22/04/2024 - Edição 540

Brasil

PM que socou idosa heroica é mais um fardado punido por vídeo de celular

MPF pede informações ao Google sobre vídeos de policiais que confessaram crimes em podcasts

Publicado em 02/06/2023 11:30 - Leonardo Sakamoto (UOL), Jeniffer Mendonça (Ponte) – Edição Semana On

Divulgação

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Viralizou nas redes sociais o vídeo de Vilma de Oliveira, de 70 anos, levando um soco no rosto de um policial militar ao tentar proteger seu filho, já rendido, que estava sendo asfixiado por outro PM, na zona rural de Igaratá (SP). Após ser esmurrada e cair, ela se levantou e continuou tentando ajudar o rapaz. Uma analogia perfeita do que é ser pobre no Brasil. E mais um caso da força dos celulares na denúncia à violência policial.

O policial Kleber Freitas ainda se justificou dizendo que ela o agrediu primeiro por conta de tapinhas que levou dela para deixar seu filho em paz. Depois de nocauteá-la, ele ainda levou sua mão à arma que estava na cintura diante da reação dos presentes que gravavam tudo. Segundo reportagem da CBN, Vilma é deficiente auditiva.

A resposta desproporcional não foi um acidente de percurso. Nesta terça (30), por exemplo, a polícia jogou bombas de gás e balas de borracha em indígenas e seus apoiadores que protestavam na rodovia dos Bandeirantes. Os agentes reclamaram de serem recebidos com flechas artesanais. Que, como sabemos, são armas de destruição em massa.

Cenas como a de Igaratá sempre existiram. A diferença é que a popularização de smartphones com câmeras tem levado provas às redes sociais, gravações que salvam vidas diante da violência policial, permitido a punição dos envolvidos.

O agressor tentou tomar o celular que havia gravado o soco, mas não conseguiu. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, os policiais foram atender a um desentendimento e também foram agredidos. Por conta das imagens, o PM foi afastado das atividades operacionais e seu colega, que aparece no vídeo dando um mata-leão no filho de Vilma também será investigado.

Em junho de 2020, criminosos de farda torturaram um jovem na periferia norte da capital paulista. As palavras parecem duras, mas é a melhor descrição considerando a situação e a trama montada para encobri-la. Se não fosse um vídeo que viralizou nas redes mostrando chutes, socos e cacetadas em um rapaz rendido, teria prevalecido a versão apresentada na delegacia pelos policiais militares de que ele caiu e se machucou.

Outro exemplo ocorreu em 1º de dezembro de 2019, quando uma ação violenta da PM levou à morte de nove jovens durante um baile funk na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo. Os vídeos gravados pelos frequentadores da festa e por moradores da favela de dentro de suas casas foram fundamentais para desmentir a narrativa das forças de segurança.

O exemplo mais conhecido de uso de celulares para denunciar a polícia foi a tortura e morte de George Floyd por um policial branco, em Minneapolis – o que desencadeou a mais intensa e importante série de protestos raciais, em décadas, nos Estados Unidos. O sufocamento do homem negro foi gravado e, em pouco tempo, estava empurrando pessoas para as ruas.

A tortura não nasceu no Brasil com a polícia ou com os militares da ditadura. Mas a metodologia desenvolvida no período autoritário e aprimorada após a redemocratização, continua provocando vítimas nas periferias das grandes cidades. Tudo isso alimentado com a certeza do “tudo pode”, passada por governos que não controlam ou pouco comandam suas polícias e por outros políticos que incentivam o excludente de ilicitude.

Câmeras colocadas nas fardas dos policiais também ajudaram a reduzir a violência. Mesmo assim, foram atacadas pela extrema direita durante as eleições.

Gravar e postar intervenções policiais violentas, identificando placas de viaturas e os rostos dos envolvidos, se tornou um dos principais atos de resistência a uma parte do Estado que enxerga pobre como inimigo.

Resistência que ganhou na história da senhora de 70 anos mais um ícone.

Quando a Associação Brasileira de Anunciantes lançou a campanha “Eu sou brasileiro e não desisto nunca”, em 2004, baseada em histórias de superação a fim de aumentar a autoestima do povo, não imaginava o caso da velhinha de Igaratá. Mas ele se encaixa muito bem ao slogan.

O Brasil real é menos um jogador de futebol famoso e milionário que tenta se superar na Copa do Mundo e mais a Dona Vilma de Igaratá, que leva soco na cara da PM, cai, levanta e continua remando contra a lógica, arriscando-se para reclamar por seus direitos e proteger a quem ama.

