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Brasil

Militarização liderada por Trump pressiona Brasil a rever doutrina de defesa

Ofensiva dos EUA na América Latina pode tornar obsoleta a noção regional de “zona de paz”

Publicado em 13/01/2026 8:48 - Semana On

Divulgação Intercept_Brasil

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A intensificação da presença militar dos Estados Unidos na América Latina durante o novo mandato de Donald Trump acendeu um sinal de alerta em Brasília e reabriu, dentro do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o debate sobre a necessidade de revisar a estratégia brasileira de defesa nacional. Integrantes do Executivo avaliam que o país pode ser compelido a repensar desde a doutrina das Forças Armadas até o volume de recursos destinados ao setor.

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Segundo fontes do alto escalão ouvidas pelo jornalista Jamil Chade, do ICL Notícias, a derrubada de Nicolás Maduro foi interpretada internamente como um movimento alinhado à nova estratégia de defesa dos Estados Unidos. O documento orientador da política militar americana prevê explicitamente o controle do Hemisfério Ocidental e a ampliação de posições militares ao longo do continente.

A leitura predominante no Planalto é a de que não se trata de um episódio isolado. “Vamos apenas observar ou também nos preparar?”, resumiu um integrante do Executivo, ao descrever as discussões reservadas em curso. Há convergência entre o Itamaraty e setores do governo de que a ação na Venezuela integra uma ofensiva mais ampla, reforçada pelas ameaças recentes a Cuba e à Colômbia e, sobretudo, pela perspectiva de um posicionamento militar duradouro dos EUA na região.

Caso se confirme uma presença americana permanente em território venezuelano — com o país transformado, na prática, em um protetorado —, a principal inquietação brasileira recai sobre a soberania da Amazônia, tema historicamente sensível para os militares. Soma-se a isso a disputa por recursos naturais, em especial a exploração de petróleo na foz do rio Amazonas, que ganha relevância no contexto da corrida global por matérias-primas estratégicas.

A atenção do governo, no entanto, não se limita ao norte do continente. No Cone Sul, causou apreensão o acordo firmado em dezembro entre o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e o chanceler paraguaio Rubén Ramírez Lezcano. O tratado estabelece o arcabouço legal e operacional para a presença de militares norte-americanos no Paraguai.

Ao anunciar o acordo, o porta-voz adjunto de Rubio, Tommy Pigott, afirmou que o texto cria regras claras para a atuação de militares e civis do Pentágono no país, facilitando treinamentos conjuntos, ações humanitárias, respostas a desastres e outras iniciativas de segurança. A diplomacia americana também ressaltou o “papel estratégico” do Paraguai como liderança regional em temas de defesa.

É justamente essa centralidade atribuída a Assunção que preocupa autoridades brasileiras. Uma eventual instalação de base militar dos EUA nas proximidades da Usina de Itaipu é vista como sensível, assim como a possibilidade de articulação regional a partir do Paraguai com governos de extrema direita na Argentina, no Chile e na Bolívia.

Outro fator considerado no Planalto é a sinalização de Washington de que não tolerará a expansão da presença chinesa em infraestruturas estratégicas latino-americanas. A pressão exercida sobre o Panamá em relação ao canal e o consequente afastamento do país centro-americano da China foram interpretados como um recado direto. Diplomatas brasileiros relatam ainda ter ouvido de interlocutores republicanos que a Casa Branca se opõe à ampliação de portos e ferrovias controlados por empresas chinesas no continente.

Diante desse cenário de disputa geopolítica aberta, volta à mesa a pergunta incômoda: ainda faz sentido sustentar a América do Sul como “zona de paz”? A ideia, consagrada por acordos como a desnuclearização regional, a cooperação nuclear com a Argentina e o compromisso com o respeito às fronteiras, foi um dos pilares da redemocratização e da posterior integração econômica e de infraestrutura.

Uma eventual inflexão estratégica, porém, esbarra em um obstáculo concreto: o orçamento. Dados do SIPRI indicam que, em 2024, o Brasil ocupava apenas a 21ª posição entre os maiores gastos militares do mundo, três colocações abaixo do ano anterior. Espanha, Holanda e Argélia superaram os investimentos brasileiros. Com US$ 20,9 bilhões destinados à defesa — cerca de 1% do PIB —, o país registrou uma queda proporcional de 14% nos gastos militares entre 2015 e 2024.

No mesmo período, os Estados Unidos responderam por 37% das despesas militares globais, enquanto a China concentrou cerca de 12%. A participação brasileira foi de apenas 0,7%.

O diagnóstico de vulnerabilidade não se restringe a quadros do governo. Em artigo recente, o ex-diretor do FMI Paulo Nogueira Batista Jr afirmou que “ficou claro em 2025 que o governo Trump só respeita países com força bruta e capacidade de retaliação”, citando China e Rússia. Segundo ele, mesmo aliados tradicionais dos EUA, como os europeus, têm sido desrespeitados de forma recorrente.

Para Batista Jr., o contexto internacional transformou a fragilidade militar brasileira em um “risco existencial”. Ele defende uma revisão completa da política de defesa externa e um aumento dos gastos militares, ainda que isso exija abrir espaço fiscal. “Se pretendemos viver como nação independente, esse espaço terá de ser criado”, escreveu, acrescentando que o Brasil deveria aprofundar a cooperação militar com China e Rússia. “O risco não vem do nosso entorno imediato, mas de uma superpotência imperial ambiciosa e agressiva”, concluiu.

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