22/04/2024 - Edição 540

Brasil

Paraná tem quinto ataque a escolas do ano: uma aluna morreu, outro está gravemente ferido

Socióloga vê relação entre ataques a escolas e violências do cotidiano

Publicado em 19/06/2023 1:12 - Lorena Barros e Herculano Barreto Filho (UOL), Léo Rodrigues (Agência Brasil), Rayanne Azevedo (DW) – Edição Semana On

Divulgação Fernando Frazão - Abr

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Uma aluna de 15 anos foi assassinada em um ataque a tiros dentro de uma escola hoje de manhã (19) na cidade de Cambé (PR), ao lado de Londrina e a cerca de 400 km da capital Curitiba. Outro estudante de 16 anos foi baleado e está internado em estado grave.

Um ex-aluno de 21 anos entrou no colégio estadual Professora Helena Kolody por volta das 9h30. Ele alegou que solicitaria o seu histórico escolar, segundo a polícia. O jovem estava armado e começou a disparar dentro da escola, dando 12 tiros. O atirador foi contido por um funcionário da escola. Os alunos estavam no intervalo no momento dos tiros.

Após ser contido, o atirador foi preso em flagrante e levado para a delegacia. Com ele, os policiais apreenderam um machado guardado dentro de uma mochila, mas o instrumento não foi utilizado pelo agressor.

Câmeras de vigilância da instituição de ensino foram recolhidas pelos policiais que atenderam a ocorrência. Investigadores estão a caminho da residência do autor do ataque para verificar a denúncia de que haveria explosivos lá.

O aluno ferido foi levado para a Santa Casa de Cambé. Em seguida, foi transferido para o Hospital Universitário de Londrina.

Alunos da escola atacada relatam como foi a ação. Um estudante disse à rádio Cobra News que quebrou uma janela para fugir de uma sala, ferindo o joelho e as mãos. “Foi tudo muito rápido. Ouvi o som dos disparos e fugi. A minha reação foi só sair”, disse. Um outro aluno disse que o atirador teria tentado recarregar a arma após os disparos. “Vimos as funcionárias e os alunos correndo [depois dos tiros]. Um amigo disse que ele [o atirador estava tentando recarregar a arma”, relatou à rádio Cobra News.

Ataques a escolas no país

Foram registrados ao menos cinco ataques em escolas do país neste ano. O primeiro desses ataques ocorreu na manhã de 27 de março, quando um aluno matou uma professora e feriu outras cinco pessoas com facadas em uma escola de São Paulo.

Apenas uma semana após o ataque em SP, um homem de 25 anos matou cinco crianças e feriu outras cinco em uma creche em Blumenau (SC) com uma machadinha. Após cometer o crime, o agressor se apresentou à PM e foi preso.

Os outros três ataques ocorreram em Manaus (AM), Farias Brito (CE), Santa Tereza de Goiás (GO) em um intervalo de apenas três dias no mês de abril.

Socióloga vê relação entre ataques a escolas e violências do cotidiano

A solução de conflitos “menos graves” no ambiente escolar é medida que pode contribuir para evitar futuros ataques violentos. A avaliação é da socióloga Valéria Cristina de Oliveira, pesquisadora e professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Segundo ela, é preciso dar voz aos alunos que são vítimas de microviolências no cotidiano, sejam elas praticadas por profissionais adultos ou por colegas.

“Mesmo que não seja um evento de violência grave hoje, ele pode se desdobrar no futuro em outro de violência grave em decorrência do silenciamento”, disse durante debate com transmissão online que reuniu pesquisadores da UFMG de diferentes áreas. Eles apresentaram dados de variados estudos e fizeram uma discussão sobre o tema “Por uma cultura da paz: combate à violência na educação e à desinformação”.

Segundo um dos levantamentos mencionados, divulgado na semana passada pela organização não governamental Instituto Sou da Paz, ocorreram no país 24 ataques a escolas nos últimos 22 anos. Mais da metade desses episódios, no entanto, estão concentrados nos últimos quatro anos. Na maioria deles, os agressores são alunos ou ex-alunos com média de idade de 16 anos.