MPF pede informações sobre vídeos de policiais que confessaram crimes

O Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro solicitou informações ao Google sobre vídeos publicados no YouTube em que policiais aparecem confessando crimes e exaltando violência. O pedido tem como base reportagem da Ponte, publicada em 15 de abril, que revela policiais narrando episódios em que atuaram durante entrevistas a podcasts e videocasts transmitidos na rede social.

Responsável pela solicitação, o procurador regional dos Direitos do Cidadão do Rio de Janeiro, Julio José Araujo Junior, requereu “as estatísticas completas desses vídeos e a descrição de seu conteúdo”. Os donos dos canais em que as entrevistas foram divulgadas também foram oficiados para prestar esclarecimentos.

No despacho, que data de 17 de abril, o procurador considerou que “em diversos canais do YouTube, há policiais exaltando uma cultura de violência e ódio através da rede mundial de computadores, ensejando a incitação de crimes, violação da presunção da inocência e violação do devido processo legal”.

Além disso, ele aponta que “canais oferecidos e mantidos pelo Google têm comunicado, em diversas oportunidades, discurso de ódio e a prática de crimes cometidos por agentes do Estado”. “Esses discursos veiculados por policiais merecem apuração e enfrentamento”, disse em nota do MPF.

Leia aqui a íntegra da notícia de fato

Na tarde do último dia 28, a Defensoria Pública da União (DPU) também fez o mesmo requerimento ao Google com base na reportagem. “Os conteúdos acessíveis pela internet podem alcançar qualquer pessoa, exercendo sobre os consumidores verdadeira influência, além de possuírem potencial para modelar discursos e costumes entre determinados grupos da sociedade”, argumentou no pedido o defensor regional de Direitos Humanos no Rio de Janeiro, Thales Arcoverde Treiger.

“Nessa medida, milhões de usuários vêm sendo influenciados por narrativas impregnadas de ódio, veiculadas em canais comandados por policiais ‘influencers’. Com muita naturalidade, os atores envolvidos relatam episódios de extrema violência, que constituem crimes contra a população civil, sobretudo contra pessoas em situação de vulnerabilidade”, prosseguiu.

A Ponte mostrou que programas de entrevistas que convidam policiais e ex-policiais viralizam no Youtube e em plataformas de áudio com milhões de visualizações. Na conversa com clima amistoso e compreensivo, policiais debocham de vítimas, comemoram assassinatos e naturalizam a violência.

Um dos exemplos é de um videocast em que o sargento Henrique Brito, do Batalhão de Operações Especiais (Bope) do Rio de Janeiro, contou sobre o dia em que reagiu a uma provocação e agrediu uma criança e uma mulher grávida no conjunto de favelas do Pavão-Pavãozinho, na zona sul da cidade. “A grávida voltou, eu peguei, enrolei pelo cabelo e ‘pá!’ (bate com uma mão na outra, como se mostrasse um tapa na cara), tomou! Voou longe (risos no estúdio)!”, descreve o PM Henrique Brito. Em seguida, ele diz que foi obrigado a pagar algumas cestas básicas para as vítimas.

Em outro programa, o fuzileiro naval e sargento do Bope Wagner Luís de Almeida, conhecido como “Cachorro Loco”, falou de uma operação no morro do Cruzeiro no Rio: “quanto mais tiro eu dava, mais eu ficava: mais! Mais! Mais!”. Na conversa, ele também justifica a fama de “Cachorro Loco” ao contar outro episódio do início da carreira: “joguei três ou quatro (criminosos) para o alto. Pô, ocorrência maneira para car#lho!”. A entrevista ao podcast Fala Glauber, apresentado pelo policial penal Glauber Mendonça, tem sete horas de duração. Wagner foi o único a atender pedido de entrevista da Ponte e negou estar exaltando violência.

O desejo de matar também é comentado pelo policial licenciado Miquéias Arcênio, pelo Sargento Costa e pelo policial civil Thiago Raça. “O Bope quando entra… ele faz o diabo mesmo. Ele entra e mata os outros na faca mesmo”, declarou Arcênio sobre as operações ilegais do Bope.

Abordagens violentas também são contadas com bom humor no podcast Danilo Snider, do apresentador Danilo Martins. Ele conta que decidiu empreender e fazer “um podcast mais suave”. “Não sou responsável pelas palavras deles”, disse sobre os discursos agressivos dos entrevistados.


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