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Brasil
Estereótipo da pessoa em situação de rua precisa acabar, defende líder
Publicado em 30/08/2023 10:14 - Gonçalo Junior (Terra), Letycia Bond (Abr) – Edição Semana On
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O bilhete que o padre Júlio Lancellotti recebeu com ameaças no domingo, 27, expressa o ódio às pessoas em situação de rua, segmento historicamente defendido pelo religioso de 72 anos. A interpretação foi feita pelo próprio padre na terça-feira (29) ao Estadão.
“É um sintoma de um ódio contra a população de rua, como diz o próprio bilhete. Eles olham para mim e veem isso. Não é o ódio por ser um padre. É o ódio por ser um padre comprometido com a população de rua. Eles sempre citam isso, falam dos direitos humanos, para me ofender”, disse. “O que me causa impacto é alguém fazer deliberadamente maldade para o outro e tentar ferir o outro”.
A mensagem, deixada na porta da Paróquia São Miguel Arcanjo, na zona leste, no domingo de manhã, dizia “seu dia de reinado vai acabar, pode esperar”. O texto diz ainda que o padre é um “defensor dos direitos dos bandidos” e que ele “usa o povo” para se “favorecer”, além de chamá-lo de “petista vagabundo”.
De acordo com a polícia, um idoso de 72 anos confessou ser o autor do bilhete e foi encaminhado ao 8.º Distrito Policial, no Brás. Durante depoimento, ele alegou que conhecia o padre e que “não pretendia fazer, efetivamente, mal a ele”. O caso foi registrado na delegacia como injúria e ameaça.
O religioso conta que apenas se entristeceu ao ler o bilhete. “Eu li, dobrei e não falei nada para ninguém. Meu primeiro sentimento foi de tristeza de ver alguém que senta, pega um papel, uma caneta, escreve, dobra, caminha até a igreja e deixa lá. Não é uma coisa impulsiva. É algo do qual você se arrepender e voltar para trás. Você pode escrever e rasgar. Pode desistir”.
“Às quatro da tarde, eu tinha de batizar algumas crianças. E a polícia já estava lá. Eu estava muito emocionado. Tive dificuldades. Foi o carinho das pessoas que me fez ir para a frente. Na última missa, eu já sabia quem era. Nós rezamos por ele para amainar a cultura de ódio”.
Júlio Lancellotti é conhecido há décadas por seu trabalho de assistência a pessoas em situação de rua. Nas redes sociais, ele denuncia casos de violência policial e de construções que restringem o uso do espaço público. A lei que proíbe esse tipo de estrutura hostil leva seu nome.
Esta não é a primeira vez que o padre é ameaçado. Em 2018, entidades de Direitos Humanos entraram com uma representação no Ministério Público depois que o padre recebeu ameaças de morte.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu a Ordem do Mérito do Ministério da Justiça e Segurança Pública, no grau de Grã-Cruz, ao padre Júlio Lancellotti. Essa homenagem é agraciada a pessoas que tiveram atuações de destaque que envolvem a pasta. A medida foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) desta terça-feira, 29, e carrega a assinatura do presidente e do ministro da Justiça, Flávio Dino.

Rovena Rosa – Abr
Estereótipo da pessoa em situação de rua precisa acabar, defende líder
Com a invenção das mídias sociais e dos aparelhos celulares, os movimentos sociais ganharam ferramentas para facilitar o diálogo entre os integrantes e dar projeção a suas reivindicações e denúncias. O que faz com que se pense como era a comunicação de um movimento em particular antes de tudo isso, como o das pessoas em situação de rua, que têm menos recursos à disposição. Um desafio, de fato, para as articulações em coletivo.
No Dia Nacional da Luta da População em Situação de Rua, comemorado no último dia 19, também ocorre outra dúvida. Muitas autoridades do poder público prometem divulgar serviços a esse grupo populacional, mas de forma online, o que evidencia que talvez as autoridades ainda precisem compreender e aprimorar dinâmicas desse contexto.
Conforme destaca Edvaldo Gonçalves, coordenador estadual do Movimento Nacional de Lutas da População em Situação de Rua, há muita descrença em torno do potencial da população em situação de rua para se mobilizar. Na prática, o movimento de luta, classifica, é “atípico” por não ter recursos, e que “sobrevive pela força, pela vontade”. Na época em que o celular ainda não existia, o jeito era repassar informes no boca a boca, estratégia que resistiu aos tempos, devido à realidade de parcela significativa do grupo.
“A gente tem dois movimentos em nível nacional. Formados por quem? Pela rua. Depois é que a gente chamou os técnicos para participar”, disse.
O encontro que deve reunir lideranças de todo o Brasil deve ocorrer de 27 a 29 de outubro, em Praia Grande, na Baixada Santista, litoral sul de São Paulo.
O estereótipo da pessoa em situação de rua precisa acabar, na opinião de Gonçalves. “Eles têm uma visão da rua como um doido, um cachaceiro, todo sujo. Tem uma coisa que eu brigo muito, que é o fato de que, quando vai se falar sobre qualquer coisa da rua, se coloca uma pessoa toda suja, mal-acabada. A rua não é isso. Quem anda assim geralmente tem algum transtorno mental, e a rua tem muito disso”, argumenta.
