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Brasil

Milhões de pessoas apostaram Bolsa Família e não têm como reaver dinheiro

Banir bets da TV e de influenciadores é fundamental para a saúde pública

Publicado em 09/06/2025 10:24 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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O Brasil vive um paradoxo dramático: enquanto milhões de famílias sobrevivem com recursos mínimos para garantir dignidade, parte desse dinheiro está sendo sugado por plataformas de apostas online que lucram com a vulnerabilidade de seus usuários. Estima-se que entre 1,8 e 3 milhões de beneficiários do Bolsa Família tenham utilizado seus repasses em apostas virtuais — um fluxo financeiro que, só em agosto de 2024, movimentou R$ 3 bilhões. Esse valor, que deveria garantir comida, saúde e dignidade, foi tragado por uma engrenagem digital que cresce sem regulação efetiva.

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A denúncia levou a Educafro e o Cedeca (Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente) a protocolarem, em 22 de maio deste ano, uma ação civil pública na 13ª Vara Cível Federal de São Paulo. A ação pede que empresas de apostas sejam obrigadas a devolver os valores captados de beneficiários de programas sociais e criem mecanismos para barrar o acesso de pessoas cadastradas no CadÚnico. A ação ainda está em fase preliminar e aguarda análise de pedido de tutela de urgência pelo juiz federal Marcelo Guerra Martins.

O custo social da aposta

Os números impressionam. Segundo dados do Banco Central, o mercado de apostas esportivas online movimenta, em 2025, até R$ 30 bilhões por mês. Mantido esse ritmo, o total anual pode ultrapassar os R$ 360 bilhões — mais do que o valor total destinado ao programa Nova Indústria Brasil, carro-chefe da política industrial do governo Lula.

Dentro desse volume colossal, a presença de recursos oriundos do Bolsa Família revela um desvio grave de finalidade e levanta suspeitas sobre fraudes. Em agosto de 2024, o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) apontou que pelo menos 1,8 milhão de beneficiários usaram seus cartões do programa em casas de apostas, motivando abertura de inquérito na Polícia Federal. A investigação busca entender se houve uso indevido dos dados dos beneficiários por terceiros, ou se a aposta partiu das próprias famílias em condição de desespero.

Frei David, da Educafro, é contundente: “É um dinheiro público que, por malandragem e falta de caráter desta quadrilha organizada, foi desviado de sua finalidade para enriquecer grupos exploradores, sob os olhares omissos de quem deveria proteger o povo pobre”. Em seu diagnóstico, trata-se de um sistema que se aproveita da vulnerabilidade e da esperança dos mais pobres para gerar lucros astronômicos a poucos.

A ilusão do ganho fácil

A armadilha das bets opera por meio de uma equação cruel: publicidade intensa, acesso facilitado via celular e a promessa de ganhos rápidos. É um modelo que, segundo o advogado constitucionalista Ilmar Muniz, precisa ser enfrentado como um problema estrutural. “Embora a decisão última de realizar apostas parta da pessoa, é difícil dissociar esse comportamento do contexto em que se insere. Fatores como a precariedade econômica, a ausência de políticas públicas eficazes, a baixa oferta de trabalho e a intensa publicidade das plataformas contribuem significativamente”, afirma.

Do ponto de vista da saúde pública, os efeitos já são tangíveis. O psiquiatra Leonardo Rodrigues da Cruz alerta para o risco de transtornos decorrentes do vício em jogos: “A facilidade de acesso, a falta de regulação e o ambiente de alta vulnerabilidade social são uma combinação perigosa. A regulamentação é urgente para conter o avanço desse problema”.

A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda informou à Agência Pública que estuda medidas técnicas e jurídicas para atender a uma determinação do STF, que exige ações concretas para impedir o uso de benefícios assistenciais em jogos de azar.

R$ 3 bilhões que fazem falta

O impacto da perda é mensurável. Com os R$ 3 bilhões gastos por beneficiários em apostas online, seria possível distribuir 3,3 milhões de cestas básicas, o suficiente para atender 92,5% das famílias cadastradas no Bolsa Família nas capitais brasileiras, segundo o Dieese. O mesmo valor permitiria construir 476 Unidades Básicas de Saúde (UBS) de porte V, as mais completas previstas pelo SUS, com capacidade para atender 500 mil pessoas por mês.

E os danos podem ser ainda maiores. Desde agosto de 2024, o mercado de apostas cresceu significativamente. Se a proporção de recursos oriundos do Bolsa Família — estimada em 14,4% — tiver se mantido, o gasto mensal em 2025 pode ter saltado para R$ 4,3 bilhões. O número, no entanto, ainda não foi confirmado oficialmente.

Entre a Justiça e a política

O caminho jurídico, contudo, será longo. A ação civil ainda aguarda despacho inicial. Mesmo que a Justiça determine o reembolso dos valores, não há prazo para a efetivação. Os autores pedem, além da devolução, a criação de um sistema automático que bloqueie cadastros de beneficiários em plataformas de aposta, sob pena de multa diária de R$ 500 mil e suspensão das atividades.

Esse movimento jurídico ocorre em um contexto mais amplo de crescente pressão política e social pela regulação do setor. A ausência de regulação efetiva, combinada à digitalização da pobreza, faz das plataformas de apostas uma nova forma de expropriação silenciosa.

Como adverte o filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman, “a pobreza não é uma falha moral, é uma consequência política”. Permitir que bilhões de reais destinados a garantir o básico para os mais pobres sejam absorvidos por sistemas predatórios não é apenas uma omissão — é uma escolha de sociedade.

