24 - Plinio Teodoro (Fórum), Bruna Pauxis (Congresso em Foco), Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Em nota pública divulgada ontem (18), a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), órgão do Ministério Público Federal (MPF), relacionou a onda de ataques a escolas públicas e privadas no Brasil à cultura armamentista e de ódio propagada por Jair Bolsonaro e à atuação de “parlamentares extremistas” ligadas ao ex-presidente e a grupos fascistas da ultradireita.

“Não podemos deixar de lado outra peça fundamental desse complexo quebra-cabeças: o culto às armas de fogo e a facilitação a seu acesso amplamente promovida e incentivada nos últimos quatro anos. A maior disponibilidade de revólveres, pistolas, espingardas e até mesmo fuzis amplia as probabilidades de seu uso nesses ataques a escolas”, diz o texto assinado por 40 procuradores ao elencar fatores que desencadearam a violência nas escolas.

Neste ponto, os procuradores chamam a atenção para “notícia veiculada logo após os ataques de abril, em que um clube de caça na cidade de Jataí, Goiás, promovia curso de tiro voltado para crianças, com o uso de pistolas de ar comprimido”.

Segundo os procuradores, “o cenário pavoroso de hoje não surgiu por mágica”. “Ele resulta da combinação de múltiplos fatores, que incluem o ambiente escolar, as redes sociais e o discurso de ódio”.

Para os procuradores, os jovens do sexo masculino que praticam os ataques, alguns vítimas de bullying e outros com sinais de transtornos psíquicos não diagnosticados, são cooptados pela “efervescência do discurso de ódio, em conjunto com a banalização da violência, que tomou os meios de comunicação nos últimos anos”.

“Pessoas públicas externando ideias preconceituosas, desdenhando e atacando minorias, promovendo discursos ofensivos à Constituição da República e aos direitos humanos, atacando o sistema de ensino e produzindo um ambiente favorável à fermentação de uma cultura de rancor”, diz a nota.

Ao citar a ação de “parlamentares extremistas”, os procuradores focam no discurso da ultradireita fascista, aliada a segmentos religiosos, que criam fake news para atacar professores e incitar o ódio contra as escolas.

“Parlamentares extremistas vêm propondo normas visando ao impedimento da diversidade nas escolas, tachando as instituições e seus corpos docentes de doutrinadores comunistas e promotores da chamada ideologia de gênero, uma falácia empregada para proibir a educação sexual nas escolas, num país em que mais de 70% dos abusos sexuais contra crianças são cometidos por familiares, no lar do abusador ou da vítima”.

Como solução, a procuradoria pede o cumprimento da lei que prevê prestação de serviços de psicologia e serviço social nos estabelecimentos da rede pública de ensino e a regulamentação e controle das plataformas digitais, entre outras propostas.

“O mundo virtual é a extensão do ambiente físico, no qual é fundamental o respeito aos princípios constitucionais e ao ordenamento jurídico brasileiro. Seu potencial de estrago à imagem de uma pessoa, de uma instituição, de um país, é infinitamente maior do que no ambiente físico, devido à rapidez da sua propagação”.

Por fim, a nota exorta união da sociedade civil, iniciativa privada e poder público “por um ambiente mais seguro em nossas escolas e por um futuro pacífico para o nosso país”.

“O problema é complexo e requer resposta urgente, mas haverá solução se nos envolvermos mais na proteção de nossas crianças e de nossas instituições de ensino. Ou as escolas
voltam a ser santuários de saber e acolhimento, ou nosso destino será a volta à barbárie”.

Leia a íntegra

De Realengo a Blumenau

No início da manhã do último dia 5, em Blumenau (SC), um homem armado com uma machadinha pulou os muros de uma creche e matou quatro alunos entre quatro e sete anos. As crianças se juntam aos 12 estudantes mortos em Realengo (RJ), em 2011, por um ex-aluno da escola, aos cinco de Suzano (SP) assassinados a tiros por dois atiradores e a muitas outras vítimas desse tipo de crime que vem crescendo nos últimos anos no Brasil.

