25/04/2024 - Edição 540

Brasil

Os ‘cristãos’ bolsonaristas que falam em defesa de crianças, mas agridem estudantes

Criança enforcada por PM disse "Lula lá" antes de sofrer agressão, diz mãe

Publicado em 04/11/2022 1:54 - Ricardo Alexandre (TAB UOL), BandNews FM Belo Horizonte – Edição Semana On

Divulgação

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Bolsonaristas que protestavam contra o resultado das eleições presidenciais atacaram estudantes que teriam feito críticas aos manifestantes quando passavam por um protesto dentro de um ônibus escolar.

Vitor Cotrim, 18 anos, foi atingido por uma pedra no rosto e ficou ferido no supercílio, segundo o G1 Sorocaba e Jundiaí. Apoiadores de Bolsonaro chegaram a entrar no ônibus para tirar satisfação com os alunos. O caso ocorreu nessa quinta-feira (3/11) em Jundiaí, interior de São Paulo.

Imagens feitas por celular mostram o momento em que bolsonaristas tentam retirar um dos estudantes de dentro do ônibus, mas a ação é impedida por outros alunos.

Preocupada com a situação de violência, a direção da Escola Técnica Vasco Antônio Venchiaturri (Etevav) suspendeu as aulas nesta sexta-feira (4/11).

Depoimento de um pai

“Tenho um grupo caseiro de estudo bíblico e de oração na cidade onde moro, Jundiaí, interior de São Paulo. Ontem, no período de orações, minha filha de 15 anos pediu a palavra e sugeriu que nosso grupo orasse por um colega de escola que havia se ferido depois que uma pedra atirada por manifestantes bolsonaristas estilhaçou a janela do ônibus onde ele estava. Um vídeo do menino sangrando, e dos manifestantes cercando e invadindo o ônibus, já circulava pela internet àquela altura.

Pais, professores e colegas ficaram assustados — porque não é possível chegar à escola técnica onde ela estuda sem, de alguma forma, passar pela manifestação montada em frente ao 12º Grupo de Artilharia de Campanha da cidade. As aulas, que já estavam ocorrendo de forma caótica desde o resultado do segundo turno, foram suspensas. Minha filha pedia ao nosso pequeno grupo para que orássemos para que o problema se resolvesse e que ninguém mais se ferisse.

Perguntei a ela se essa situação chegou a ser discutida na escola, de alguma forma. Ela disse que não, porque os professores dizem que “falar sobre política pode trazer problemas”. Dentro do carro, tentei explicar que tudo é político, inclusive não falar sobre política. Tentei conversar a respeito do paradoxo evidente entre uma manifestação democrática em defesa de uma intervenção antidemocrática. Mas havia outros paradoxos se avolumando: brasileiros “em defesa das nossas crianças” e “das nossas famílias” fazendo um menino sangrar e impedindo que minha filha e seus colegas pudessem estudar.

É muito difícil escrever esse texto. Porque falo de risco físico e emocional à minha filha, mas não só disso. Falo também de todos os pastores que usaram de sua autoridade reconhecida em comunidade, para convencer milhões de pessoas de que Jair Bolsonaro representava “os princípios cristãos” e que, sem votar 22, nossa sociedade se transformaria em “completo caos”. Falo de outros líderes religiosos que se omitiram diante da fanatização evidente e da radicalização das pessoas que deveriam instruir e orientar.

Falo também de pais de amigos dos meus filhos, que os assediaram politicamente — ainda que eles nem sequer tenham idade para votar. Falo de gente que atrapalhou a educação espiritual deles, dizendo que ser cristão é igual a ser de direita, tentando silenciar todo o legado de William Wilberforce, Martin Luther King, John Trevor e Desmond Tutu que eu espero que viva dentro deles, em pé de igualdade com outros tantos homens e mulheres de Deus mais alinhados ao conservadorismo. Falo de todos os que se dizem cristãos e que se arvoraram como “verdadeiros” crentes apenas por serem adeptos da direita política, oraram, jejuaram e vigiaram para que a vontade de Deus se cumprisse nas eleições e agora protestam contra ela.

