Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Brasil

Prisão de Daniel Vorcaro expõe tentáculos políticos e religiosos na Faria Lima

Tem investimento ou relações com o Banco Master? Saiba o que fazer após a liquidação da instituição

Publicado em 18/11/2025 2:10 - Semana On, UOL, ICL Notícias

Divulgação Reprodução Metrópole

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

A Polícia Federal prendeu na manhã desta terça-feira (18) o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em São Paulo. Augusto Lima, outro sócio do Master, também foi preso. A prisão ocorre no âmbito da Operação Compliance Zero, que combate a emissão de títulos de crédito falsos por instituições financeiras que integram o Sistema Financeiro Nacional.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

Na mesma operação, policiais federais cumprem cinco mandados de prisão preventiva, dois mandados de prisão temporária e 25 mandados de busca e apreensão, além de medidas cautelares diversas da prisão, nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e no Distrito Federal.

As investigações tiveram início em 2024, após requisição do Ministério Público Federal, para investigar a possível fabricação de carteiras de crédito insubsistentes por uma instituição financeira. Tais títulos teriam sido vendidos a outro banco e, após fiscalização do Banco Central, substituídos por outros ativos sem avaliação técnica adequada.

Estão sendo investigados os crimes de gestão fraudulenta, gestão temerária, organização criminosa, entre outros.

A prisão de Vorcaro ocorre um dia depois de a Fictor Holding Financeira ter feito proposta de compra do Banco Master.

O negócio, liderado pela Fictor e um consórcio de investidores dos Emirados Árabes Unidos, está sujeito à aprovação do Banco Central e do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), disse a Fictor em comunicado.

Em setembro, o Banco Central rejeitou uma tentativa do BRB (Banco de Brasília) de adquirir o Master.

Em março, o conselho de administração do BRB aprovou a celebração de um contrato para a compra e venda de ações do Banco Master. Pelo acordo, o banco de Brasília adquiria 49% das ações ordinárias e 100% das preferenciais, passando a deter 58% do capital total da instituição — equivalente a R$ 23 bilhões em ativos — e garantindo participação com direito a voto no conselho de administração.

Para concretizar a operação, o BRB desembolsaria um valor correspondente a 75% do patrimônio líquido do Master.

A Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) já havia dado aval à transação, sem impor qualquer restrição.

No entanto, o Banco Central decidiu barrar a compra. O principal motivo foi o chamado risco de sucessão, que ocorre quando, em uma aquisição, o comprador pode herdar passivos e responsabilidades do vendedor — mesmo aqueles não incluídos de forma explícita no negócio.

No caso do Banco Master, havia receio de que dívidas e ativos problemáticos que ficassem de fora da operação acabassem, ainda assim, vinculados ao BRB após a aquisição, o que poderia comprometer a saúde financeira da instituição.

Prisão deve ser mantida por risco de fuga

O jurista Wálter Maierovitch defende a manutenção da prisão cautelar de Daniel Vorcaro, diante dos indícios de tentativa de fuga do país e da gravidade das acusações.

Segundo Maierovitch, a prisão foi uma medida acertada por parte da Polícia Federal. “Ele já estava com o pé no avião para Dubai. Estava, como se diz na gíria, pronto para tirar o time de campo”, afirmou o jurista. A detenção ocorreu após uma operação suspeita envolvendo a venda do Banco Master ao BRB por mais de R$ 12 bilhões — transação que contrariava normas do Banco Central.

“Trata-se de uma fraude grosseira. O Banco Master prestou informação falsa ao Banco Central. Além disso, essa negociação já estava proibida quando foi realizada”, explicou.

Para Maierovitch, há um risco concreto de que Vorcaro tente escapar das investigações, o que justifica a prisão preventiva. “Essa prisão é necessária e deve ser mantida até que tudo seja apurado. A única saída que esse banqueiro vê é fugir. Portanto, não se pode suspender essa medida.”

