01/03/2024 - Edição 525

Brasil

Precisamos vencer o dragão do ódio e da mentira, diz arcebispo de Aparecida

Bispo evangélico que chutou Nossa Senhora em 1995 hoje ataca Lula e acusa o STF

Publicado em 12/10/2022 1:17 - Isabela Aleixo (UOL), UOL – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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Durante a homilia na principal missa celebrada do dia de Nossa Senhora Aparecida, no Santuário de Aparecida (interior de São Paulo), o arcebispo da Arquidiocese, Dom Orlando Brandes, disse que é preciso combater o “dragão do ódio”, da mentira, do desemprego, da fome e da incredulidade. O religioso não citou nomes de candidatos, mas também falou aos fiéis sobre a importância do voto como exercício de cidadania.

Maria venceu o dragão. Temos muitos dragões que ela vai vencer. O dragão, que é o tentador. O dragão, que já foi vencido, a pandemia, mas temos o dragão do ódio, que faz tanto mal, e o dragão da mentira. E a mentira não é de Deus, é do maligno. E o dragão do desemprego, o dragão da fome, o dragão da incredulidade. Com Maria, vamos vencer o mal e vamos dar prioridade ao bem, à verdade e à justiça, que o povo merece, porque tem fé e ama Nossa Senhora Aparecida.

As declarações do arcebispo acontecem no dia em que o presidente Jair Bolsonaro (PL), candidato à reeleição, visita o santuário. Já o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) optou por não ir.

Dom Orlando tem um histórico de críticas veladas ao presidente. Ano passado, durante pregação também no dia da padroeira, quando Bolsonaro visitou o local, ele criticou a política armamentista do governo ai dizer que “para ser pátria amada, não pode ser pátria armada“.

Ainda durante o sermão de hoje, o religioso comentou a importância de exercer a cidadania através do voto comparando com o recenseamento do Império Romano a qual a família de Jesus se submeteu:

Inscrever-se no Império, dar cidadania a Jesus. A sagrada família vivendo a cidadania, que nós vamos vivendo também votando, que é necessário exercer esse direito e poder do povo a exemplo de Maria e José em Belém se alistando no recenseamento do próprio Império.

Presença de Bolsonaro

Ao fim da celebração, o arcebispo de Aparecida concedeu uma entrevista coletiva à imprensa. Ao ser questionado sobre a visita de Bolsonaro, dom Orlando disse que “seja qual for a intenção, vai ser bem recebido, porque é o nosso presidente e por isso o acolhemos”.

“Não posso julgar as pessoas, mas nós precisamos ter uma identidade religiosa. Ou somos evangélicos ou somos católicos, então precisamos ser fiéis a nossa identidade católica, mas seja qual for a intenção, (ele) vai ser bem recebido, porque é o nosso presidente e é por isso que nós o acolhemos”, disse o religioso.

Dom Orlando voltou a destacar, na entrevista, a importância do voto e o compromisso com a verdade:

Nós vamos ter que acolher aquele que for eleito com o voto e o poder do povo. Vamos votar. É a democracia que ainda existe. O poder do voto, a soberania do povo. Isso que nós devemos falar e ajudar o povo a votar. Há uma diferença entre buscar a verdade e buscar interesses. É muito diferente a verdade da ideologia. A gente tem que ser muito sincero. Nós temos um compromisso ético com a verdade, com a verdade na política. Mas a política caminha muito pelos caminhos ideológicos, que são de grupos e interesses, às vezes, pessoais. Isso que é importante: distinguir a ideologia e a verdade. Para nós, a verdade é nosso senhor Jesus Cristo e o Evangelho.

Aos jornalistas, o arcebispo reafirmou a necessidade de combate ao racismo. “Precisamos tirar as raízes de outro dragão: a exclusão dos negros, o racismo. Esses são dragões que estão muito arraigados em nós”, disse.

Nota da arquidiocese

Ontem, a Arquidiocese de Aparecida chegou a divulgar uma nota esclarecendo as menções ao santuário na agenda de campanha do presidente.

“Assim como em outros anos, o Santuário recebe a visita e se programa para acolher o Chefe de Estado, buscando também garantir a rotina de visita dos romeiros”, diz o comunicado assinado pelo Arcebispo Dom Orlando Brandes.

A nota esclarece a participação de Bolsonaro em um terço promovido por católicos conservadores, que não têm relação com a arquidiocese: “É importante reforçar que essa atividade não é organizada pelo Santuário Nacional, tampouco tem anuência do Arcebispo de Aparecida. É relevante também frisar que, embora tenha sido programada para acontecer no mesmo horário da Consagração a Nossa Senhora Aparecida, que há 65 anos tradicionalmente é rezada nesse horário, a iniciativa é de um grupo independente, que não tem qualquer relação com o Santuário Nacional e sua programação oficial para este dia.”

O Centro Dom Bosco, onde Bolsonaro vai participar da oração, se define como uma associação de leigos católicos conservadores fundada em 2016 com o objetivo de “resgatar a bimilenar tradição da Igreja”.

