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O Brasil encerrou 2025 com mais de 6 mil mortes por intervenções policiais

Human Rights Watch aponta que violência policial amplia insegurança no país

Publicado em 05/02/2026 1:30 - Semana On

Divulgação Agência Brasil

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O Brasil encerrou 2025 com mais de 6 mil mortes provocadas por intervenções policiais, repetindo um patamar elevado que se mantém inalterado há quatro anos. Após um crescimento contínuo entre 2015 e 2021, a letalidade policial entrou em uma espécie de platô — alto, persistente e sem sinais consistentes de reversão. Para pesquisadores da área de segurança pública, o fenômeno está menos ligado a circunstâncias conjunturais e mais a decisões políticas que moldam o uso da força pelo Estado.

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Em 2015, o país registrava 2.427 mortes em ações policiais. Seis anos depois, em 2021, o número quase triplicou, atingindo o pico da série histórica, com 6.544 óbitos. Desde então, as variações foram marginais: 6.451 em 2022, 6.398 em 2023, 6.238 em 2024 e 6.519 em 2025. Os dados, compilados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, sugerem a consolidação de um modelo de segurança pública que naturaliza índices elevados de letalidade.

Ao longo de 2025, a média mensal se manteve próxima de 500 mortes. Outubro concentrou o maior pico, com 705 vítimas, seguido por novembro, com 585. Dezembro apresentou o menor número do ano, ainda assim elevado: 450 mortes.

A distribuição por estados reforça o caráter estrutural e nacional do problema. A Bahia, governada por Jerônimo Rodrigues, liderou o ranking absoluto de mortes por intervenção policial. Em seguida aparecem São Paulo, sob gestão de Tarcísio de Freitas, e o Rio de Janeiro, comandado por Cláudio Castro. Na sequência, figuram Pará, Paraná, Goiás, Minas Gerais, Ceará, Sergipe e Maranhão — estados de diferentes regiões e governados por campos políticos distintos.

Episódios de grande impacto ajudam a dimensionar a gravidade do cenário. Em outubro de 2025, uma operação policial nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, resultou em 121 mortos, tornando-se a mais letal da história do estado e superando outros episódios emblemáticos de violência institucional no país.

A letalidade como escolha política

Para Rafael Rocha, coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, a letalidade policial deve ser compreendida, прежде de tudo, como um fenômeno político. Segundo ele, o crescimento observado entre 2015 e 2021 decorre tanto do aumento dos conflitos armados entre grupos criminosos quanto da consolidação de um discurso que passou a legitimar a violência policial como resposta padrão.

“Houve um aumento ininterrupto de 2015 a 2021. São vários fatores, mas dois são centrais: o agravamento dos conflitos e a normalização de uma ideia de que a polícia deve matar, associada ao discurso de que ‘direitos humanos são para humanos direitos’”, afirmou em entrevista ao site Ponte.

De acordo com o pesquisador, essa retórica extrapolou fronteiras ideológicas e foi incorporada por governadores de diferentes partidos, inclusive em estados administrados pela esquerda. Esse consenso tácito ajuda a explicar por que a letalidade permanece elevada em regiões tão distintas. “Esse discurso aparece em Minas, Goiás, São Paulo e também na Bahia. Em muitos momentos, governadores encamparam essa lógica”, diz.

Na avaliação de Rafael, as diferenças entre os estados não se explicam apenas por variáveis territoriais ou demográficas, mas sobretudo pelo grau de autorização política ao uso da força. “A definição central é o quanto o governador e o secretário de segurança autorizam a polícia a usar a força”, afirma. A resposta institucional às mortes também tem peso simbólico: “Quando um policial mata em uma situação claramente desnecessária, o que acontece depois? Isso envia uma mensagem muito clara às corporações”.

O pesquisador aponta ainda a fragilidade do controle externo, especialmente por parte do Ministério Público, como elemento-chave para a sensação de impunidade. “É uma ausência de vontade política e de atuação do Ministério Público. Isso sinaliza ao policial que não haverá consequência — e, muitas vezes, ele ainda será tratado como herói”, diz.