O jurista destaca ainda que os indícios de tentativa de fuga têm base sólida e reforçam a gravidade do caso. “É uma ação proibida, que o Banco Central já havia vetado. Apesar disso, o negócio foi feito, e de forma ruinosa. De repente, esse sujeito está deixando o país. Os indícios são fortíssimos. Ninguém aqui é ingênuo”, concluiu.

Edu Moreira: ‘Pode desvendar funcionamento da Faria Lima’

A prisão de Daniel Vorcaro e a liquidação extrajudicial da instituição financeira pelo Banco Central podem representar uma oportunidade histórica para desvendar os mecanismos internos do mercado financeiro brasileiro, particularmente os que operam sob a influência da chamada “Faria Lima”. A avaliação é do economista e ex-banqueiro Eduardo Moreira, fundador do Instituto Conhecimento Liberta (ICL).

“Se puxarmos essa corda, teremos a maior aula da história sobre como funciona o mercado financeiro no Brasil”, afirmou Moreira durante a edição desta terça-feira (18) do programa ICL Notícias – 1ª edição. Ele aponta que a operação que levou à prisão de Vorcaro pode lançar luz sobre relações obscuras entre bancos, fundos de pensão e figuras políticas de alto escalão.

Segundo o economista, o Banco Master já vinha adotando estratégias arriscadas, como a emissão de CDBs com taxas muito acima da média de mercado, além da aquisição de precatórios depreciados. “É um escândalo com proporções inéditas no Brasil, com potencial de atingir diversos setores e personagens poderosos”, afirmou. “O problema não é identificar os responsáveis, mas reunir provas suficientes para que sejam punidos.”

Moreira argumenta que o crescimento acelerado do banco é, no mínimo, questionável. Entre 2019 e 2024, o patrimônio declarado da instituição teria passado de R$ 219 milhões para cerca de R$ 5 bilhões, enquanto o lucro líquido saltou de R$ 18,5 milhões para R$ 38 milhões. “Quem tem empresa sabe que esse crescimento é impossível de forma orgânica. Multiplicaram o patrimônio em 25 vezes”, observou.

De acordo com ele, esse avanço se deu com base em uma política agressiva de captação de recursos. “O banco oferecia as maiores taxas do mercado para atrair investidores, amparado no argumento de que o FGC garante os depósitos. É uma distorção perigosa do sistema, que permite que pequenos bancos criem um volume insustentável de dívidas.”

Além da engenharia financeira, Moreira apontou o uso de estratégias de influência e blindagem por parte de Vorcaro. “Ele comprou passagem para a alta sociedade: hotel de luxo, jatinhos, benesses distribuídas a quem tinha poder. Virou vantajoso ser amigo de Vorcaro”, disse.

Segundo o jornalista Luís Costa Pinto, comentarista do ICL, entre os nomes que orbitavam o círculo de influência do banqueiro estavam ex-presidentes e conselheiros do Banco Central, além de políticos com trânsito no governo e no Judiciário. “Michel Temer foi colocado para facilitar os canais entre o banco e o governo do Distrito Federal. Também foram contratados Guido Mantega e o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, para abrir portas no mercado”, afirmou.

Para Moreira, o caso escancara o que ele define como “crime organizado de colarinho branco”, sustentado por uma rede que conecta bancos, agentes públicos e fundos de pensão. “Se forem a fundo nas relações entre esses bancos e figuras políticas, o escândalo será monstruoso. Estamos falando de uma estrutura comparável a máfias. Há três bancos no país com esse tipo de conexão, e o Master era um deles”, afirmou.

O episódio também reascende o debate sobre o papel dos órgãos reguladores. Moreira elogiou a atuação do Banco Central na decisão de barrar a aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB), anunciada em março. “Houve pressão para que essa operação fosse aprovada. Mas o Banco Central peitou e fez o que tinha que fazer”, disse.

A liquidação extrajudicial do Banco Master foi decretada nesta terça-feira (18), um dia após a prisão de Daniel Vorcaro, detido no aeroporto de Guarulhos enquanto tentava embarcar para Malta, segundo a Polícia Federal. A medida acionou o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que prevê ressarcimento de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, limitado a R$ 1 milhão a cada quatro anos. Investidores com aplicações acima desse teto não serão reembolsados.

