22/02/2024 - Edição 525

Brasil

Operação Escola Segura: Justiça pede exclusão de 270 contas do Twitter

Pandemia e redes sociais agravaram violência escolar no país

Publicado em 10/04/2023 10:39 - Alana Gandra (Agência Brasil), João Pedro Soares (DW) – Edição Semana On

Divulgação Pixabay

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O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) solicitou a exclusão de 270 contas do Twitter que veiculavam hashtags relacionadas a ataques contra escolas de todo o país. A informação foi divulgada no domingo (9) pela pasta. Hashtags são palavras-chave ou termos associados a uma informação ou discussão que se deseja indexar de forma explícita em aplicativos, como Twitter e Facebook, antecedidos pelo símbolo cerquilha (#).

Segundo informou o ministério, por meio de sua assessoria de imprensa, tanto conteúdos como autores estão sob investigação. Foram cumpridos também mandados de busca, resultando na apreensão de sete armas. Um suspeito foi preso. Foi solicitada ainda que a plataforma Tik Tok retire do ar duas contas que estavam transmitindo conteúdo que incitava medo nas famílias. O trabalho foi realizado pela Diretoria de Operações Integradas e de Inteligência da Secretaria Nacional de Segurança Pública.

Escola segura

Os participantes da Operação Escola Segura identificaram mais de 80 perfis que tiveram seus links removidos, face à violação de política da plataforma. O conteúdo desses links foi preservado a pedido do Ministério da Justiça para que seja possível avançar nas investigações. Foram realizadas diversas ações preventivas e repressivas contra ataques nas escolas em todo o Brasil, entre as quais a busca por perfis nas redes sociais com postagens relacionadas a crimes contra a vida e discursos de ódio.

Delegacias de crimes cibernéticos das principais regiões brasileiras também monitoraram ameaças na internet relacionadas a possíveis ataques. Os dados estão sendo analisados pela equipe do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), do ministério, que se dedicará exclusivamente a esse trabalho nos próximos dias, em regime de plantão 24 horas. Qualquer cidadão poderá denunciar ameaças ligadas à segurança de escolas e alunos no site do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O canal exclusivo para receber informações de casos suspeitos de ataques a instituições de ensino foi criado pelo ministério, em parceria com a SaferNet Brasil. Essa associação civil de direito privado atua na promoção dos direitos humanos na internet e, desde 2006, oferece uma plataforma online para denúncias de conteúdo ilegal ou prejudicial na rede. A organização atua como um canal direto entre os usuários da internet e as autoridades, oferecendo um ambiente seguro e confidencial para o envio das denúncias.

Nas ações que integram a Operação Escola Segura, organizada pelo MJSP em parceria com os estados, trabalham de forma integrada 51 chefes de delegacias de investigação e 89 chefes de agências de inteligência de Segurança Pública (Polícias Civis e Polícia Militar). A operação vai vigorar por tempo indeterminado, de forma contínua e durante vinte e quatro horas por dia, reunindo centenas de profissionais.

Levantamento

Desde o recente caso de ataque ocorrido na última quarta-feira (5), em escola de Blumenau (SC), em que quatro crianças morreram e, pelo menos, mais cinco ficaram feridas, o Laboratório de Operações Cibernéticas do MJSP tem apoiado o Grupo de Trabalho Interministerial no levantamento de informações sobre possíveis ameaças às escolas, por meio de monitoramento em redes sociais. Representantes da área participaram da primeira reunião do GT realizada na quinta-feira (6), no Ministério da Educação (MEC).

O Ciberlab atua em diversas frentes para combater os crimes virtuais. Para isso, o laboratório conta com uma equipe especializada em tecnologia da informação, que utiliza técnicas avançadas de investigação para rastrear a origem de crimes virtuais e identificar os responsáveis. A partir dos crescentes casos de violência em centros de ensino do Brasil, o Ciberlab também tem atuado em ações preventivas de ataque às escolas e creches brasileiras, produzindo relatórios que são encaminhados às polícias estaduais de todo o país.

Pandemia e redes sociais agravaram violência escolar no país

O ataque a faca em uma escola estadual de São Paulo, que deixou uma professora morta e outras quatro pessoas feridas, no último dia 27, acendeu um alerta. Ainda que casos isolados de violência escolar sejam registrados no Brasil há mais de 20 anos, o fenômeno se intensificou nos últimos meses. Em meio aos efeitos do estresse provocado pelo isolamento social prolongado na pandemia, jovens encontram estímulos a ações violentas no ambiente digital.

“Infelizmente, sabemos sabe que vai acontecer de novo. É uma questão de tempo”, constata a pesquisadora Telma Vinha, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem) na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O primeiro ataque do tipo ocorrido no Brasil se passou em 2002, em Salvador. Desde então, o país teve 22 casos registrados, já contabilizado o episódio mais recente. Desse total, nove casos se concentram nos últimos oito meses – percentual superior a 40%.

“A escola tem um sentido negativo para esses estudantes. Os dados que coletamos mostram que todos eles tiveram sofrimento na escola, seja por bullying ou humilhação, que geram transtornos mentais. Nos últimos anos, o problema foi muito fomentado por interações no ambiente digital, onde grupos extremistas incentivam essas ações”, comenta Vinha.