Achei que deveria ter uma palavra pastoral para meu grupo, que eu tenho muita alegria de dizer que é feito de gente mais à direita e de gente mais à esquerda, gente misturada unida pelo “vínculo da paz”, exatamente como a Bíblia diz que deve ser. E lembrei da palavra que o profeta Jeremias recebeu de Deus — não quando seu candidato favorito perdeu as eleições, mas quando, muito pior, o rei Nabucodonosor deportou o povo de Jerusalém em direção à Babilônia. Em vez de queimar pneus, apedrejar ônibus, fechar rodovias, agredir jornalistas e querer tomar a vingança em suas próprias mãos, a orientação do “Senhor dos Exércitos” era a seguinte:

Construam casas e se estabeleçam ali. Plantem jardins e comam o que cresce na terra. Casem-se e tenham filhos. Incentivem seus filhos a se casar e ter filhos, para que vocês progridam e se multipliquem nessa terra e não desperdicem a vida. Estabeleçam-se aí e trabalhem para o bem-estar do país. Orem pela Babilônia. Se ela estiver bem, vocês também estarão. (Jeremias 29.4-7)

Porque espero que meus filhos jamais depositem sua esperança nas mãos de um político, seja de direita ou de esquerda, que jamais devotem sua fidelidade a homens e que desconfiem de todo líder que, em vez de ofertar amor, exija compromisso incondicional. Que estejam prontos a sinalizar o Reino de Deus seja em Jundiaí, seja num Brasil conservador ou progressista ou no cativeiro da Babilônia, se for o caso.

Que cresçam muito diferentes dos que se arvoram defensores da família e dos que votam inspirados em “princípios cristãos” estranhos à Bíblia — princípios que só estimulam o divisionismo, a chantagem, a raiva, a rebeldia e a violência.

Depoimento de Ricardo Alexandre, jornalista e escritor, autor do livro “E a verdade os libertará: reflexões sobre religião, política e bolsonarismo” (Editora Mundo Cristão).”

Criança enforcada por PM disse “Lula lá” antes de sofrer agressão, diz mãe

Um policial militar reformado é suspeito de enforcar uma criança de 6 anos que teria dito palavras de apoio ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em Divinópolis, região Centro-Oeste de Minas Gerais. O caso aconteceu no último domingo (31), segundo turno da eleição presidencial.

A mãe da criança, Reisla Naiara Gomes, usou as redes sociais para denunciar o caso. Segundo o boletim de ocorrência, familiares informaram que a criança teria ido até uma padaria próxima de casa, quando foi abordada pelo militar, de 55 anos. O comércio pertence à família do policial reformado.

O homem questionou o menino sobre política. A criança respondeu dizendo “Lula lá”, e acabou sendo enforcada pelo militar, que só parou quando a vítima ficou inconsciente.

“Lá estavam o agressor, a mãe do agressor e o pai do agressor. Eles estavam discutindo Lula e Bolsonaro. Meu menino passou, o agressor passou a mão na cabeça dele e falou: ‘Você é Bolsonaro, você tem cara de ser Bolsonaro’. Aí meu menino falou: ‘Eu sou Lula lá’. No que ele falou, ele pegou meu filho pelo pescoço, enforcando meu filho, deixando ele sem ar até ele desmaiar. Quando ele desmaiou que ele soltou meu filho. Machucou o cotovelo dele”, contou a mãe da criança ao jornal O Estado de Minas.

A PM foi acionada e realizou os primeiros atendimentos à criança. O suspeito já havia deixado o local e não foi localizado.

Em nota, a Polícia Militar confirmou que foi acionada na noite de domingo (30). A agressão teria ocorrido às 9 horas. “De imediato, os policiais militares prestaram assistência à criança e a conduziram para o atendimento médico. As equipes se deslocaram até a residência do suposto autor com o escopo de adotar as providências, porém, este não foi localizado. O registro foi encerrado e entregue à Delegacia de Polícia Civil, tendo em vista o suposto fato se tratar de crime comum.”, informou a polícia.

A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informou que instaurou inquérito policial para apurar o caso. Ele segue em investigação pela delegacia do município.


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