O representante do movimento comenta que se nota, por todos os cantos, o crescimento da aporofobia, termo que designa a aversão a pobres, principalmente em municípios em que a direita predomina. Esse aspecto tem rendido contestações por parte de uma figura que acabou se tornando um símbolo da luta por quem tem o direito à moradia negado, o padre Júlio Lancelotti, que mantém um projeto na capital paulista, no qual trabalha incansavelmente.
Gonçalves viveu 30 anos na rua, período que, segundo ele, trouxe uma lição sobre suscetibilidade e o que o move e no qual sempre se engajou ativamente. “A gente aprende. Eu saí da rua, mas, um dia, posso voltar de novo. A gente saiu da rua, mas a rua não saiu da gente. Então, luta pela política pública. A rua é muito marginalizada. Todas problemáticas que acontecem em uma cidade, a culpada é a rua. Não se culpa a sociedade, se culpa a rua. É a rua quem paga primeiro”.
O líder ainda questiona que o que define o tratamento dado a cada pessoa é a presença ou ausência de moradia. “A diferença é ter casa ou não ter casa. O que usa [drogas ilícitas] e tem casa é melhor do que o que usa na rua? O que rouba e tem casa não é considerado ladrão?”, provoca.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há 11,4 milhões de imóveis vazios em todo o país. O dado foi divulgado em junho deste ano. Somente na capital paulista, há cerca de 590 mil imóveis vagos, quantidade que corresponde a quase 20 vezes a de indivíduos em situação de rua.
Governo prepara plano para população em situação de rua
O ministro dos Direitos Humanos e Cidadania, Silvio Almeida, informou que o governo federal prepara um plano voltado para a população em situação de rua. “Estamos desenhando, sob a coordenação do presidente Lula, uma grande política nacional em defesa das pessoas em situação de rua. Vai mobilizar uma série de outros ministérios, como o do Trabalho, da Saúde, do Desenvolvimento Social e Regional”.
Entre as ações, segundo o ministro, está a regulamentação da Lei Padre Julio Lancellotti, que veda o uso da arquitetura hostil que cria elementos que dificultam a presença das pessoas em situação de rua, o programa Moradia Primeiro, que é pensar a moradia como elemento fundamental para pessoas em situação crônica na rua, além de programas de saúde e de emprego.
“Não é só dar a casa, é também organizar a vida das pessoas. Tem também as cotas do Minha Casa, Minha Vida para pessoas em situação de rua. Isso também já foi conversado com o ministro [das Cidades] Jader [Filho] e vamos produzir um decreto. O presidente Lula deve avaliar e vamos dar sentido e concretização para essa política”, disse Almeida.
Comitiva de direitos humanos relata intimidação por agentes em SP
Uma equipe do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) atuando na capital paulista para apurar denúncias de violações a pessoas em situação de rua relata foi alvo de intimidações provocadas pela Guarda Civil Metropolitana (GCM), na manhã de ontem (29). Segundo a conselheira Virgínia Berriel, que coordena a Comissão de Trabalho, Educação e Seguridade Social do CNDH, a investida ocorreu na região conhecida como Cracolândia e os agentes só recuaram quando a conselheira se identificou como autoridade.
“Nós não nos sentimos intimidados pela população em situação de rua, muito pelo contrário, fomos intimidados pela polícia, que, todo dia solta bomba, machuca, agride aquelas pessoas, como se elas não fossem gente. É um negócio de doer. Vieram para cima da gente e eu tive que dar ‘carteirada’. Se eu não mostrasse o cartão, eu seria presa, porque ousei tirar uma foto do policial, porque eles estavam preparando a operação para atacar aquelas pessoas”, disse ela, em entrevista à Agência Brasil.
A integrante do CNDH conta que, como é jornalista, já tende a deixar tudo documentado, o que explica o impulso, ao ver que as agressões estavam na iminência de se concretizar, de fotografar os agentes de segurança. Foi quando um deles a abordou e afirmou que ela não tinha o direito de fazer as fotos. Virgínia disse que poderia tirar foto, já que estava em missão da CNDH. “Ele veio para cima da gente e eu disse: tudo bem. Se você for atacar, vai atacar o CNDH e depois vai ter que prestar esclarecimentos”.
Na sequência, o agente se afastou com a equipe do local. “Só não sei se eles vão voltar lá. Mas eles saíram do local. As pessoas que ficam ali, da assistência social, médicos, disseram: olha, vocês conseguiram uma façanha, porque eles não saem”, acrescenta Virgínia.
A conselheira informou, ainda, que, logo depois da passagem pela Cracolândia, a comitiva seguiu para a Paróquia Nossa Senhora da Paz, na Liberdade, que desenvolve ações a imigrantes e refugiados, e cumprirá, ao longo do dia, agenda com líderes do movimento das domésticas e da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Nesta quarta (30), os representantes do CNDH devem se reunir com o padre Julio Lancellotti e, na sexta-feira (1º), com lideranças do movimento da população em situação de rua, no Espaço Sociocultural Cisarte, na Bela Vista.
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