25/04/2024 - Edição 540

Brasil

Morte em escola de Cambé lembra que precisamos reduzir armas em circulação

Ataques a tiros em escolas geram três vezes mais mortes do que com facas

Publicado em 20/06/2023 11:11 - Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O ataque a tiros que deixou dois estudantes mortos em uma escola em Cambé (PR), na segunda (19), pelas mãos de um ex-aluno de 21 anos vem sendo usado para a campanha pelo armamento. Logo depois da tragédia, as redes sociais foram inundadas por quem defende colocar uma pistola nas mãos de professores e de funcionários.

Não é a primeira vez que mortes em escolas são usadas por quem milita pelas armas de fogo. Quem acompanha aqui a coluna sabe que, infelizmente, a tática é recorrente. O mesmo aconteceu após o massacre em uma escola em Suzano (SP), na chacina em Saudades (SC), no ataque à escola estadual Thomazia Montoro, na capital paulista, ou mesmo nas mortes em Realengo, no Rio de Janeiro.

Enquanto Luan, a segunda vítima ainda lutava pela vida no hospital, discursos rasos pipocavam nas redes afirmando que a única maneira de parar um criminoso armado é colocando armas dentro das escolas e propondo que projetos de leis fossem aprovados nesse sentido aproveitando a comoção.

Davam como exemplo que o criminoso foi contido por um vizinho que ouviu os tiros e correu para ajudar. Só omitem que Joel de Oliveira, que impediu tragédia maior, estava desarmado, tal como professores que dominaram agressores em outros ataques. Contar com policiais ou agentes de segurança treinados para usar uma arma em situações como essa e que possam alcançar o local rapidamente é importante. Mas entregar armas de fogo a civis pode elevar o tamanho dessas tragédias.

Campanhas como essa encobrem o verdadeiro debate que deveria estar sendo travado agora, que é o de acelerar o desarmamento da população. Imagine se, ao invés do revólver, o rapaz portasse um fuzil, daqueles com acesso facilitado pelo governo Jair Bolsonaro. Poderia ter acontecido um massacre, como já ocorreu em outros momentos no Brasil e ocorre em escolas nos Estados Unidos – onde pessoas com transtornos mentais ceifam vidas periodicamente com armas pesadas.

Aliás, em determinados estados norte-americanos, que servem de referência para os defensores do livre acesso às armas no Brasil, jovens podem comprar fuzis em varejistas, sem dificuldade.

Os decretos presidenciais que flexibilizaram o acesso a armas de fogo (tanto as de baixo calibre, quanto fuzis e espingardas) e munição foram uma das piores heranças do governo passado. Assim que assumiu, Lula reverteu alguns e exigiu recadastramento de armas. A Bancada da Bala no Congresso Nacional tenta reverter essas mudanças.

Mas o estrago foi feito. E como o mercado ilegal é também alimentado pelas armas compradas legalmente, o Brasil se tornou menos seguro.

A letalidade de ataques realizados com armas de fogo contra escolas é três vezes maior que a daqueles perpetrados com armas brancas, como facas e machadinhas. Os dados são do estudo “Raio-X de 20 anos de ataques a escolas no Brasil”, do Instituto Sou da Paz, que foi atualizado após o crime cometido em Cambé (PR).

O levantamento identificou 25 casos que deixaram 139 vítimas, das quais 93 não fatais e 46 mortos. Apesar de ataques com armas de fogo (12) terem quase a mesma incidência daqueles com armas brancas (10), elas produziram 35 mortes frente a 11 do segundo grupo. Ou seja, 76% das mortes foram causadas por balas enquanto 24% por objetos cortantes ou perfurantes.

Defensores das armas dizem que elas reduziram o número de mortes no país. Mortes caíram sim, mas por conta da efetivação de políticas estaduais de segurança pública ao longo da última década, pelo armistício em guerras travadas por facções do narcotráfico (especialmente a partir de 2017) e pela transição etária do Brasil, que está ficando menos jovem e, com isso, com menos casos de violência. Ou seja, se não tivéssemos a facilitação da aquisição de armas, a redução teria sido ainda maior.

As razões do crime de Cambé precisam ser esclarecidas pela Polícia Civil, mas a hipótese mais provável, até agora, é a de uma pessoa com problemas que quis vingança por bullying. Nesses casos, não adianta propor aumento de pena, como muitos defensores do “se vierem com revólver, temos que vir como metralhadora” afirmam. Explicar aos autores de tragédias em escolas que eles podiam ser presos ao cometerem tais atos simplesmente não teria feito diferença, lembrando que, não raro, muitos tentam se matar ao final.

Se não somos capazes de antever certos atos de insanidade, há coisas que conseguimos minimamente controlar. Trabalhar para que nossa sociedade cuide das pessoas que passam por transtornos psíquicos (identificando sinais e garantindo que tenham o tratamento adequado), regular as plataformas de redes sociais para que não sirvam como instrumento de formação de novos agressores e evitar que o Estado espalhe armas ainda mais, por exemplo.

Há muito o que discutir e fazer. Desde que não optemos por responder estupidez com mais estupidez.

Ataques a tiros em escolas geram três vezes mais mortes do que com facas

A letalidade de ataques realizados com armas de fogo contra escolas é três vezes maior que a daqueles perpetrados com armas brancas, como facas e machadinhas. Os dados são do estudo “Raio-X de 20 anos de ataques a escolas no Brasil”, do Instituto Sou da Paz.

Apesar de ataques com armas de fogo (12) terem quase a mesma incidência daqueles com armas brancas (10), elas produziram 35 mortes frente a 11 do segundo grupo. Ou seja, 76% das mortes foram causadas por balas enquanto 24% por objetos cortantes ou perfurantes.

Nos outros três casos, os agressores usaram armas de pressão, balestra e explosivos, não deixando vítimas fatais.

“Este caso do Paraná infelizmente se encaixa em um tipo padrão que temos verificado em ataques a escola. Autor do sexo masculino, com relação prévia com o local atacado (ex-aluno), ingressando na escola com o intuito de fazer o maior número de vítimas”, afirma o autor do estudo, Bruno Langeani.

“Com o agravante que quando se facilita o acesso de arma a este agressor, o número de vítimas fatais é sempre maior”, afirma.

Os dados do Sou da Paz apontam que houve planejamento por semanas ou meses por parte dos agressores em pelo menos 20 casos. Destaca que, no ataque de Cambé, a polícia encontrou com o assassino anotações sobre outros ataques em escolas, como os de Suzano (SP).

Isso indica que há inspiração e diálogo entre casos e autores. Mas que também é possível que professores, funcionários pais e colegas busquem mudanças de comportamento nos jovens para prevenir esse tipo de crime.

“O crescimento da extrema direita no país, o estímulo ao comportamento violento e a liberação de armas são um coquetel perfeito para o crescimento de ataques à instituições de ensino e vão demandar forte arranjo de vários entes públicos para conseguirmos reverter esta tendência de crescimento”, avalia Langeani.

Entre as recomendações do estudo para enfrentar o problema, estão a corresponsabilização de plataformas digitais, a criação de equipes policiais treinadas em monitoramento de redes com capacidade de realização de atuação preventiva, o estabelecimento de protocolo de ação para que PMs possam responder a estes eventos, estabelecimento de programas para a saúde mental dos estudantes e de mediação e justiça restaurativa nas escolas para lidar com conflitos e bullying e o endurecimento do controle e fiscalização da compra de armas de fogo e munições, entre outros.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *