01/03/2024 - Edição 525

Brasil

Maceió está em alerta máximo devido ao risco de afundamento de solo em mina da Braskem

Empresa abriu 35 minas e o chão afundou em cinco bairros. A grossa maioria dos moradores já foi removida. Algo como 60 mil pessoas foram prejudicadas

Publicado em 01/12/2023 12:45 - Luciano Nascimento (Agência Brasil), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação UFAL

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A Defesa Civil de Maceió (AL) informou que continua em alerta máximo devido ao risco iminente de colapso em uma mina de exploração de sal-gema da Braskem na região do antigo campo do CSA, no Mutange. Segundo nota divulgada no final da manhã desta sexta-feira (1), o deslocamento vertical acumulado da mina é de 1,42 metros e a velocidade vertical é de 2,6 centímetros por hora.

“Por precaução, a recomendação é clara: a população não deve transitar na área desocupada até uma nova atualização da Defesa Civil, enquanto medidas de controle e monitoramento são aplicadas para reduzir o perigo”, disse a Defesa Civil. “A equipe de análise da Defesa Civil ressalta que essas informações são baseadas em dados contínuos, incluindo análises sísmicas”.

A mina 18 é formada por cavernas abertas pela Braskem para extração de sal-gema e que estavam sendo fechadas desde que o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) confirmou que a atividade havia provocado o afundamento do solo na na região. O sal-gema é uma matéria-prima usada na indústria para obtenção de produtos como cloro, ácido clorídrico, soda cáustica e bicarbonato de sódio.

Situação de emergência

Ontem (30), a prefeitura de Maceió decretou situação de emergência por 180 dias por causa do iminente colapso da mina, que pode provocar o afundamento do solo em vários bairros. A área já está desocupada e a circulação de embarcações da população está restrita na região da Lagoa Mundaú, no bairro do Mutange, na capital.

Nove escolas foram estruturadas com carros-pipa, colchões, alimentação, equipes de saúde, equipes da Guarda Municipal e de assistência social para receber até 5 mil pessoas vindas das regiões afetadas.

Os ministros do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias, e dos Transportes, Renan Filho, também visitaram Maceió com uma equipe de técnicos para monitorar a situação.

Em uma rede social, Renan Filho disse que a empresa precisa ser responsabilizada pela situação. “Não é hora de atribuir responsabilidade a quem não deve. A Braskem precisa ser responsabilizada civil e criminalmente pelo crime ambiental cometido em Maceió, garantindo a reparação aos danos materiais e ambientais causados aos maceioenses”, disse.

Dias também se manifestou sobre a gravidade da situação. “O cenário é grave, estamos falando de abalos sísmicos, bairros afundando, consequências de um possível crime socioambiental. O MDS está atento para acompanhar de perto a situação e prestarmos a assistência necessária para ajudar no que for preciso”, escreveu.

Braskem

Em nota, a Braskem diz continua mobilizada e monitorando a situação da mina 18, tomando todas as medidas cabíveis para minimização do impacto de possíveis ocorrências e que a área está isolada desde terça-feira (28). A empresa ressalta ainda que a região está desabitada desde 2020;

“Referido monitoramento, com equipamentos de última geração, foi implementado para garantir a detecção de qualquer movimentação no solo da região e viabilizar o acompanhamento pelas autoridades e a adoção de medidas preventivas como as que estão sendo adotadas no presente momento”, disse a empresa.

Terror empresarial impõe a faixas de Maceió um aspecto de Gaza

Nas últimas 72 horas, armou-se em Maceió uma operação emergencial para remover os moradores de cerca de 14 mil imóveis. Coisa de 5 mil pessoas. Estão sendo precariamente abrigadas sob o teto de nove escolas. Mais de oito dezenas de pacientes foram removidos de um hospital. Deve-se o corre-corre a um crime ambiental cometido pela multinacional petroquímica Braskem.

Uma mina aberta pela empresa em área próxima à Lagoa de Mundaú para extrair sal-gema, matéria-prima do PVC, ameaça sucumbir, sugando um pedaço da cidade. A percepção de que o buraco poderia virar tragédia ganhou consistência técnica em 2019. Relatório do Serviço Geológico do Brasil constatou a instabilidade do solo, apontou sinais de desabamento da mina e alertou para o risco de colapso.

No total, a Braskem abriu no subsolo de Maceió 35 minas. O chão afundou em cinco bairros. A grossa maioria dos moradores já foi removida. Algo como 60 mil pessoas. Mas algumas pessoas resistiam em deixar suas casas. Muitas estão sendo removidos a contragosto, por força de decisão judicial.

Mal comparando, acontece nos bairros de Maceió situação parecida com a dos moradores arrancados pelos bombardeios do norte da Faixa de Gaza. A diferença é que a bomba alagoana vem do subsolo, não do alto. De resto, os túneis de Maceió foram abertos por um tipo diferente de terrorismo —o terror empresarial. Não se chega a um desastre dessa magnitude por acaso. A incúria empresarial criminosa foi facilitada pela inépcia estatal.


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