Segundo um mapeamento da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) sobre casos de ataques em escolas por alunos ou ex-alunos, o primeiro episódio foi registrado em 2002, quando um adolescente de 17 anos disparou contra duas colegas dentro da sala de aula de uma escola particular de Salvador. Desde esse caso, foram contabilizados 22 ataques, 13 deles realizados nos últimos dois anos.

Os ataques e as ameaças que na maioria das vezes não chegam a acontecer geram pânico. Aulas canceladas, pais buscando os filhos mais cedo e alunos assustados. A rotina das escolas brasileiras tem mudado e o país presencia uma realidade que até então parecia restrita ao noticiário norte-americano.

Para o professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Daniel Cara, há um fenômeno “novo e inaceitável”, que é a vingança contra as escolas e a sociedade por meio dos ataques. “O extremismo de direita, neonazista e fascista, oferece uma cultura que tenta justificar e propagar a violência. Quase todos os promotores de ataques circulavam em comunidades de ódio organizadas sob a cultura neonazista e fascista”, aponta.

Culto da Violência

Há diversas comunidades online que exaltam os autores de massacres em escolas, frequentemente associados a símbolos do nazismo e fascismo. Para o historiador Daniel Pradera, os ataques têm relação direta com ideologias de extrema-direita. “A maioria dos ataques se dá contra alvos minoritários. A preferência de alvo desses ataques é sempre mulher. A gente vê um perigo que os corpos femininos correm, em específico. E a misoginia é um ponto catalisador da extrema-direita, o que possibilita a radicalização de muitos adolescentes”, explica.

Ainda segundo Pradera, o governo Bolsonaro fomentou o chamado culto da violência e “empurrou” muitos direitistas ao extremo da ideologia. “A gente tem uma extrema-direita que se veste com uma roupagem de direita e tenta se posicionar como moderada, o que é um equívoco. É lógico que não é possível falar disso sem falar da ascensão do bolsonarismo, do governo do Bolsonaro, que durou até o ano passado. Isso também foi um grande potencializador, através dos CAC’s [colecionador, atirador desportivo e caçador], de uma escalada na violência política. É exatamente um reflexo dessa violência do governo Bolsonaro que está ocorrendo nas escolas.”

Violência contra violência

No último dia 10, o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), informou que todas as 1.053 escolas estaduais contarão com ao menos um policial armado em até 60 dias. O projeto custará R$ 70 milhões ao ano e envolve policiais militares que estão na ativa e aposentados.

A medida tenta seguir o que é feito nos Estados Unidos, embora lá já tenha se mostrado uma medida ineficiente. Uma pesquisa publicada em 2019 na revista científica Journal of Adolescent Health, revisou 179 episódios de tiroteios em escolas americanas entre 1999 e 2018 e concluiu que manter guardas armados na escola não reduziu o número de vítimas em massacres. Para a professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB) Débora Messenberg, a resposta é clara: não se pode “combater violência com violência”. “Se fosse assim, aquela velha teoria das penas mais punitivistas controlaria a violência. Isso não controla. A violência é sistêmica, ela existe na sociedade em função de uma série de causas, que essas sim precisam ser enfrentadas”, explica Messenberg.

Segundo a professora, a resposta está na prevenção dos conteúdos veiculados e do combate à cultura da violência. “As pessoas percebem a violência nesse sentido, como o combate a ela somente de forma violenta e não conseguem perceber que a questão é muito mais de prevenção, controle de conteúdos, de não estímulo à cultura da violência. E aí estamos vivendo um momento bastante difícil, não só pela não regulamentação das redes sociais, onde tudo está sendo válido, como uma liberação de um discurso de cunho fascista que alimenta esse ambiente de ódio”, afirma.

