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Brasil
Assassinato de delator do PCC no aeroporto de Guarulhos intima Lula e Tarcísio a trabalhar juntos
Publicado em 11/11/2024 11:12 - Semana On, Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On
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A morte de Celso Araujo Sampaio de Novais, motorista de aplicativo baleado nas costas enquanto estava no saguão do Aeroporto Internacional de Guarulhos – durante o atentado que tirou a vida do “empresário” Vinicius Gritzbach, delator do Primeiro Comando da Capital (PCC), no último dia 8, trouxe à tona preocupações graves sobre a segurança pública no Brasil. Novais chegou a registrar um vídeo em uma ambulância relatando o ocorrido para a esposa. Apesar dos esforços médicos, ele não resistiu aos ferimentos.
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O ataque aconteceu no principal aeroporto do Brasil, que recebeu mais de 41 milhões de passageiros em 2023, um local geralmente considerado seguro e monitorado. A emboscada levanta questões sobre a organização de facções criminosas, como o PCC, que têm agido de forma cada vez mais audaciosa e coordenada, inclusive em ambientes de alta visibilidade e segurança.
As circunstâncias do ataque contra Vinicius Gritzbach sugerem uma possível execução motivada por vingança ou eliminação de arquivo, uma hipótese que aponta para uma crescente complexidade e periculosidade nas ações dessas facções. O episódio chama a atenção para as falhas no sistema de segurança pública, que vem priorizando ações de combate direto e ostensivo, muitas vezes em detrimento da inteligência policial e da investigação. Críticos afirmam que as operações de alta letalidade se intensificaram, enquanto políticas de controle, como o uso de câmeras corporais, foram reduzidas, e o apoio à inteligência e integração entre polícias diminuiu.
Para especialistas, o episódio em Guarulhos ilustra uma tendência preocupante: o fortalecimento de facções criminosas que se mostram cada vez mais à vontade para agir onde e quando quiserem. Essa situação tem levado analistas a compararem o Brasil a narcoestados de outros países, em que o poder do crime organizado influencia e desafia a ordem pública em níveis alarmantes.
A denúncia de que Vinicius Gritzbach teria revelado informações sobre policiais supostamente envolvidos com facções, incluindo o PCC, adiciona um elemento perturbador à situação, sinalizando a presença de uma rede de apoio e vazamento de informações que minam a integridade das instituições de segurança.
O governo do estado de São Paulo, embora mantenha sua postura de combate firme contra o crime, enfrenta críticas pela ênfase na letalidade em detrimento de métodos preventivos e investigativos. Especialistas defendem que a crise na segurança pública não pode ser resolvida apenas com aumento de operações, mas sim com um suporte robusto à inteligência policial e medidas eficazes de controle interno.
A morte de Celso Novais e Vinicius Gritzbach, em uma ação em plena luz do dia e em um dos aeroportos mais movimentados do país, representa mais que um crime: expõe a fragilidade de um sistema que precisa urgentemente de uma revisão estrutural para impedir que o crime organizado atue com tanta liberdade.
Parceria?
Governos existem não pelo que dizem, mas pelo que fazem. Há doze dias, Lula reuniu os governadores no Planalto para expor uma PEC anti-crime organizado. Tarcísio de Freitas disse que a iniciativa é “bem-vinda” como “primeiro passo” para “uma grande construção coletiva.” Algo que permita enviar ao Congresso “não só uma PEC, mas um grande pacote.”
O assassinato do empresário Vinicius Gritzbach, delator do PCC, como que intimou Lula e Tarcísio a transformar discurso em prática. A Polícia Federal e a polícia civil de São Paulo entraram na investigação divididas, em inquéritos paralelos. As circunstâncias convidam os chefes das duas corporações a ordenar o trabalho conjunto.
Pai da PEC anti-crime, o ministro Ricardo Lewandowski (Justiça) tirou uma casquinha do governador fluminense Claudio Castro na reunião de dias atrás no Planalto. Disse que “a valorosa e combativa Polícia Federal” desvendou com “sete homens” o caso Marielle Franco, que a polícia do Rio não conseguiu elucidar em cinco anos.