Um dos casos que tiveram forte repercussão neste ano ocorreu em março, quando uma pessoa morreu e cinco ficaram feridas na Escola Estadual Thomazia Montoro, no bairro Vila Sônia, em São Paulo. O crime foi cometido por um de seus alunos, de 13 anos. Nos últimos anos, episódios similares que geraram grande comoção no país também foram promovidos por estudantes ou ex-estudantes, como os registrados em Aracruz (ES) no ano passado e em Suzano (SP) em 2019.

Um estudo recente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) traçou o perfil mais frequente entre os autores dos ataques: homens jovens brancos, geralmente com baixa autoestima e sem popularidade na escola. Também foi observado que muitos deles tinham indícios de transtornos mentais não diagnosticados ou sem o devido acompanhamento. São quadros que podem se desenvolver ou se agravar pela dificuldade de relacionamento nas escolas, o que pode ocorrer, por exemplo, com os que são alvos de bullying.

Valéria integra o Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) e o Núcleo de Pesquisas em Desigualdades Escolares (Nupede), dois grupos científicos da UFMG que fazem investigações sobre o assunto. “O acúmulo de pequenas violências repercute em dificuldades na convivência. A deterioração do tecido social pode ser a consequência negativa de vários eventos menos graves”, reitera.

Segundo um estudo desenvolvido pelo Crisp em 2012, em escolas estaduais de todas as regiões de Minas Gerais, 48% dos estudantes adolescentes declaravam ter sido vítimas de bullying, 20% de ter sofrido agressão física e 40% de ter sido roubado ou furtado nos últimos 12 meses. Além disso, mais de 30% disseram ter sido alvo de violência verbal de colegas ou professores.

Não são raros os casos envolvendo essas agressões com emprego de arma de fogo e com mais vítimas, em que ocorreram outras situações menos graves anteriormente, pouco administradas ou sem que houvesse alguma administração dos conflitos. “Isso ocorre, entre outras coisas, porque não tivemos a oportunidade de ouvir e escutar os principais alvos dessas pequenas agressões. O perfil desses agressores tende a convergir para alguém que tenha inserção social limitada na escola, que tenha sido vítima de bullying, que sofra exclusão de alguma natureza”, diz Valéria.

Soluções

No fim do ano passado, 11 pesquisadores de universidades de diversos estados do país elaboraram um documento propondo estratégias concretas para a ação governamental. Coordenado pelo professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Daniel Cara, eles ressaltaram que os casos deviam ser classificados como extremismo de direita, pois a maioria deles envolve cooptação de adolescentes por grupos neonazistas que se apoiam na ideia de supremacia branca e masculina e os estimulam a realizar os ataques. A presença de símbolos associados a ideologias de extrema-direita tem sido recorrente nesses episódios violentos.

De acordo com o documento, esses grupos disseminam um discurso que valoriza o preconceito, a discriminação, o uso de força e de armas de fogo, encorajando direta e indiretamente atos agressivos e violentos. “É necessário compreender que o processo de cooptação pela extrema-direita se dá por meio de interações virtuais, em que o adolescente ou jovem é exposto com frequência ao conteúdo extremista difundido em aplicativos de mensagens, jogos, fóruns de discussão e redes sociais”, registram os pesquisadores. Segundo eles, medidas só serão eficazes se considerarem esse cenário.

Em uma busca pela palavra “escola” no site da Câmara dos Deputados, Valéria encontrou 312 projetos de lei apresentados em 2023. Chamou a atenção o grande volume de propostas que datam do dia 5 de abril, quando um ataque a uma creche em Blumenau (SC) resultou na morte de quatro crianças. A legenda com mais proposições é o Partido Liberal (PL), de Jair Bolsonaro. Em seguida aparecem o União Brasil e o Progressistas (PP), que compuseram a base de apoio durante o governo do ex-presidente.

“Nem todos esses projetos estão ligados à questão da violência nas escolas, mas a coincidência entre o pico de apresentações e a data do ataque nos mostra que esses eventos foram extremamente relevantes para que houvesse um movimento político justamente daqueles grupos que têm sido apontados como associados a discursos que estimulam comportamentos violentos. E a maior parte dos projetos de lei sugere intervenções no campo da segurança. Há muitas propostas de uso de detectores de metais, implantação de câmeras, presença de policiais no espaço escolar. São estratégias de intervenção que não são necessariamente eficazes”, diz a pesquisadora da UFMG.