Bispo que chutou Nossa Senhora em 1995 hoje ataca Lula e acusa o STF

O bispo Sérgio Von Helder ficou famoso há 27 anos ao chutar a imagem de Nossa Senhora Aparecida durante o programa “Palavra da Vida”, na Record. Hoje, ele se tornou um seguidor fiel do presidente Jair Bolsonaro (PL) em campanha pela reeleição do político.

No perfil de Von Helder nas redes sociais só existem postagens com críticas ao ex-presidente Lula (PT), adversário direto de Bolsonaro na disputa.

Ainda no Facebook, Von Helder faz acusações graves contra o STF (Supremo Tribunal Federal) e o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sem provas.

“A eleição já foi fraudada no primeiro turno. Você vê que o Lula não se preocupa com pesquisa. STF fazendo de tudo para ele ganhar. Países comunistas (Argentina, Chile, Venezuela, Colômbia) já sabiam que ganharia no primeiro turno”, falou em uma transmissão sem apresentar prova.

O bispo foi procurado para falar sobre as acusações que faz, mas não respondeu o contato.

Adversário histórico

Os ataques de Von Helder a Lula acontecem desde a época em que chutou a santa na TV. Em 1994, um ano antes da polêmica, o bispo chegou a dizer que o ex-presidente era o “próprio diabo, um sujeito barbudo, que tem um dedo a menos e a língua presa”.

Em 2018, Von Helder gravou um vídeo apoiando Bolsonaro, na época ainda candidato à Presidência, e criticando Fernando Haddad (PT). Na ocasião, ele disse que o PT era a “personificação do diabo”.

“Porque nós estamos em uma situação onde o diabo quer imperar no Brasil através do PT. As pessoas estão crendo no diabo através do PT. O Bolsonaro sozinho está revolucionando o mundo”, disse ele. “Esse safado, canalha, desgraçado do Haddad está se fazendo de cristão.”

O que aconteceu na TV?

O programa era exibido no dia 12 de outubro, dia da padroeira do Brasil e feriado católico no país. O bispo desferiu chutes na estátua da santa tentando mostrar que era um objeto, sem teor religioso e usado para ganhar dinheiro dos fiéis — nas palavras dele.

Membro da Igreja Universal, o pastor desferiu ataques contra a Igreja Católica. A repercussão foi imediata e chegou até ter matéria exibida no “Jornal Nacional”, da TV Globo, nos dias seguintes. O bispo acusava Igreja Católica de retirar dinheiro de fiéis.

Mas antes, como contou o colunista de Splash Ricardo Feltrin, foi uma saga para achar uma empresa que teria gravado a cena, já que era feriado. Ele e outros jornalistas do extinto “Folha da Tarde” foram à caça das imagens.

Com a pressão pelo ato, Von Helder foi enviado aos Estados Unidos e para países da América Central, tentando o anonimato após a repercussão dos seus ataques e por receber ameaças. Hoje, ele grava vídeos de pregações em sua página do Facebook e não está vinculado a nenhuma igreja.

“Um chute no estômago”

O caso já foi tratado por Edir Macedo, líder da Universal, como “um chute no estômago”. Em suas autobiografias, o bispo Edir Macedo admite que esse foi o maior erro que sua igreja cometeu — na época, a Universal chegou a pedir desculpas —, mas seu filme mostra a versão da história com a sua igreja sendo vítima.

Mesmo com a imagem de Nossa Senhora Aparecida e a fé dos católicos, maioria do povo brasileiro de acordo com o Datafolha, sendo agredida.

Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, ainda em 1995, Von Helder lançaria um livro em que dizia não ter sido ético ao “tocar” a santa — ele não nomeou os ataques como chutes, o que ele de fato fez.

Livro sobre o caso

Fato é que Helder tem uma obra chamada “Um Chute na Idolatria”, passou anos fora do Brasil e chegou a romper com a Universal. Em 2014, jornais brasileiros noticiaram a volta do pastor ao Brasil marcado pelo ataque intolerante.

Ele fez parte da Igreja da Restauração, criada nos Estados Unidos pelo bispo Angelo Barbosa, também dissidente da Universal de Edir Macedo.

Até ano passado, Sérgio von Helder estava morando por aqui e era missionário de outra igreja evangélica. Questionado pelo UOL, em 2021, se estava no Brasil e vinculado a alguma igreja evangélica, Von Helder disse que não.

Ao menos dois perfis no Facebook divulgam vídeos do pastor com pregações em lives. Um deles tem endereço da cidade de Jefferson, no estado da Geórgia, nos Estados Unidos, e anunciava um seminário com a imagem de um pastor chutando — assim como o ataque intolerante feito por Sérgio há 27 anos.

O bispo não respondeu à reportagem qual o intuito do seminário “Um Chute na Idolatria”. Ele também não respondeu se tem arrependimento de ter chutado a imagem de nossa Senhora Aparecida.


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