Sobre o papel do governo federal, Rafael reconhece avanços pontuais, como a criação de um painel público de dados sobre letalidade policial, mas avalia que as iniciativas são insuficientes. Para ele, o principal instrumento de indução de mudanças segue subutilizado: “O governo federal poderia condicionar os repasses do Fundo Nacional de Segurança Pública ao cumprimento de diretrizes claras. Esse poder existe, mas não é exercido”.

Bahia lidera ranking sem política estruturada de redução

No estado que encabeça o ranking nacional em 2025, a ausência de uma política consistente de redução da letalidade é alvo de críticas. Para Wagner Moreira, do IDEAS — Assessoria Popular, a segurança pública baiana esteve, por muito tempo, marcada pelo “negacionismo dos dados e pela recusa em adotar políticas baseadas em evidências”.

Segundo ele, em 2023 houve uma abertura maior ao diálogo com a sociedade civil, o que resultou na edição de portarias que criaram grupos de trabalho para um Plano Estadual de Redução da Letalidade Policial e para o aprimoramento da transparência dos dados. O processo, no entanto, não avançou. “Essas portarias ficaram no papel. Depois disso, nada caminhou. As promessas ficaram ao vento”, afirma.

Dois anos mais tarde, o governo lançou o Plano de Atuação Qualificada de Agentes de Estado (PQUALI), que estabelece a meta de reduzir em 10% as mortes por semestre. Para Wagner, a mudança de nomenclatura revela também uma inflexão conceitual. “Saímos de um plano que falava explicitamente em redução da letalidade policial para outro que enfatiza a atuação qualificada dos agentes”, observa.

Embora reconheça avanços pontuais, como maior acesso a dados da corregedoria, ele avalia que não há uma estratégia estruturada capaz de produzir queda sustentada das mortes. “Há iniciativas isoladas, mas não uma política robusta voltada a garantir essa redução”, diz.

Para o pesquisador, a retomada do diálogo com a sociedade civil e a criação de mecanismos mínimos de responsabilização são passos indispensáveis. Ele também critica a implementação do programa Bahia Pela Paz, que substituiu o Pacto Pela Vida e prevê gestão compartilhada. “O discurso fala em participação social, mas, na prática, isso nunca aconteceu”, afirma.

O quadro nacional, segundo especialistas, aponta para um impasse: enquanto a letalidade policial seguir sendo tolerada — ou incentivada — como estratégia de segurança, os números tendem a se repetir, ano após ano, independentemente do governo ou da coloração partidária no poder.

Polícia de SP atinge recorde de letalidade e espalha mortes pelo interior

As forças policiais de São Paulo encerraram 2025 com o maior número de mortes provocadas em ações policiais dos últimos seis anos. Ao todo, 834 pessoas foram mortas no estado sob o governo de Tarcísio de Freitas, em um cenário que combina aumento da letalidade com um movimento inédito de dispersão dessas mortes para cidades do interior.

O quadro foi identificado a partir de dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), atualmente chefiada pelo delegado Osvaldo Nico e que, ao longo de 2025, esteve sob comando político do deputado federal licenciado Guilherme Derrite. A consolidação dos números ocorre apenas no mês seguinte ao registro dos casos, o que fez com que os dados de dezembro fossem tornados públicos apenas no fim de janeiro.

Do total de mortes, a Polícia Militar do Estado de São Paulo respondeu por 808 ocorrências — 96,9% dos casos classificados como mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP). A Polícia Civil foi responsável por outras 26 mortes.

Perfil das vítimas repete padrão histórico

Os últimos três meses de 2025 formaram o trimestre mais letal desde o início da série histórica da SSP-SP, em 2013. Apenas em novembro, foram registradas 103 mortes; em outubro, 91; e, em dezembro, outras 82.

O recorte sociodemográfico reforça um padrão já conhecido. A maioria das vítimas era composta por homens (ao menos 823) e jovens entre 18 e 35 anos (458). Também se manteve a seletividade racial: cerca de 59,7% das pessoas mortas eram negras — pretas ou pardas —, enquanto 32,1% eram brancas, proporção inversa à distribuição racial da população paulista.

Antes mesmo de aparecerem nas estatísticas, esses números já vinham sendo expostos em reportagens da Ponte Jornalismo, que documentaram casos emblemáticos de jovens negros mortos em circunstâncias controversas, como abordagens sem confronto armado ou execuções dentro de residências.

Capital perde centralidade, interior ganha protagonismo

A cidade de São Paulo permaneceu como o município com maior número absoluto de mortes (255), seguida pelo conjunto da região metropolitana, que concentrou 443 ocorrências — pouco mais da metade do total estadual. Ainda assim, essa participação vem diminuindo ano a ano.

O dado mais expressivo de 2025 foi a explosão das mortes no interior. Pela primeira vez, quatro em cada dez pessoas mortas pelas polícias paulistas estavam em cidades interioranas: 334 casos, o equivalente a 40,1% do total. Em 2024, essa proporção havia sido de 31,7%.

As regiões de Campinas e Piracicaba lideraram esse avanço, com 76 e 75 mortes, respectivamente. Foi em Piracicaba, por exemplo, que ocorreu o caso de um jovem negro de 22 anos baleado pelas costas ao tentar proteger a esposa grávida durante uma abordagem policial — episódio que simboliza a expansão territorial da violência estatal.

Apesar desse deslocamento da letalidade, a adoção de câmeras corporais no interior permanece limitada. Apenas batalhões de cinco cidades contam com o equipamento, somando 1.418 câmeras — menos de 12% do total disponível na PM paulista.

Letalidade cresce enquanto homicídios caem

O contraste entre a atuação policial e a violência letal geral reforça os alertas de uso excessivo da força. Em 2025, as mortes causadas por policiais cresceram 2,6%, enquanto os homicídios dolosos caíram 4%, chegando a 2.527 registros.

A literatura especializada costuma utilizar a proporção entre mortes policiais e homicídios como indicador de abuso. Pesquisas do sociólogo Ignácio Cano apontam como aceitável um limite de até 10%, enquanto o jurista Paul Chevigny considera abusivos índices acima de 7%. Em São Paulo, ao se somarem homicídios e MDIP, as forças de segurança responderam por cerca de 25% das mortes violentas em 2025 — um patamar sem precedentes no estado.

Projeto político e dificuldade de controle

Para o advogado e pesquisador Almir Felitte, autor do livro “A História da Polícia no Brasil: Estado de exceção permanente”, os números refletem a continuidade de um projeto político de segurança pública. Segundo ele, o atual governo estadual se apoia fortemente em quadros oriundos das forças policiais e sustenta um discurso que trata a violência como solução para conflitos sociais.

“Esse grupo político defende maior autonomia e mais poderes para as polícias, o que cria obstáculos ao controle civil sobre suas atividades”, afirma. Para Felitte, a interiorização da letalidade também está relacionada à forma como o orçamento público é utilizado, com a expansão de operações financiadas por municípios, como a Operação Delegada, que ampliam a presença policial armada em diferentes regiões do estado.

“O orçamento é um excelente termômetro das escolhas políticas na segurança pública. Entender para onde o dinheiro vai é essencial para compreender por que a letalidade cresce e se espalha”, conclui.

O avanço da violência policial para além da capital indica que o problema deixou de ser apenas metropolitano. Em São Paulo, a letalidade passou a acompanhar a própria estratégia política do governo estadual, desenhando um mapa cada vez mais amplo de mortes provocadas pelo Estado.

Human Rights Watch aponta que violência policial amplia insegurança no Brasil

O emprego sistemático da força letal pelas polícias brasileiras, longe de produzir cidades mais seguras, tem aprofundado a violência e a sensação de insegurança. A avaliação é da Human Rights Watch (HRW), que vê na atual estratégia de enfrentamento ao crime um fator de agravamento — e não de contenção — da crise na segurança pública.