A radicalização cada vez mais precoce dos jovens é um fenômeno que preocupa especialistas. O fenômeno de incentivo a práticas violentas, descrito pela pesquisadora, pode ser facilmente observado por uma rápida busca em redes sociais. A tag “TCC ” (True Crime Community) – comunidade de crimes reais, na tradução livre – é a chave para identificar interações desse tipo, seja em chats de games, como o Discord, mas também em plataformas como o Twitter.

“Esses grupos sabem como acolher as pessoas e trabalhar seus pontos fracos. Os jovens se sentem inseridos em uma família, como parte de um movimento, mesmo que seja imaginário. Quando um menino diz que não está bem e que está pensando até em se matar, eles falam: se mata, mas não vai sozinho, você leva os outros com vocês”, detalha a pesquisadora.

Efeito contágio

Nas 48 horas posteriores ao ataque à Escola Estadual Thomazia Montoro, no bairro Vila Sônia, na capital paulista, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) registrou sete boletins de ocorrência com planos de adolescentes que pretendiam realizar atentados semelhantes em ambiente escolar.

A Secretaria suspeita que a ampla divulgação pelos veículos de comunicação e redes sociais da ação na escola Montoro tenha causado um efeito “contágio”, e motivado outros alunos a repetir o ataque. A professora da Unicamp relata que, em grupos extremistas monitorados por seu grupo de pesquisa, a repercussão do caso foi celebrada, como uma demonstração de poder.

As situações de violência contra professores no Brasil não se restringem a casos extremados. O país lidera um ranking de violência nas escolas elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O levantamento, divulgado em 2019, considera dados de 2013, quando 12,5% dos professores brasileiros ouvidos relataram ser vítimas de agressões verbais ou de intimidação de alunos ao menos uma vez por semana. A média entre os 34 países pesquisados é de 3,4%. O Brasil é seguido por Estônia (11%) e Austrália (9,7%).

A realidade exposta pelas estatísticas foi agravada no período pós-pandemia. Segundo dados da Secretaria da Educação de São Paulo, nos dois primeiros meses de aula de 2022, foram registrados 4.021 casos de agressões físicas nas unidades estaduais — 48,5% a mais que no mesmo período de 2019, último ano em que os alunos frequentaram as aulas presenciais todos os dias.

Impactos da pandemia

Em novembro de 2022, a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) lançou o livro Trajetórias/práticas juvenis em tempos de pandemia da covid-19, resultado de uma pesquisa com jovens de seis países latino-americanos. O estudo teve por objetivo conhecer os impactos do isolamento social prolongado na juventude.

“Muitos jovens tentavam preencher o seu cotidiano com coisas diferentes, mas outros não conseguiam fazer isso e tinham problemas de insônia e depressão. Quando retornam para o ambiente escolar, trazem isso com eles. A escola, por sua vez, voltou igualzinha, não mudou em nada o seu papel”, avalia a socióloga Miriam Abramovay, que coordena a Área de Estudos e Políticas da Flacso.

A pesquisadora avalia que o conjunto de problemas ligados à convivência escolar reflete um foco desproporcional nos indicadores de desempenho. Abramovay salienta que a garantia de um ambiente escolar saudável é fundamental para o processo de aprendizagem. Para isso, defende que as escolas dediquem maior atenção à saúde mental dos estudantes, mesmo que não contem com profissionais específicos para isso.

“Você não precisa ser psicólogo para ver que um jovem anda de malha todo dia e que, provavelmente, ele se corta, se automutila. Você não precisa ser psicólogo para notar que alguém está tão triste, que chega a fazer a tentativa de suicídio. Você não precisa ser psicólogo para notar que eles brigam, que eles se xingam, que eles se batem, que eles furtam”, afirma.

Militarização das escolas não é a solução

Ambas as pesquisadoras ouvidas pela DW Brasil, Vinha e Abramovay, rechaçam a via de militarização das escolas como forma de solucionar o problema. Elas recordam que o primeiro ataque contra professores registrado no Brasil, em 2002, ocorreu justamente em uma escola militar, na Bahia.

“Precisamos ampliar os sistemas de proteção, mas sobretudo criar políticas de convivência – muito mais barato e eficiente do que investir em segurança. Ampliar o fortalecimento de serviços de apoio à saúde mental também é importante”, afirma Telma Vinha.

A pesquisadora da Unicamp defende medidas de responsabilização e punição das plataformas que abrigam conteúdos de incentivo à violência. O monitoramento efetivo desse tipo de interação permitiria identificar previamente a inclinação de adolescentes à prática de atos violentos.

“É muito ingênuo achar que família vai dar conta, porque as famílias de escolas públicas estão lutando para sobreviver. Quando os jovens saem da escola, não vão para a natação ou o inglês. Eles ficam em casa sozinhos. Esses pais não sabem o que é Discord ou Twitter. Quando denunciados, esses conteúdos ficam no ar por mais de um mês. Tem que haver uma política de Estado “, conclui.


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