Soluções dessa natureza vêm sendo criticadas por diversos especialistas, que observam que o aumento do aparato de segurança nas escolas não resolveu o problema nos Estados Unidos, onde os episódios acontecem há mais tempo e com mais frequência. Valéria cita estudos em que fatores como violências prévias, rejeição pelos pares e clima escolar negativo são associados aos casos. “Ter mais dispositivos de segurança pública não contornam isso”, diz.

Entre suas sugestões para enfrentar o atual cenário está a construção de canais de comunicação para escuta e acolhimento das vítimas de conflitos escolares, maior foco no aprendizado de todos e não na punição disciplinar, atenção aos princípios de equidade e de justiça e desenvolvimento de políticas de saúde e assistência para atendimento integral da comunidade e promoção da saúde mental. Ela também defende maior restrição no acesso a armas de fogo e investigação de denúncias da atuação de grupos que estimulam a violência nas redes sociais.

Valéria afirma que é preciso criar novos mecanismos para registrar os casos de conflitos e de violência nas escolas, que permitam ampliar o monitoramento e a discussão de soluções, já que apenas os episódios mais graves aparecem nos registros policiais. Em um mapeamento das ocorrências registradas pela Guarda Municipal de Belo Horizonte em 2015, os eventos mais frequentes em escolas municipais foram dano ao patrimônio, vias de fato e ameaças.

Desinformação

Durante o debate, a pesquisadora Geane Carvalho Alzamora, vinculada ao Departamento de Comunicação da UFMG, observou que a circulação da desinformação e dos discursos de ódio precisam ser enfrentados com um letramento midiático. Segundo ela, pesquisas com jovens já revelaram a dificuldade de muitos em conseguir diferenciar um texto com informações verdadeiras de outro com fake news.

“Não basta desmentir. Não se combate desinformação com verdade. Se combate desinformação com educação”, diz ela. Geane avalia, porém, que as instituições de ensino precisam de uma estratégia para lidar com esse desafio. “Não é uma questão de educar as pessoas para usar os meios. Precisamos entender o que os jovens estão fazendo com os meios. A escola hoje passa alheia a esse problema”.

O professor da Faculdade de Direito da UFMG, Fernando Jayme, defendeu o tratamento dos conflitos escolares por uma perspectiva de justiça restaurativa. Ele avaliou que o sistema punitivo é falho e que é preciso apostar no diálogo e na mediação dentro das instituições de ensino.

“Isso passa pelo reempoderamento das escolas. A violência e a desinformação vêm deixando a escola muito vulnerável. A escola é um ambiente que acolhe a diversidade e é um território de interações humanas tensionadas pelas diferentes individualidades. Os conflitos representam janelas de oportunidades para ressignificar relações, transformando-as, restaurando-as, reparando-as”.

O que a forma como se educa diz sobre violência nas escolas

Cada vez mais recorrentes, episódios de violência nas escolas chamam atenção para a necessidade urgente de refletir sobre a educação das novas gerações dentro e fora de sala de aula.

Especialistas ouvidos pela DW foram unânimes em afirmar que, num país desigual e com altos índices de violência, tanto na esfera pública quanto na privada, as escolas só espelham uma dinâmica que já existe na sociedade – um quadro agravado pelo cenário de radicalização política.

“A violência no Brasil ainda é colocada como solução de problemas”, explica Daniel Fatori, psicólogo e pesquisador pós-doutorando na área de saúde mental no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). Como exemplo, ele cita o discurso punitivista dominante nos debates sobre segurança pública, quando o fato de policiais matarem é percebido como algo positivo. “É uma visão que ainda permanece no Brasil, e que é muito problemática.”

Essa cultura faz com que a pedagogia da educação pela violência, seja ela física ou psicológica, torne-se mais naturalizada por tabela. Essa abordagem, além de possivelmente desencadear comportamentos agressivos em crianças e adolescentes, é perigosa porque apresenta a violência a eles como uma ferramenta legítima para a vida em sociedade.

Violência: onde o Brasil se perdeu?

“Quando faltar razão você vai utilizar a violência? É isso que a gente tem feito”, afirma o sociólogo Cezar Bueno de Lima, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Os atentados violentos em escolas – cinco deles só no último ano, segundo levantamento da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – são a ponta visível do iceberg. Por baixo dele há pancadaria, gritaria, xingamentos e perseguição. Essas violências contaminam o ambiente escolar e minam o papel social das escolas ao privar jovens de uma experiência fundamental para seu pleno desenvolvimento como indivíduos e cidadãos.