Relações políticas de Daniel Vorcaro incluem nomes centrais do centrão

As investigações que levaram à prisão de Daniel Vorcaro revelam não apenas uma engenharia financeira arriscada, mas também conexões políticas de alto nível. Segundo o jornalista Luís Costa Pinto, do ICL Notícias, figuras influentes como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, e o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), estão entre os principais aliados de Vorcaro no mundo político.

“Vorcaro tem um laço muito estreito com estruturas políticas em Brasília. Seus maiores amigos na política são Ciro Nogueira, Antonio Rueda e Arthur Lira”, afirmou Costa Pinto.

A declaração reforça as suspeitas de que o Banco Master, além de operar com práticas financeiras questionáveis, contava com respaldo político para tentar evitar a intervenção do Banco Central. Em março, o BRB (Banco de Brasília), controlado pelo Governo do Distrito Federal, chegou a aprovar um contrato para adquirir 58% do capital total do Banco Master, operação que envolvia cerca de R$ 23 bilhões em ativos.

Segundo Costa Pinto, a articulação política para essa operação teria partido diretamente de Ciro Nogueira. “Ele levou Daniel Vorcaro para dentro do GDF, comandado por Ibaneis Rocha (MDB), e sugeriu que o BRB fosse utilizado para salvar o Banco Master, que já dava sinais de insolvência”, revelou.

O jornalista destacou ainda que o BRB, embora seja um banco estadual, teria se transformado em peça central de um sistema de financiamento de interesses privados. “O BRB virou o braço financeiro do capitalismo de compadrio em Brasília. Grandes projetos e privatizações, como os do estádio Mané Garrincha e do Centro de Convenções, passaram por ali. Tudo com o apoio financeiro do banco, muitas vezes sem lastro suficiente”, disse.

A operação da Polícia Federal que prendeu Vorcaro e outro executivo do Master, Augusto Lima, faz parte da “Compliance Zero”, que investiga a emissão de títulos de crédito falsos no sistema financeiro nacional. Segundo Costa Pinto, o escândalo pode abrir uma janela para expor os “porões” que conectam recursos públicos, investimentos privados e articulações políticas.

“Estamos falando de um banco que se alavancou vendendo CDBs com retorno de 120% a 150% do CDI, uma taxa insustentável. Isso comprometeu até 60% do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que é público. É uma operação temerária, com indícios claros de corrupção e gestão fraudulenta”, explicou.

O jornalista revelou ainda que, diante da iminente intervenção, Vorcaro tentou atrair novos sócios e evitar a liquidação extrajudicial, mas não teve sucesso. “Eles chegaram a montar uma operação diversionista para evitar o colapso, mas a PF já estava nas ruas. Agora, com o banco liquidado, os sócios controladores terão de responder com seus patrimônios pessoais.”

Costa Pinto aponta que o crescimento do Master se deu sob a gestão do Banco Central no governo Bolsonaro, que teria “fechado os olhos” para as fragilidades da instituição. “Vorcaro se tornou um ator financeiro poderoso e ousado justamente nesse período em que o BC demonstrou conivência.”

Ele encerrou com um alerta: “Estamos diante de um escândalo com potencial de expor como funciona o cruzamento entre política, mercado financeiro e uso de recursos públicos no Brasil. É o tipo de caso que, se for investigado com seriedade, pode abalar estruturas profundas do sistema.”

Quem É Daniel Vorcaro

Daniel Vorcaro cresceu em meio a uma família marcada por reviravoltas. Filho de um casal jovem — o pai, Henrique, tinha 20 anos quando se casou; a mãe, apenas 16 —, Vorcaro viu sua infância atravessada por instabilidades familiares e mudanças abruptas de rumo. Tão precoce era o casamento dos pais que alguns tios têm praticamente a sua idade.