A crítica consta do Relatório Mundial 2026, divulgado na quarta-feira (4), que analisa a situação dos direitos humanos em mais de cem países. No capítulo dedicado ao Brasil, a organização aponta que, entre janeiro e novembro de 2025, forças policiais mataram 5.920 pessoas, mantendo o país em um dos patamares mais altos de letalidade policial do mundo. O relatório também destaca o recorte racial: pessoas negras têm três vezes e meia mais chances de morrer em ações policiais do que pessoas brancas.

Para o diretor da HRW no Brasil, César Muñoz, o modelo baseado em operações ostensivas e incursões armadas em territórios vulneráveis se mostrou ineficaz. “Entrar na favela atirando não desmantela grupos criminosos. Isso só produz mais insegurança e ainda coloca os próprios policiais em risco”, afirma.

O relatório menciona como exemplo a operação mais letal já registrada no Rio de Janeiro, realizada em outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, que deixou 122 mortos. Batizada de Operação Contenção, a ação teve como objetivo capturar lideranças do Comando Vermelho, mas, segundo a HRW, reforçou a lógica de confrontos de alto impacto com efeitos colaterais severos sobre a população civil.

Letalidade e saúde mental caminham juntas

A crítica ao uso indiscriminado da força também se estende às consequências para os próprios agentes de segurança. Em 2025, 185 policiais foram mortos no país, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. No mesmo período, 131 policiais tiraram a própria vida.

De acordo com a HRW, a taxa de suicídio entre policiais é significativamente superior à média da população brasileira, um indicador que expõe tanto a exposição contínua à violência quanto a ausência de políticas adequadas de cuidado com a saúde mental desses profissionais.

Muñoz defende uma mudança de paradigma. “O que pedimos são propostas baseadas em evidências e ciência: investigações orientadas por inteligência, capazes de desmantelar organizações criminosas e de identificar vínculos entre o crime organizado, agentes do Estado e a economia legal”, afirma.

Falta de investigação sustenta impunidade

Outro ponto central do relatório é a fragilidade na apuração das mortes decorrentes de intervenção policial. Para a HRW, a ausência de investigações independentes contribui diretamente para a manutenção de índices elevados de letalidade.

Muñoz cita novamente o caso do Rio de Janeiro, onde a estrutura pericial é subordinada à Polícia Civil. “Isso compromete a independência necessária para investigar adequadamente mortes causadas por agentes do Estado”, critica. Embora reconheça que algumas ocorrências envolvam legítima defesa, ele sustenta que parte significativa dos casos configura execuções extrajudiciais.

Violência e corrupção enfraquecem a polícia

O relatório também associa abusos policiais e corrupção institucional ao fortalecimento do crime organizado. Segundo a HRW, práticas violentas e ilegais corroem a confiança das comunidades nas forças de segurança, reduzindo a disposição da população em denunciar crimes e colaborar com investigações.

No lançamento do documento, a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, reforçou essa leitura. “Polícias violentas e polícias corruptas fortalecem a ação do crime organizado”, afirmou.

Para ela, a expansão das facções no país está diretamente ligada à corrupção estatal. “Esses grupos só alcançaram a dimensão atual porque contam, em alguma medida, com a conivência e a corrupção dentro do Estado”, disse. Bueno acrescenta que a violência institucional não traduz força, mas vulnerabilidade: “Uma polícia violenta é uma polícia frágil, mais suscetível à infiltração do crime organizado”.

A pesquisadora defende o fortalecimento dos mecanismos de controle externo da atividade policial, com destaque para o papel do Ministério Público. “O uso da força pode ser legítimo para proteger vidas, mas não pode servir de pretexto para execuções sumárias e abusos”, afirmou, ao mencionar o massacre ocorrido no Rio de Janeiro no fim do ano passado.

Ao apontar que a violência estatal alimenta um círculo vicioso de insegurança, desconfiança e fortalecimento do crime, o relatório da HRW reforça uma tese recorrente entre especialistas: sem controle, transparência e responsabilização, a letalidade policial deixa de ser resposta e passa a ser parte central do problema.

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