Educação nas escolas ainda muito hierárquica

Professor do Departamento de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Paulo Carrano explica que parte da violência que existe hoje nas escolas pode ser explicada pelo conflito clássico de gerações: os jovens questionam a autoridade dos adultos, que por sua vez tendem a reagir reforçando hierarquias pela via da imposição, geralmente sem muito diálogo e alienando ainda mais os alunos. “Se antigamente o ‘faz o que eu mando, não faz o que faço’ funcionava, hoje não funciona mais”, afirma.

O educador explica que os casos mais graves de violência surpreendem justamente porque a escola não conhece os alunos envolvidos nesse tipo de episódio. E não conhece porque não conversa e impõe uma hierarquia que aprofunda essa distância.

A solução, advoga Carrano, passa por uma postura radical de diálogo e transparência nas regras de convivência, tanto no ambiente escolar quanto familiar. Segundo ele, a história da humanidade mostra que os jovens sempre irão, invariavelmente, buscar seu lugar no mundo, e que reagir a esses esforços com autoritarismo e imposição de disciplina na marra só irá afastá-los.

“O jovem pode seguir esses caminhos sozinhos ou em relação de mediação e ajuda com o mundo adulto, desde que o mundo adulto não encare o jovem como uma folha de papel em branco onde ele vai escrever a sua vontade”, afirma.

Para Carrano, não faz sentido impor disciplina se o objetivo da educação é formar sujeitos autônomos. É também por esse motivo que ele se opõe à militarização das escolas como projeto pedagógico.

“Uma instituição como a escola precisa educar em condição de liberdade, não de servidão”, retruca. “Em um mundo onde somos levados a tomar decisões, muitas vezes solitárias, sem rede de apoio, não faz sentido querer educar esperando que alguém diga o que você tem que fazer.”

Essa visão é compartilhada por outros especialistas da área da educação e saúde mental, que defendem um maior protagonismo juvenil na escola e a construção de relações mais democráticas e respeitosas, baseadas no diálogo, limites e na ideia de responsabilização – em casa e em sala de aula.

Pressão e clima de competitividade comprometem saúde mental

Psicopedagoga especializada em educação parental, Ge Gasparini observa que o sistema educacional brasileiro ainda é muito focado em competição, enquanto as características cognitivas individuais e o aspecto emocional ficam em segundo plano.

Ao negligenciar as próprias emoções e necessidades em nome de entregar aquilo que outros esperam deles, afirma, esses jovens acabam deprimidos e ansiosos.

Gasparini defende uma abordagem pedagógica nas escolas que ajude esses jovens, desde a infância, a ter clareza sobre os próprios sentimentos e a lidar com eles de uma forma mais saudável. “Tem que mudar a forma de receber esses alunos, acolher, ouvir, entrosar.”

Carrano, da UFF, também insere na equação da saúde mental os apelos da sociedade de consumo, “que produz desejos permanentemente, muitos inalcançáveis” num contexto de desigualdade social. “Isso gera frustração, precarização, insegurança. Gera, inclusive, o desaparecimento da ideia de futuro”, afirma.

“É também uma sociedade que elogia muito a competição – com o outro, com o mercado, consigo próprio. E que escanteou a ideia de solidariedade, de ajuda mútua. Isso tudo vai criando um quadro de sofrimento.”

Lima, da PUC-PR, concorda. “A criança tem que assimilar desde cedo o imperativo de uma sociedade altamente competitiva e no limite destruidora, no sentido de: ‘ou você me almoça, ou eu te janto’. Como você vai preparar uma criança equilibrada do ponto de vista racional e mental? Qual é o sentido dessa concorrência quase letal?”

Redes sociais como catalisadoras de problemas

O clima de competitividade, aponta Gasparini, é agravado pelas redes sociais, que corroem a autoestima dos jovens, principalmente daqueles que não têm uma rede de apoio no mundo real.