O outro crack

É uma cena familiar nas telas brasileiras: entre um vídeo viral e outro, um influenciador sorridente promete ganhos fáceis com “apostas esportivas”. A mensagem, carregada de cores vibrantes e slogans sedutores, encerra com o aviso burocrático: “jogue com responsabilidade”. A ironia, no entanto, beira o cinismo. Como alertou o subprocurador-geral da República Luiz Augusto Santos Lima em audiência pública no STF, “já foi feito isso com o cigarro e outros produtos. Por que não aplicar por um princípio de precaução nesse ambiente?”

A comparação não é acidental — nem retórica. Assim como o cigarro e o álcool foram alvos de regulamentações rígidas por seu impacto na saúde pública, cresce a pressão para que o mesmo ocorra com as plataformas de apostas, conhecidas como bets. O avanço acelerado dessas empresas, impulsionado por uma publicidade onipresente e sedutora, vem sendo descrito por especialistas como um novo vetor de crise social, especialmente entre a população mais vulnerável.

Um vício legalizado

A relação entre a jogatina digital e o sofrimento mental já é amplamente documentada. O psiquiatra Leonardo Rodrigues da Cruz lembra que o acesso fácil às plataformas, somado à ausência de políticas públicas específicas, cria um ambiente fértil para a compulsão. “Estar num ambiente difícil, com mais vulnerabilidade, mais estressores sociais, também é um fator”, afirmou. E quando o jogo se torna compulsão, a diferença entre uma aposta e um vício se dilui — mas com a benção do Estado.

A comparação com o crack é, à primeira vista, chocante. Mas o paralelo reside no impacto devastador sobre a vida das pessoas. Um dependente químico precisa de acesso físico à droga, com todos os riscos envolvidos. Já uma aposta pode ser feita no celular, do sofá de casa, a qualquer hora. E o que se perde não é só dinheiro — é tempo, saúde mental e, muitas vezes, os próprios vínculos familiares.

Como lembrou Frei David, diretor da Educafro, ao comentar a perda de R$ 3 bilhões em recursos do Bolsa Família usados em bets: “Na ilusão de aumentar o dinheiro público que receberam para enfrentar seus problemas, [pessoas assistidas] jogam em bets, na ilusão de um ganho”. A ilusão, porém, não é gratuita — é induzida por uma indústria que investe pesadamente em marketing direcionado.

Um mercado bilionário com publicidade irrestrita

O mercado de apostas online movimenta atualmente R$ 30 bilhões por mês, segundo o Banco Central. Em um ano, serão R$ 360 bilhões — montante que ultrapassa o orçamento de muitos programas sociais. No entanto, diferentemente de outros setores sensíveis, como o farmacêutico ou o de bebidas alcoólicas, as bets desfrutam de uma liberdade publicitária quase absoluta.

Isso se reflete em patrocínios esportivos (inclusive em uniformes de clubes), transmissões ao vivo e, especialmente, na atuação de influenciadores digitais. Muitos deles falam diretamente a um público jovem, desinformado e economicamente vulnerável. A promessa? Transformar centavos em fortunas com poucos cliques. A realidade, porém, é um endividamento crescente e o colapso emocional de milhares de brasileiros.

A situação levou o Ministério da Fazenda a proibir anúncios de bets durante a Copa São Paulo de Futebol Júnior, alegando que eventos de base não podem ser objeto de apostas. Em outro movimento simbólico, a TV Educativa da Bahia recusou contratos publicitários de bets nas transmissões do Campeonato Baiano. São ações pontuais — ainda insuficientes diante da avalanche de conteúdo que circula diariamente nas mídias sociais e tradicionais.

Regulação, sim. Mas com urgência

O Congresso Nacional tem nas mãos a responsabilidade de aprovar ou barrar projetos que buscam restringir a publicidade de apostas em todas as plataformas — TV, rádio, redes sociais, portais de notícias e estádios esportivos. Até agora, a atuação legislativa tem sido lenta e, em muitos casos, capturada por interesses do próprio setor.

Há quem defenda que as bets ajudam a financiar o combalido jornalismo brasileiro. De fato, parte da publicidade que sustenta redações vem dessas empresas. Mas o paradoxo é evidente: matérias que denunciam o impacto das bets são pagas com dinheiro das bets. É como se o setor petrolífero patrocinasse campanhas de combate à poluição atmosférica.

Como lembra o historiador e filósofo Yuval Harari, “a ficção pode ser mais poderosa que a verdade, porque molda comportamentos antes mesmo que a razão tenha tempo de agir”. O marketing das apostas não apenas cria uma ficção de ascensão financeira rápida — ele condiciona a percepção de milhares de pessoas sobre o que é sucesso, mérito e solução para a pobreza.

O precedente do cigarro

Há duas décadas, o Brasil baniu anúncios de tabaco da TV, das camisas de futebol e das revistas. O cigarro não deixou de existir — mas o número de fumantes caiu drasticamente. Segundo o IBGE, a proporção de brasileiros que fumam caiu de 15,6% em 2006 para 9,1% em 2023. Nenhum abalo econômico foi registrado, e a saúde pública agradeceu.

Por que, então, as bets ainda ocupam tanto espaço nas telas brasileiras? Se o Estado reconhece os riscos — e o STF já determinou que medidas sejam adotadas para evitar o uso de recursos assistenciais em apostas — o próximo passo lógico é regulamentar, restringir e, onde necessário, proibir.

O alerta final é direto: o estrago está feito, mas pode ser mitigado. Cada dia sem regulação é mais um dia em que a esperança dos pobres é convertida em lucro para poucos. Apostar no atraso já não é mais uma metáfora — é uma política pública omissa.

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