23/02/2024 - Edição 525

Brasil

PM ‘forneceu’ arma e treinou executor de Marielle

Resposta ao caso definirá a credibilidade do Brasil no mundo

Publicado em 25/07/2023 2:31 - Leonardo Sakamoto, Josias de Souza e Jamil Chade (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Renan Olaz - Câmara Municipal RJ

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Já era de domínio público que duas pessoas com treinamento da Polícia Militar foram os executores da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes: os ex-policiais Élcio Queiroz e Ronnie Lessa.

Agora, a delação premiada de Élcio diz que outro ex-PM, Edmilson Oliveira da Silva teria intermediado a contratação da morte de Marielle. Macalé, como era conhecido, foi executado em novembro de 2021 e também teria participado da preparação da execução.

Élcio também afirma que a arma usada no crime, uma submetralhadora MP5, pertencia ao Bope (Batalhão de Operações Especiais) e teria sido desviada e vendida para Ronnie, que efetuou os disparos.

Cuidados devem ser tomados com a informação, claro, afinal é uma delação. Uma fonte informou à coluna que o Bope comprou, em 1982, 24 submetralhadoras HK da Alemanha: 6 do tipo MP5 A3, 6 MP5 K, 6 MP5 G3SG1 e 6MP5 21A1. E todas elas continuariam em posse do batalhão. Isso significa que a origem da arma pode ser outro.

E falta descobrir qual foi a orcrim responsável pela morte e quais os (interesses) políticos por trás. O ministro da Justiça Flávio Dino disse, nesta segunda (24), que é indiscutível o envolvimento de milícias. Muitos desses grupos criminosos são tumores que brotaram da polícia.

Com base na delação, uma operação da Polícia Federal com o Ministério Público do Rio prendeu hoje o ex-bombeiro Maxwell Corrêa, acusado de ajudar no planejamento da morte e acobertamento do crime.

As investigações estavam em um beco sem saída algum quando o governo federal entrou na investigação, com abertura de inquérito pela PF. Talvez as informações fornecidas ajudem a chegar aos mandantes, mas é cedo para dizer. Élcio e Ronnie estão presos desde 2019.

A participação de ex-policiais no crime seria um ultraje. Mas a percepção correta de que políticos podem ter sido os responsáveis por ordenar a milicianos o assassinato de uma representante eleita, liderança negra e LGBTQIPN+, nascida em uma das maiores favelas do Rio, é em si um sinal de falência de nosso contrato social.

“Pode matar” é a mensagem ainda hoje enviada pelo Estado brasileiro diante da ausência dos mandantes. Ao mesmo tempo, o recado que o país envia à sua população é de que, além dos direitos sociais, econômicos, culturais e ambientais, os mais pobres por aqui também não devem contar com direitos civis e políticos. Pois seus representantes são descartáveis e podem ser executados tanto por sua atuação, quanto para servirem de recado.

Sem contar que isso deixa claro que o Rio tem dono e não é a esmagadora maioria da população honesta que nele habita. Independente de quem seja apontado como responsável pelas execuções, o Estado já é culpado de muitas formas e maneiras pelo que aconteceu.

Nestes cinco anos, vale também lembrar que não são apenas os civis que devem carregar o peso da vergonha sobre o caso. A execução de Marielle e Anderson ocorreu durante a intervenção do Exército na área de Segurança Pública do Rio de Janeiro, decretada pelo então presidente Michel Temer em 16 de fevereiro de 2018.

O plano para matar Marielle não foi detectado pela inteligência das Forças Armadas, tão celebradas. O general Braga Netto, que depois se tornaria homem forte do bolsonarismo e vice na chapa de Jair à reeleição, era o interventor.

Em tempo: No fundo do poço há sempre um alçapão. A máquina de ódio do bolsonarismo estava girando alto nas redes nesta segunda, bombando novamente os nomes de Adélio Bispo, responsável pelo atentado contra o então candidato Jair Bolsonaro em setembro de 2018, e o do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, assassinado em 2002, para tentar criar ruído sobre o caso Marielle.