Henrique Vorcaro, o pai, levava uma vida boêmia, marcada por festas e noitadas com amigos. Mas a rotina de excessos passou a ser vista com preocupação por Serafim Vorcaro, o avô, um imigrante italiano que abandonara o catolicismo para se tornar pastor protestante. À frente de sua própria igreja, Serafim acreditava que o filho precisava de disciplina espiritual. Foi ele quem levou Henrique para a Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, então liderada pelo pastor Márcio Valadão.

A conversão surtiu efeito. Henrique deixou a boemia, dedicou-se à corretagem de imóveis e prosperou. Em retribuição ao novo rumo dado à vida, passou a fazer doações substanciais à Lagoinha — incluindo o aporte que permitiu, em 1997, a compra da emissora Rede Super, até então pertencente a um ex-executivo da Rede Globo.

Foi nessa emissora que Daniel Vorcaro, então um jovem entusiasta da música, estreou na televisão. Ele comandou por um período o programa “Supersônica”.

Os vínculos da família com a igreja se estreitaram. Em um episódio emblemático, André Valadão, filho do pastor Márcio e atual líder da Lagoinha, confidenciou a amigos o desejo de ter uma BMW. Conseguiu comprar o carro financiado, mas logo enfrentou dificuldades para pagar. Ao saber da situação, Henrique Vorcaro quitou a dívida e rasgou as promissórias. O gesto foi celebrado publicamente por André como um “milagre de Deus”.

Anos depois, os laços se fortaleceram ainda mais: a filha de Daniel Vorcaro dançou a valsa dos 15 anos com o filho de André Valadão, em uma festa que chamou atenção pela ostentação — show do DJ Alok e orçamento estimado em R$ 15 milhões, segundo a imprensa de Belo Horizonte. À época, Daniel já ocupava o posto de banqueiro de destaque, tendo multiplicado o patrimônio líquido do Banco Master de R$ 219 milhões para R$ 5 bilhões em apenas cinco anos.

A trajetória meteórica, no entanto, sofreu uma guinada em 2025. Na noite de segunda-feira, Daniel Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para embarcar em um jatinho particular rumo ao exterior. A prisão ocorreu poucas horas depois de a Fictor Holding Financeira anunciar a compra do Banco Master, com um aporte de R$ 3 bilhões.

Vorcaro é um dos alvos da Operação Compliance Zero, deflagrada para investigar a emissão de títulos de crédito falsos por instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional. O escândalo levou à liquidação do Banco Master e encerrou, pelo menos por ora, a escalada fulminante do banqueiro que um dia viu a fé da família ser recompensada com um “milagre”.

Uma reportagem da edição de outubro de 2024 da piauí contou como Vorcaro se tornou uma das figuras mais comentadas da Avenida Faria Lima, o coração financeiro de São Paulo – e a quem se aliou até chegar lá (leia a íntegra aqui).

De um curso de ensino médio ao controle de um banco de R$ 50 bilhões

Vorcaro deu os primeiros passos como empresário ainda adolescente. Aos 19 anos, assumiu a gestão de um curso de ensino médio e de uma empresa de livros didáticos adquiridos por seu pai, Henrique Vorcaro. O negócio, registrado como PQS Empreendimentos Educacionais, foi, segundo Daniel, seu primeiro sucesso. “Sempre disseram que eu era jovem demais para isso. Enfrentei preconceito, dúvidas, mas reestruturei a empresa e, em dois anos, vendi”, afirmou.

A versão, no entanto, é contestada por ex-funcionários da empresa. Segundo relatos, a gestão foi confusa, marcada por conflitos entre as áreas de ensino e de publicações, o que comprometeu o desempenho do negócio. O curso acabou sendo vendido a uma rede de educação de Belo Horizonte.

Em 2004, aos 21 anos, Daniel passou a integrar os negócios do pai, que incluíam as incorporadoras Multipar e Mercatto, além da Pacific Realty, especializada em locação de imóveis. Sete anos depois, em 2011, se aproximou dos irmãos Antonio Augusto Conte e Vicente Conte Neto, herdeiros de uma administradora de cemitérios e, à época, sócios da gestora de recursos Blackwood.

