25/04/2024 - Edição 540

Brasil

Prisão de Brennand ajuda a conter machos violentos libertados por Bolsonaro

Há cinco mandados de prisão contra o "homem de bem" Brennand: por agredir uma mulher, sequestrar e tatuar outra, estuprar mais duas e agredir o próprio filho repetidas vezes

Publicado em 17/04/2023 11:35 - Leonardo Sakamoto - UOL

Divulgação Reprodução Redes Sociais

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A extradição do agressor de mulheres fujão Thiago Brennand pelos Emirados Árabes já estava encaminhada, mas sua revelação em meio à visita de Lula ao país pode ser vista como um gesto de boa vontade com o novo governo. Trazer ele de volta para que seja julgado ajuda a deixar claro que o reinado dos machos inseguros e violentos liberados por Bolsonaro deve acabar.

Há cinco mandados de prisão contra o “homem de bem” Brennand: por agredir uma mulher, sequestrar e tatuar outra, estuprar mais duas e agredir o próprio filho repetidas vezes.

Bolsonaro não criou o machismo, mas ajudou a torná-lo orgulhoso de si e empoderá-lo, com seus discursos violentos e seus decretos armamentistas que facilitaram feminicídios. Não à toa, enquanto estava em Abu Dhabi, Brennand gravou um vídeo declarando apoio a Jair durante as eleições do ano passado. “Se Deus quiser, vamos vencer no segundo turno”, disse. Bem, Deus não quis, nem o povo brasileiro.

Tipos como Brennand existem desde que o primeiro Homo habilis quis pagar de gostoso para cima do seu bando. A evolução da humanidade sobre os padrões do que é ridículo, violento e despropositado acabou acuando essa subespécie, principalmente entre o fim do século 20 e o início do 21. Imaginávamos que ela viria a ser tornar peça de museu ao lado de outras linhagens de hominídeos que chegaram a um beco sem saída.

Porém, a ascensão ao poder de líderes como Donald Trump, Viktor Orbán e Rodrigo Duterte empoderou o chorume. Sim, Thiago Brennand é a síntese do macho inseguro que apoia Jair Bolsonaro, macho que desde cedo causa problemas, fomentando ataques a escolas.

Como ele mesmo explicou no vídeo: “Sou branco, conservador, armamentista. Pela família, pela propriedade privada, pela disciplina, pelo respeito ao próximo, pela humildade, por colocar o homem no seu lugar e a mulher também.” Ironicamente, a Justiça brasileira com a ajuda das autoridades dos Emirados Árabes está colocando-o em seu lugar de direito.

Mesmo com a derrota da extrema direita nas urnas, o bolsonarismo permanecerá na sociedade brasileira por muito tempo, defendendo que o Estado não seja governado pelo império da lei, mas se submeta ao mais forte, ao mais armado, àquele que possua mais seguidores nas redes sociais.

Bolsonaro defendeu “que a liberdade individual seja a máxima”. Por trás da mensagem, que provoca orgasmos em sujeitos como Brennand, está um dos pilares de seu governo: a adoção de uma sociedade miliciana, com cada um por si e Jair acima de todos.

De acordo com a Constituição, nossos direitos individuais são limitados pelos direitos de terceiros e da sociedade, num delicado equilíbrio. Sabemos que a liberdade de expressão não é direito absoluto porque não há direitos absolutos – nem a vida é, caso contrário, não haveria a legítima defesa. E que todos nós podemos ser responsabilizados quando abusamos desses direitos, atropelando a lei. Bolsonaro veio subverter esse processo, tornando a impunidade do forte a nova lei.

Desde que assumiu o poder, ele trabalhou para propagar a ideia de que o interesse dos indivíduos é sempre mais importante do que o bem-estar da coletividade. Isso não vale para todo o indivíduo, apenas para o “povo escolhido” de Jair Messias, ou seja, os grupos que o apoiam ou que estão com ele por conveniência.

Entre eles, estão garimpeiros, madeireiros, agropecuaristas que agem de forma ilegal, líderes religiosos ultraconservadores, empresários que desejam fazer o que quiserem sem ser importunados pela CLT, políticos e servidores públicos interessados em levar vantagem, milicianos e parte da banda podre das Forças Armadas e das polícias. E ricos mimados que acreditam que podem tudo porque tem o “sobrenome correto”.

Como já disse aqui um rosário de vezes, nesse projeto de sociedade miliciana, a mediação dos conflitos naturais em toda a sociedade por instituições é atacada em nome da possibilidade de cada um resolver da forma como melhor entender os seus problemas sem o “incômodo” de fiscais trabalhistas e ambientais, agentes da Polícia Federal e da Polícia Civil, juízes, desembargadores e ministros, deputados e senadores. Da Constituição.

O Brasil é um país machista até o osso. E nós, homens, ensinamos sistematicamente as novas gerações a se tornarem monstrinhos através das nossas ações na esfera privada e através das instituições que controlamos (apenas duas mulheres entre 11 ministros do STF, sério mesmo?). A falta de punição a pessoas como Brennand faz com tantos outros sintam-se à vontade de repetirem seus passos, ricos e pobres.

“Quem é hoje Thiago Brennand? Talvez um inimigo público, talvez um sociopata, talvez um estuprador. Será mesmo?”, perguntou o futuro extraditado no vídeo já citado. Esperemos que a Justiça não se esquive de responder a isso.


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