Prevenção e controle

O professor e sociólogo Marcos Rolim, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, também aponta para a questão do monitoramento da internet e de possíveis indivíduos e grupos perigosos. “O desafio da prevenção envolve recursos de inteligência policial e colaboração das ‘big techs’ no monitoramento de grupos potencialmente violentos que se organizam na internet, para detecção de planos de ataque. Sabe-se que há um perfil de perpetradores que são quase sempre jovens do sexo masculino, marginalizados socialmente, misóginos, que glorificam armas e violência e se vinculam a grupos de extrema-direita de perfil nazifascista”, completa.

Em relação ao ambiente escolar, Rolim recomenda que a prevenção dos ataques deve se basear na CPTED (Crime Prevention Through Environmental Design), ou seja, na prevenção de crimes por meio da adaptação do ambiente escolar. A sigla em inglês se refere a uma estratégia que considera que as características físicas do espaço podem reduzir o crime. “Controlar melhor, por exemplo, o acesso de pessoas de fora da escola aos estabelecimentos com medidas de natureza arquitetônica. Internamente, é muito importante, para a prevenção, melhorar o clima escolar, fazendo com que a escola seja um espaço de acolhimento e respeito, como foco na redução do bullying e em posturas discriminatórias, porque parte dos perpetradores age por vingança diante de experiências vividas na escola”, aponta.

Problema das escolas não é detector de metal, mas falta de água e banheiro

Pressionados pelo pânico após os ataques a escolas, parlamentares estão discutindo detectores de metal, altura de muros, catracas e sistemas de reconhecimento facial. Tratar do assunto dessa forma pode ajudar a mostrar serviço aos eleitores, mas nem resolverá a questão dos ataques, nem os problemas da educação que atingem milhões, como a falta de banheiros, de água, de internet.

O Brasil tem cerca de 190 mil escolas e pouco mais de 20 ataques com feridos nas últimas duas décadas. A chance de os filhos de alguém estudarem em um local que foi alvo de agressão é muito baixa. Contudo, o mesmo não pode ser dito da chance de eles frequentarem uma escola sem lugar para poderem fazer suas necessidades fisiológicas mais básicas.

De acordo com o Censo Escolar da Educação Básica 2021, o Brasil tem 5,2 mil escolas públicas sem banheiros, 3,5 mil sem abastecimento de água e 8,1 mil sem água potável.

O pânico que tomou as redes sociais e os aplicativos de mensagens após os recentes ataques a escolas faz com que os potenciais agressores pareçam numerosos. Mas o número deles é diminuto, como vêm tranquilizando os pesquisadores e as forças de segurança que monitoram esses grupos. Boa parte das ameaças que estão circulando, aliás, nem têm origem nos grupos de jovens de extrema direita, mas são fruto de molecagens irresponsáveis de adolescentes que querem pregar peças ou desejam cancelar aulas.

No curto prazo, ações mais efetivas passam pela imprensa evitar circular imagens e identidade dos criminosos para impedir sua mitificação; pelas plataformas removerem conteúdos de promoção de violência de suas redes sociais; por forças de segurança continuarem desbaratando tentativas de ataques; e por nós mesmos não contribuirmos com a desinformação, nem criarmos pânico.

Para além disso, o poder público terá que melhorar as estruturas de atendimento à comunidade escolar, com destaque para a ação de psicólogos, o treinamento de professores, os acolhimentos dos medos e traumas principalmente neste pós-pandemia e a identificação e o acompanhamento de estudantes com problemas. Isso sem contar a promoção de uma cultura de paz e de diálogo, ao invés de ações em nome do armamentismo e da violência.

Até porque, quando não são armas, podem ser facas e machadinhas. Ou gasolina. Ou um pau colhido no jardim da escola, como temos visto em outras partes do mundo. Mesmo se houvesse dinheiro para detectores de metal em todas as unidades de educação, eles não seriam efetivos.

É importante ações que realmente garantam a segurança da comunidade escolar e não medidas para eleitor ver. Mas tão importante quanto é não esquecer que o grande problema da educação no Brasil é que temos uma educação por construir.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *