25/04/2024 - Edição 540

Brasil

O arroz com feijão sob ameaça bolsonarista

Em quatro anos, o feijão aumentou 143%; o arroz, 49%. Estoques públicos e subsídios aos grãos nutritivos foram desmantelados. Soja domina o campo e já equivale à área de MT, RJ, SE e DF juntos. Prato-símbolo do país representa 4% da produção de grãos

Publicado em 24/10/2022 12:25 - João Peres - O Joio e o Trigo

Divulgação O Joio e o Trigo

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O prato-símbolo do Brasil está com os dias contados? Orgulhoso devorador de Miojo, Jair Bolsonaro afastou a população do arroz-com-feijão. Os quatro anos de seu governo foram marcados por uma forte inflação dos dois itens – o preço do arroz chegou a subir 76% em 2020, enquanto o do feijão preto avançou 45,3% –, somada ao empobrecimento e ao desmonte de uma série de políticas públicas voltadas à alimentação.

Outros quatro anos na mesma toada poderiam representar uma separação definitiva entre a população mais pobre e o arroz-com-feijão. Até agora, não há nada que indique que no segundo mandato Bolsonaro colocaria a produção de alimentos e o combate à fome como prioridades – pelo contrário, o presidente segue a negar a existência de insegurança alimentar e terceiriza a culpa pela inflação.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) publicou no começo do mês a primeira projeção para a próxima safra de grãos. Como de costume, o Brasil baterá recorde. O que há anos não representa uma boa notícia: os grãos usados para a alimentação tradicional do brasileiro seguem perdendo espaço. Na contramão, a soja mantém um crescimento acelerado, e um crescimento que se dá sobre uma base já grande.

A safra brasileira será de 312 milhões de toneladas, uma expansão de 15,3% sobre a colheita passada. Mas, somando arroz e feijão, temos 13,76 milhões de toneladas, ou 4,4% do total da produção brasileira de grãos.

O que está acontecendo no mercado

Nas áreas rurais, o governo Bolsonaro representa ao menos duas grandes mudanças. A primeira mudança é de ritmo: a atual gestão mantém a prioridade dada desde os anos 90 à agricultura de exportação, que conta com subsídios públicos.

Porém, Bolsonaro cria um ambiente muito mais favorável a um avanço sem freios dos setores do agronegócio ligados a grilagem, desmatamento, violação de terras indígenas e crimes contra populações rurais.

Além disso, ele aperfeiçoa ou engendra mecanismos de atrelamento das terras brasileiras ao mercado financeiro. A Lei do Agro abre a possibilidade para investimentos em dólar e para uma concentração fundiária ainda maior – isso em um país famoso pela concentração fundiária. A lei dos fundos de investimento do agronegócio (Fiagro), aprovada a toque de caixa na Câmara e no Senado, cria condições para mais um boom de investimentos.

O que está acontecendo no campo

Todo esse boom tem um reflexo lá na ponta, na agricultura, na vida de quem está decidindo o que plantar. “A alta do preço foi referente aos combustíveis, principalmente o diesel, desde a embalagem e também os insumos agrícolas. Tudo isso subiu muito porque é atrelado ao dólar”, conta Caio Reiche André, um jovem agricultor da região de Campinas, no interior de São Paulo. Ele é da terceira geração que cultiva na propriedade familiar de 35 hectares, mas tem realizado uma mudança de rumos. “O aumento de custos fez com que o produtor produzisse cada vez menos. Então, quem produzia 50.000 pés de tomate começou a produzir 30 mil, 25 mil, que era o que dava com o mesmo orçamento.”

Às repórteres Mariana Costa e Amanda Flora, ele contou algo que ouvimos de vários outros agricultores: “O tomate, devido à falta de mão de obra, há dois anos, desde a pandemia, a gente migrou para a soja. Porque a mão de obra da soja é muito menor, é só um trator, e irrigação é menos do que o cultivo do tomate.”

Essa é a segunda grande mudança introduzida pelo bolsonarismo: o abandono das políticas e dos estímulos voltados a abastecer o mercado interno. Não se trata de um livre mercado no qual os agricultores estão decidindo o que plantar, e sim de um Estado voltado a unicamente defender os interesses de elites financeiras e rurais, empurrando os agricultores para uma via de mão única na qual são obrigados a aderir à lógica da soja, do milho ou do algodão.

Nas palavras da própria Conab, segundo as projeções para a próxima safra:

A redução da produção de arroz “é reflexo principalmente da estimativa de significativa redução de área em meio à reduzida rentabilidade projetada para o setor, com a menor atratividade financeira do setor orizícola em relação às culturas concorrentes por área, como a soja e o milho”.

O mesmo para o feijão: “Tal valor indica diminuição na destinação de área em relação ao exercício passado, principalmente pela ampla concorrência de cultivos mais rentáveis recentemente, como soja e milho.”

“Essas lavouras [arroz e feijão] não têm a mínima condição de entrar numa rota de crescimento de milho e soja.” Quem diz isso é José Garcia Gasques, da Assessoria de Gestão Estratégica do Ministério da Agricultura. Ele coordena o estudo “Projeções do Agronegócio”, atualizado periodicamente.