Apesar de ambos os crimes terem sido resolvidos, respectivamente, pela Polícia Federal e pela Polícia Civil, a extrema direita os mantém vivos respirando por conspirações para instrumentalizá-los politicamente. O barulho alimenta os seguidores, que se tornam soldados do ódio, atacando a memória da vereadora. Deprimente? Sim. Mas previsível, afinal é o bolsonarismo.

Um bombeiro-ostentação

Na investigação sobre o assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes, o absurdo ganhou uma doce naturalidade. Antes da chegada da Polícia Federal ao inquérito, os investigadores fluminenses eram pessoas de pouquíssimos espantos. Tratavam Maxwell Simões Corrêa, o Suel, como figurante. Súbito, descobriu-se que Suel, expulso do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro em 2022, é um empreendedor do submundo das milícias.

Como bombeiro, ganhava algo como R$ 10 mil por mês. Uma cifra incompatível com sua movimentação bancária. Escorando-se em dados do Coaf, a PF verificou que, entre entradas e saídas, Suel movimentou R$ 6,4 milhões na conta pessoal e de sua empresa no período de março de 2019, quando a execução de Marielle fez aniversário de um ano, e outubro de 2021.

Nessa época, Suel ainda se dividia entre a farda de bombeiro, a venda clandestina de TV a cabo na Zona Norte e um varejo criminoso que incluiu a participação no planejamento e acobertamento do assassinato de Marielle. Já cumpria pena de prisão em regime aberto por obstrução de Justiça. Foi passado na chave nesta segunda-feira, como consequência da delação de Élcio Queiroz, que dirigia o carro na perseguição em que Ronnie Lessa metralhou Marielle e o motorista Anderson.

Num passado remoto, as milícias eram toleradas —às vezes aplaudidas—, porque executavam pivetes e “aviões” do tráfico em troca de alguns caraminguás. Hoje, dividem regiões com o tráfico. Operam em ramos variados —do transporte clandestino aos imóveis ilegais. Recrutam pessoal nas forças de segurança, sob a proteção de governantes.

Quando menos se espera, um Suel qualquer surge no bololô em que se converteu o caso Marielle como a cereja podre de um bombeiro-ostentação. Morava bem e gastava muito. A plateia se pergunta: por que os investigadores haviam suprimido dos seus hábitos o ponto de exclamação?

Resposta ao caso de Marielle definirá a credibilidade do Brasil no mundo

Não basta montar um cartaz gigante ou traduzir nos idiomas oficiais da ONU o slogan “o Brasil voltou”.

A forma pela qual o país será visto, considerado e respeitado no exterior no campo dos direitos humanos dependerá de como irá dar uma solução real e contundente ao assassinato de Marielle Franco.

A avaliação de membros do alto escalão da ONU e de governos estrangeiros é de que, independente dos discursos que o governo Lula possa fazer sobre direitos humanos, dar uma resposta ao crime político definirá se o mundo voltou a falar com um país que zela por sua democracia e se está comprometido em promover uma revolução no que se refere aos direitos fundamentais no país.

Marielle Franco, em muitos sentidos, vive ainda em seu papel político. Ela é um estado da constatação da presença ou não da Justiça num país que ainda vive para superar seu passado e presente de violência.

Impune, o crime contra a vereadora será o espelho de toda a incapacidade de a Justiça lidar com as dores e lágrimas de milhares de vítimas.

Impune, o crime é o sinal de que o espaço cívico não pertence a todos e que mulheres e negros continuam ocupando um lugar periférico na definição do destino do país.

Impune, o crime questiona se podemos nos denominar realmente de democracia.

A delação do ex-PM Elcio de Queiroz encerra a investigação sobre quem apertou o gatilho. Mas não sobre os mandantes.

Será só quando esses forem identificados e levados aos tribunais que o mundo, ativistas, instituições de direitos humanos levarão à sério a frase: “o Brasil voltou”.


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