“O problema é a criança encontrar o único apoio fora de casa; aprender, ser aceita e acolhida apenas pelas redes sociais; ficar viciada em receber essa aprovação. Isso adoece qualquer pessoa”, ressalta a psicopedagoga. “Será que é bom mesmo uma criança só ser aceita e só dizer as coisas que ela pensa na rede social, sem os pais saberem?”

O psiquiatra Rodrigo Bressan, do Instituto Ame Sua Mente, dedicado à promoção da saúde mental nas escolas, concorda. Ele compara a internet às ruas de uma cidade grande, e alerta para os riscos de deixar os filhos em ambientes virtuais sem nenhum tipo de supervisão, o que pode agravar quadros de tristeza, isolamento e ressentimento.

“Você deixa seu filho andar sozinho pelo seu bairro? Depende, né?”, questiona Bressan. “É preciso participar mais do que os filhos fazem na rede, principalmente quando são mais jovens. Ali os pais não têm acesso, então não tem como educar.”

Gasparini frisa que os pais, nesse caso, precisam dar o exemplo e zelar, dentro do possível, por uma relação de afeto e proximidade com os filhos.

Intolerância agrava clima violento nas escolas

Carrano, da UFF, cita ainda o desrespeito à diferença, com a perseguição de jovens em ambientes reais e virtuais, como agravantes da saúde mental nas escolas. “Escola e família precisam estar atentas a isso. Os jovens se sentem sós para enfrentar esse tipo de problema.”

“O bullying é a ofensa sistematizada de uma forma que a pessoa fica indefesa. E isso causa muito problema mental mesmo. E quem pratica tem problemas também, os estudos demonstram isso”, ressalta o psiquiatra Bressan.

Família não dá conta sozinha, diz educadora

Especialista em educação e violência, Miriam Abramovay, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), faz uma ressalva: famílias – às vezes monoparentais, não raro com mais de um filho –  estão lutando com muito sacrifício para manter seus lares de pé em meio a uma economia em frangalhos e não podem ser responsabilizadas sozinhas.

“As famílias também não estão dando conta da educação, não é só a escola”, afirma. “Às vezes esses pais também não têm a possibilidade de entender bem o que os filhos estão fazendo, não dão conta nem percebem. E a partir de determinada idade o controle dos pais é muito menor.”

Lima, da PUC-PR, ressalta que a educação de jovens e crianças é disputada por um número cada vez maior de instituições além da família, cujo papel tornou-se “residual e concorrente” ao lado da escola, da mídia, das redes sociais e de instituições religiosas.

Carrano acrescenta que, diferentemente do que acontecia no passado, nenhuma dessas instituições, sozinha, é capaz de orientar totalmente os comportamentos e valores das novas gerações.

Questões estruturais comprometem capacidade de apoio escolar

Marcele Frossard, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, destaca que a educação pública, que concentra quase 90% dos estudantes secundaristas, tem suas limitações porque sofre com a falta de infraestrutura e professores.

“Há uma sobrecarga dos professores e das escolas de uma maneira geral, falta de interlocução entre as diferentes políticas públicas. É importante pensar nesse contexto de escassez de recursos. A realidade da maioria é escola pública, com famílias atravessadas por diversas dificuldades materiais – acesso a moradia, água, alimentação, transporte”, elenca Frossard.

Ela cita ainda perseguição ideológica a professores e o desmonte da educação pública como projeto de emancipação e conscientização crítica. “O papel da escola é educar para a democracia. É o cultivo do respeito à diferença que nos fará ter uma sociedade que não veja a violência como a única estratégia de resolução de conflitos.”

Conflitos esses que, na avaliação do sociólogo Cezar Bueno de Lima, só podem ser efetivamente remediados através do diálogo – preterido, segundo ele, em nome de soluções imediatistas e autoritárias que retroalimentam dinâmicas violentas.

Atualmente liderando uma pesquisa sobre violência e justiça restaurativa em escolas da rede pública no Paraná, Lima fala em síndrome da intolerância e impaciência social generalizada para explicar a violência nas escolas.

“A gente perdeu a capacidade de escutar a outra pessoa e dialogar. As pessoas não têm mais tempo, toleram cada vez menos”, afirma. E é aí que a violência entra como um “atalho”. “Conflitos são inevitáveis, fazem parte da vida. A questão é: eu tenho uma maturidade para resolver esses conflitos que não passa pela necessidade de exterminar o outro?”


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