Na versão mais recente, de 2021, o ministério projeta uma redução de até 60% na área cultivada com arroz ao longo da década. Em 2030, sobrariam 600 mil hectares, o equivalente a 10% do Distrito Federal. No caso do feijão, a redução seria de um terço, para 1,8 milhão de hectares – em torno de 30% do Distrito Federal.

No cenário mais positivo para o agronegócio, e portanto o mais negativo para a sociedade, o Brasil passaria a ser um importador dos dois grãos. Se esse cenário te soa improvável, há duas informações importantes:

no geral, o Ministério da Agricultura tem errado as projeções para menos, ou seja, na vida real a soja e o milho têm avançado até mais rápido do que o esperado. Para citar um exemplo, o país só ultrapassaria 150 milhões de toneladas de soja em 2024, mas isso acontecerá na safra deste ano o Brasil tem importado 10% do consumo anual de arroz.

Para Gasques, do Ministério da Agricultura, não há mudança no horizonte. “Os colegas nossos da Embrapa que olham arroz e feijão falam que o arroz pode dar uma virada, uma mudança de patamar se o Brasil começar a exportar arroz. Porque a qualidade do arroz brasileiro é muito boa. Se for mais relevante na exportação, isso deve trazer várias mudanças na cultura em termos de tecnologia.”

Até há pouco tempo, o cenário de avanço do agronegócio sobre o cultivo de alimentos para consumo interno não era tão claro. Agora, existe uma competição evidente, e essa competição é absolutamente desigual. Para que se tenha uma ideia, a atual safra de grãos avançará dois milhões de hectares – a soja ficará com 1,5 milhão. O Mato Grosso, sozinho, responderá por metade disso. O Joio mostrou como assentamentos e sítios estão sendo tomados pela soja, e os agricultores familiares que desejam resistir não conseguem ser ouvidos por Incra e Ibama.

Arroz e feijão vêm perdendo área desde os anos 90. No geral, o aumento da produtividade tem conseguido compensar essa redução. Mas tudo indica que tenhamos chegado a um ponto de mudança: a produção total começa a cair, e está no limite de não dar conta do consumo total da população brasileira.

Quando se olha para os períodos dos mandatos presidenciais, o Brasil tem uma quase-estabilidade na produção de feijão, e uma ligeira redução na produção de arroz. O que em nenhum dos casos representa uma boa notícia, já que a população cresceu consideravelmente desde os anos 90 – de 160 milhões no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso (1995 a 1998) para 212 milhões em 2022.

O que está acontecendo na cidade

O bolsonarismo seria criador de problemas em qualquer período histórico. Mas tivemos o azar de um encontro entre o pior governo de todos os tempos e alguns acontecimentos dramáticos, internos e externos. A pandemia e a Guerra da Ucrânia, de fato, bagunçaram o cenário internacional, com uma série de reflexos negativos sobre o preço dos alimentos, dos combustíveis e dos insumos utilizados para a produção. Porém, isso é apenas parte da explicação.

Internamente, o bolsonarismo vem na esteira dos desmontes promovidos por Michel Temer. A reforma trabalhista transferiu dinheiro que chegava às mãos da população, por meio de direitos, para grandes empresas e empresários. Desde então, o Brasil virou um exército de MEIs e o rendimento do trabalhador medido pelo IBGE caiu quase 10% no intervalo de apenas um ano – entre o primeiro trimestre de 2021 e o mesmo período de 2022. Com isso, o rendimento é o menor desde 2012.

O que deveria acontecer na cidade

Para piorar, o bolsonarismo chega no momento-chave em que deveria ser promovida a formulação de políticas públicas para frear o consumo de ultraprocessados. No mundo inteiro, governos têm quebrado a cabeça para criar medidas que consigam limitar o aumento dos índices de obesidade e de doenças crônicas.

O Brasil vinha apresentando um padrão alimentar resiliente no que diz respeito ao consumo de ultraprocessados. As faixas de menores salários e moradores do Norte e do Nordeste tinham índices de consumo consideravelmente mais baixos, de acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE. A boa notícia é que, embora o consumo continuasse em alta, o ritmo de avanço dos ultraprocessados havia diminuído na POF de 2017 e 18 em comparação com a anterior, de 2008 e 09.

Porém, tudo indica uma inflexão nessa curva. O empobrecimento massivo da população e o aumento dos níveis de insegurança alimentar podem ter ocasionado uma migração dos mais pobres em direção a Miojo, salsicha e companhia. Para piorar, justamente este ano a média de preços dos ultraprocessados se tornou mais barata que a média de preços dos alimentos in natura e minimamente processados, segundo o acompanhamento promovido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade de São Paulo (USP).

Caso Lula vença

O cenário não é fácil para o petista. Ele dificilmente terá condições e disposição política para comprar brigas grandes com o agronegócio. Criar impostos sobre a exportação de commodities seria um caminho importante para desestimular a produção de soja, algodão e milho. Além disso, seria necessário promover uma análise de como o atrelamento do agronegócio ao mercado financeiro está produzindo concentração fundiária, redução da produção de alimentos e êxodo rural.

Numa perspectiva mais modesta, porém, não é difícil recriar estímulos para que a agricultura familiar possa produzir alimentos. Um pequeno aumento na área destinada a arroz, feijão, mandioca, tomate e outros cultivos já teria a capacidade de melhorar consideravelmente a oferta. Sem preços baixos, será difícil os alimentos competirem com os ultraprocessados.


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