A execução de Vinicius Gritzbach ocorreu no aeroporto de Guarulhos, um pedaço do mapa de São Paulo sob jurisdição federal. Podendo sugerir a Lula a federalização do caso, o ministro da Justiça preferiu colocar a “valorosa” PF num inquérito paralelo. Tarcísio, por sua vez, também não pediu apoio federal. Havendo colaboração entre a polícia paulista e a polícia federal, pode-se apressar uma investigação dura de roer. Sem conversa, o caso pode virar um novo flerte com o fiasco.
Ágatha, 8, avisa a Ryan, 4, que morte de criança negra e pobre fica impune
Na mesma semana em que Ryan, 4, foi morto durante uma operação policial em uma comunidade pobre de Santos (SP), com um tiro de fuzil na barriga enquanto brincava com os amigos, um júri popular absolveu o policial militar Rodrigo Soares, autor do tiro de fuzil nas costas que matou Ágatha Félix, de 8 anos, durante ação policial no Complexo do Alemão, comunidade pobre do Rio, quando ela voltava para casa com a mãe.
Os sete jurados consideraram que o PM não teve intenção de matar. Policiais disseram que foram atacados, mas testemunhas e evidências contestaram isso. Soares teria confundido uma esquadria de alumínio carregada na garupa de uma moto com uma arma e disparou. O Ministério Público e a família vão recorrer.
Se Ágatha e Ryan ainda existissem, certamente a primeira diria ao segundo para não se decepcionar, pois a Justiça não chega para todos. Pois não é demagogia, mas conhecimento básico da realidade brasileira, a afirmação de que o maior crime neste país é nascer no local e na classe social “errados”. E com a cor errada – ambos eram negros.
Você se lembra do rosto de Ágatha Félix, morta em 20 de setembro de 2019? E do rosto de João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, que morreu durante uma operação conjunta das polícias Federal e Civil em São Gonçalo (RJ)? E o de Marcos Vinícius da Silva, também de 14, assassinado, ainda de uniforme escolar, durante uma ação policial no Complexo da Maré?
Como construir um futuro se a maioria de nós já nem se lembra dos cadáveres de crianças negras pobres mortas durante ações da polícia que nos chocaram recentemente?
Como um país quer ser decente se há pessoas que comemoram ações da polícia que matam jovens e negros nas periferias, e depois se enrolam em bandeiras do Brasil para protestar por democracia?
Sim, quando circulam histórias de pessoas pobres agredidas ou mortas por seguranças privados ou um policiais no Brasil, uma parte de meus compatriotas diz prontamente “se morreu, é porque alguma coisa tinha feito de errado”.
Diante do caso de Ryan, o governo diz que “as mortes em decorrência de intervenção policial são resultado da reação de suspeitos à ação da polícia”. Ou seja, se morreram é porque são culpados, o que dá ao cano da arma do agente de segurança o poder de investigador, promotor, juiz e carrasco. Mas, como já disse aqui, que culpa tem Ryan além de ter nascido em um estado onde o poder público está despreparado para lidar com vidas?
Sim, para muita gente, era Ryan, Ágatha, João Pedro e Marcos Vinícius que estavam no “lugar errado e na hora errada”.
É claro que não há ordens diretas para metralhar crianças pobres dadas pelo comando do poder público ou por empresas privadas. Mas nem precisaria. Primeiro, ensinamos agentes de segurança em grandes metrópoles a odiar para garantir que tudo se mantenha como está. Segundo: ao implementar uma política de alta letalidade policial, estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia assumem o risco da morte dessas crianças como “efeito colateral”. Por isso, seus comandos políticos deveriam ser responsabilizados nos tribunais. Deveriam, mas não serão.
Como já disse aqui, o Brasil é um capataz que espanca e mata pobres e negros em estabelecimentos comerciais, mas também nas delegacias e periferias, com a certeza que isso continuará sendo permitido, pois é tarefa para a manutenção do cotidiano dos “homens e mulheres de bem”.
Uma maioria de policiais honestos sofre com isso, pois também morre, mas acaba engolida pelos desonestos, os violentos e os oportunistas.
E enquanto crianças morrem em comunidades pobres durante operações policiais, facções criminosas se espalham gostosamente pelo país, controlando a política, a polícia e aterrorizando periferias e aeroportos.
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