A parceria rendeu um projeto ambicioso: a construção de um hotel de luxo em Belo Horizonte, aproveitando incentivos oferecidos pela prefeitura às vésperas da Copa do Mundo de 2014. A ideia era transformar um prédio abandonado na região central em uma torre de 37 andares, com heliponto, centro de convenções, restaurantes e SPA. O investimento superou R$ 200 milhões e contou com recursos públicos, mas o projeto não foi concluído. O dinheiro acabou antes da entrega do Golden Tulip, que deveria ter sido inaugurado até março de 2014.

Com o fracasso da empreitada, os irmãos Conte deixaram a Blackwood. Vicente fundou o fundo Zion, voltado ao mercado de cemitérios, e Antonio criou a H11 Investimentos. Daniel manteve vínculo com ambos e virou sócio direto da Zion, mesmo enquanto ainda atuava nas empresas do pai. Dois anos depois, surgiria a virada decisiva: a entrada no sistema bancário.

A oportunidade veio com o colapso do Banco Máxima, então sob controle de Saul Sabbá. Após ser inabilitado pelo Banco Central por má gestão e rombo financeiro, Sabbá ofereceu a instituição — praticamente quebrada — a Vorcaro. Apesar de alegar ter conhecido Sabbá apenas em 2016, Daniel já operava com o Máxima por meio dos fundos e incorporadoras da família.

Com a opção de compra em mãos, Daniel convidou os irmãos Conte para formar uma nova sociedade. Como o banco precisava apenas de capital para voltar a operar, o custo inicial seria baixo. O pedido de autorização ao Banco Central foi feito em 2017 e aprovado dois anos depois. Em 2021, o nome do banco foi alterado para Banco Master.

“Foi um ato de obstinação”, define Daniel, que atribui à fé a persistência durante o processo. Segundo ele, foram dois anos de idas frequentes a Brasília, reuniões com técnicos e apresentação de propostas para transformar o banco em uma instituição “com outros moldes”.

No mercado, no entanto, a estratégia do Master sempre gerou desconfiança. “Ninguém entende muito bem o que ele faz”, resumiu, em 2024, o gestor de um grande fundo de investimentos. A crítica recorrente é que o Master não atuava como um banco tradicional — não concedia empréstimos, mas captava recursos via CDBs com taxas altíssimas, chegando a 130% do CDI, bem acima dos cerca de 98% praticados pelo setor.

Esses recursos eram então investidos em empresas em dificuldades financeiras — como Oi, Gafisa, CVC, Light e Ambipar. “Ele aposta que essas empresas se recuperarão e trarão lucros extraordinários. Mas, se der errado, o banco quebra”, avaliou um gestor. Era uma aposta de alto risco, e o Master operava com alavancagem no limite permitido: para cada R$ 1 de capital, movimentava até R$ 10 em ativos — mais que a média de seis vezes adotada por bancos brasileiros.

O alerta soou alto no Banco Central. Em dezembro de 2024, Roberto Campos Neto, então presidente do BC, convocou a diretoria do Master para uma reunião de emergência. Saiu de lá um ultimato: conter as operações consideradas abusivas, parar a emissão desenfreada de CDBs e fazer um aumento de capital de R$ 2 bilhões até março de 2025.

O prazo chegou ao fim com um movimento inesperado: em 28 de março, o Banco de Brasília (BRB), estatal do governo do Distrito Federal, anunciou a compra do Master por R$ 2 bilhões — exatamente o valor exigido pelo BC. A operação gerou espanto, dada a discrepância entre o tamanho do BRB (com patrimônio líquido de R$ 3,7 bilhões) e os passivos do Master, que tinha R$ 50 bilhões emitidos em CDBs e mais de R$ 12 bilhões vencendo apenas em 2025.

Após meses de análise, o Banco Central vetou a operação em setembro.

Quem  mais foi preso pela PF?

Luiz Antônio Bull, diretor de riscos, compliance, RH, operações e tecnologia;

Alberto Felix de Oliveira Neto, superintendente executivo de Tesouraria;

Augusto Ferreira Lima, que ocupou o posto de CEO no Master até o início das negociações para a venda do banco.

Há ainda um mandado de prisão preventiva contra Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, diretor do banco. Porém, não está confirmado se ele foi preso.

Também há dois mandados de prisão temporária contra:

– André Felipe de Oliveira Seixas Maia;

– Henrique Souza e Silva Peretto.

Segundo a PF, eles seriam ligados às empresas Cartos Sociedade Direta de Crédito e Tirreno Consultoria, também alvos da operação de hoje.

Tem investimento do Banco Master? Saiba o que fazer agora

Com a liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central, decretada hoje, os ativos do grupo financeiro ficam indisponíveis, incluindo investimentos de clientes. Quem tem produtos cobertos pelo FGC (Fundo Garantidor de Crédito), como CDBs e LCIs, poderá receber o pagamento de suas aplicações de acordo com o processo do Fundo.

A decisão do Banco Central interrompe o funcionamento da instituição financeira, que deixa de funcionar. Assim, quem tem recursos em conta corrente, fundos, CDBs e LCIs tem esses recursos indisponíveis também.

A partir do dia em que for decretada a liquidação extrajudicial, no caso do Master, o FGC é acionado para cobrir o pagamento dos recursos de investidores e correntistas cobertos pelo Fundo.

FGC cobre recursos na conta corrente, CDBs e RDBs, LCIs, LCDs, LCAs e LH. O FGC garante o pagamento de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ e por instituição bancária.

O investidor tem direito a receber tanto o principal investido quanto os rendimentos. O valor a ser recebido corresponde ao saldo registrado no banco na data em que o BC decreta a liquidação da instituição financeira. Se o saldo do investidor for superior a R$ 250 mil, a diferença ficará registrada como saldo remanescente na Instituição financeira.

O imposto devido será descontado do valor total da garantia. Ele pode ser descontado diretamente pelo banco sob intervenção ou pela corretora na qual o cliente fez o investimento naquela instituição.

Página do FGC orienta como cliente de banco liquidado pode iniciar processo para receber recursos. O Fundo oriente quatro passos:

– Início: processo começa assim que o Banco Central decreta a falência de uma instituição financeira

– Cadastro: para solicitar o pagamento da garantia, você deverá baixar nosso aplicativo e fazer o seu cadastro

– Lista de credores: FGC recebe da instituição em falência os dados de todas as pessoas que foram afetadas e precisarão do pagamento de garantia

– Início de pagamento: FGC começa o pagamento de garantia para as pessoas que já estão com o cadastro atualizado

Não há prazo determinado para o encerramento da liquidação. O prazo médio para pagamento do FGC é de 30 dias úteis a partir da decretação da liquidação ou intervenção da instituição financeira, mas o tempo pode variar dependendo da complexidade do caso e da rapidez com que a instituição envia as informações necessárias ao Fundo. Após a assinatura do termo no aplicativo, o pagamento é realizado em até 48 horas úteis na conta do credor.

Outros investimentos ficam dependendo do andamento da liquidação do banco. Quem tem recursos aplicados em fundos de investimento ou outros produtos não cobertos pelo FGC, como CRIs, CRAs, debêntures e outros títulos de crédito privado podem receber os recursos, mas dependendo do processo de administração após a liquidação. Isso está sujeiro à venda dos ativos do banco, que vai gerar recursos para cobrir essas pendências.

FGC vai publicar edital para que credores do Banco Master se habilitem ao ressarcimento. Não há um prazo definido para o FGC publicar esse edital. Como o Fundo garante até R$ 250 mil por CPF, os demais créditos devem ser habilitados em outro edital do Banco Central, que é o liquidante da operação.

Banco Central estabeleceu a data da liquidação como 19 de setembro. Esse é o período onde se formalizou a suspeita da falência, quando as transações realizadas com o Master passaram a ser enquadradas como suspeitas.

Não há precedentes para uma quebra desse tamanho. Segundo advogado Guilherme França, do escritório Lolatto Lopes Rangel Ribeiro, que atuou nos processos de liquidação de outras instituições financeiras, como BVA e Cruzeiro do Sul, esse fator pode levar com que o FGC leve semanas ou mais de um mês para publicar o edital.

Confira o passo a passo de como funciona o processo para o FGC realizar o pagamento da garantia.

– O liquidante ou interventor precisa enviar a relação das pessoas que são beneficiárias

– Quando as informações forem enviadas pelo liquidante ou interventor ao FGC, os credores podem completar o pedido da garantia no aplicativo

– FGC recebe as informações do liquidante e informa que o sistema está disponível para completar a solicitação da garantia

– Com as informações, o FGC precisa que os credores se manifestem

– A partir do recebimento da base pelo FGC, os credores (CPF) devem solicitar a garantia diretamente pelo aplicativo do FGC; pessoas jurídicas (CNPJ) realizam o processo pelo site do FGC

– Ao finalizar o cadastro, a pessoa física poderá visualizar o valor que irá receber e, em seguida, deve assinar digitalmente um termo confirmando a solicitação do pagamento da garantia

– Pessoas jurídicas também assinam o termo, enviado diretamente a elas após a análise dos documentos

– Após a assinatura digital e, estando tudo de acordo com os dados bancários, o FGC efetiva o pagamento em até 48 horas úteis, direto na conta de titularidade do credor

O pagamento não é automático. O FGC alerta que credor precisa se manifestar no momento do processo em que deve fazer isso porque o pagamento da garantia ao credor constitui o direito de o Fundo, posteriormente, se manifestar e se habilitar na massa de credores.

FGC alerta que não autoriza mediadores. Em nota, o fundo descarta a possibilidade de credenciamento de instituições ou empresas com o intuito de propor qualquer tipo de “negociação” para recebimento do valor garantido ou solicitar o pagamento de taxas e depósitos prévios de valores.

Tem dívida ou chave Pix no Banco Master? Veja como fica

A liquidação extrajudicial do Banco Master decretada hoje pelo Banco Central não anula as dívidas de quem tomou empréstimos na instituição financeira, como crédito consignado ou dívida no cartão, mas afeta as chaves Pix cadastradas no banco.

 O banco liquidado passa a ser administrado pelo liquidante nomeado pelo Banco Central, a EFB Regimes Especiais de Empresas. Assim, a instituição financeira continua a emitir cobranças de operações com clientes que tenham compromissos, como empréstimos e faturas de cartões de crédito, por exemplo.

Obrigação contratual de pagamento permanece inalterada. Segundo destaca o advogado Rafael Mortari, sócio da Mortari Bolico Advogados, a dívida não se extingue. Apenas ocorre que a titularidade do crédito passa para o banco sob liquidação.

Crédito consignado continua cobrando parcelas. Os descontos em folha também seguem ocorrendo normalmente, sendo que os valores passam a ser repassados à conta do banco sob liquidação.

Para demais produtos, o liquidante passará a emitir boletos ou instruções oficiais. Isso vale para produtos como crédito pessoal, cartão de crédito e financiamentos.

“É crucial alertar que o não pagamento acarreta encargos moratórios e negativação do nome junto aos órgãos de proteção ao crédito, exatamente como em uma operação normal”, explica Rafael Mortari, sócio da Mortari Bolico Advogados.

Chaves Pix do Banco Master perderão validade. Com a liquidação, o Banco Master foi retirado do Sistema de Pagamentos Instantâneos, no qual funcionam as chaves Pix, que perdem validade imediatamente. Assim, os clientes que recebem recursos por Pix cadastrados em contas do Banco Master devem registrar novas chaves em outra instituição de sua preferência.

“Clientes deverão registrar nova chave Pix em outra instituição financeira. Mas cuidado com mensagens de terceiros pedindo ‘reativação automática’ ou ‘transferência de chave’ porque pode se tratar de fraude”, explica Oduvaldo Lara Júnior, sócio da área de direito societário e M&A do Abe Advogados.

DEU RUIM


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *