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Brasil
Mais de 20 mil jovens de 10 a 14 anos engravidam por ano no país
Publicado em 01/09/2025 12:37 - Semana On
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Entre 2014 e 2023, 28 de cada mil meninas entre 10 e 14 anos no município de Assis Brasil, no Acre, engravidaram. O dado, obtido a partir do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e do Censo 2022 do IBGE, revela o que o Brasil insiste em ignorar: a gravidez infantil é uma epidemia silenciosa, causada quase sempre por estupro de vulnerável e naturalizada como se fosse escolha. A maioria dos partos dessa faixa etária é tratada pela rede pública como “maternidade precoce”, quando, juridicamente, deveria ser registrada como consequência de violência sexual.
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De 2014 a 2023, o país registrou uma média anual de 20,4 mil nascimentos entre meninas de 10 a 14 anos — mais de 200 mil casos no total. Em 2023, foram quase 14 mil meninas que se tornaram mães. Desse número, apenas 154 procedimentos legais de aborto foram realizados, o que representa míseros 1,1% de acesso ao direito previsto em lei.
A legislação brasileira é clara: qualquer relação sexual com menores de 14 anos é estupro de vulnerável. Isso garante, por consequência, o direito à interrupção legal da gestação, independentemente de autorização judicial, familiar ou da vontade de profissionais de saúde. Mas na prática, esse direito é sistematicamente negado — por desinformação, omissão e, não raramente, por ideologia.
Negação institucional e silêncio como norma
A omissão não é pontual. É estrutural. O número de unidades hospitalares preparadas para realizar abortos legais em todo o território nacional não chega a 100. Profissionais de saúde, quando não se negam por “objeção de consciência”, omitem a informação à vítima. E o próprio sistema público contribui para a normalização da violência: meninas de 10 ou 11 anos, grávidas, são imediatamente encaminhadas ao pré-natal e recebem o acolhimento padrão destinado a gestantes adultas — com direito a ouvir a expressão “oi, mãezinha” enquanto carregam no corpo a prova de um crime.
“O aborto sequer é mencionado. As meninas sequer sabem que têm esse direito. A violência é invisibilizada, e o parto infantil é tratado como algo corriqueiro”, denuncia Laura Molinari, coordenadora da ONG Nem Presa Nem Morta, em entrevista à campanha Criança Não é Mãe.
Beatriz Galli, assessora sênior do Ipas Brasil, também alerta para a fragilidade das políticas públicas. “Há uma omissão grave do governo federal na condução da política de saúde sexual e reprodutiva”, afirmou à Revista AzMina, destacando que a recente resolução do Conanda — que garante prioridade ao acesso ao aborto legal para meninas e adolescentes — está sob ataque constante de setores conservadores, inclusive via projetos de lei que tentam derrubá-la.
A geografia da violência
Os dez municípios com as maiores taxas de fecundidade infantil estão concentrados no Norte e Centro-Oeste do país — incluindo estados como Mato Grosso, Acre, Roraima, Tocantins e Pará. Regiões onde o acesso à informação e aos serviços de saúde é ainda mais restrito, e onde a cultura patriarcal e o isolamento social agravam a vulnerabilidade das meninas.
Em maio de 2025, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) emitiu uma nota de preocupação com decisões recentes do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que, segundo o órgão, enfraquecem a proteção legal de brasileiras menores de 14 anos vítimas de violência sexual. A CIDH foi enfática: o Brasil deve garantir a responsabilização criminal dos agressores adultos e assegurar o pleno exercício dos direitos reprodutivos das vítimas.
Deficiência, abuso e invisibilidade
A tragédia é ainda mais profunda entre crianças e adolescentes com deficiência. Dados do Atlas da Violência apontam que, entre 2023 e 2024, quase 2.400 meninas com deficiência sofreram violência sexual — número provavelmente subnotificado. A vulnerabilidade é agravada por dependência de terceiros, isolamento social e descrença quanto à capacidade de relatar abusos.
Historicamente, esse grupo foi excluído do debate sobre sexualidade e direitos reprodutivos. Muitas vezes, sinais de abuso são ignorados ou confundidos com manifestações da própria deficiência. É necessário, segundo especialistas, capacitar famílias, cuidadores e profissionais para reconhecer formas diversas de comunicação e identificar sinais não verbais de violência.
Iniciativas como o projeto “Eu me Protejo” oferecem conteúdos acessíveis para ensinar, desde cedo, noções de limite, consentimento e como pedir ajuda. A inclusão de crianças com deficiência em escolas regulares também é apontada como fator essencial para romper o ciclo de violência.
Uma tragédia que mata
As consequências da gravidez infantil são devastadoras. Para além da interrupção educacional e do comprometimento emocional, há o risco real de morte. Segundo o Ministério da Saúde, o risco de mortalidade materna entre meninas de 10 a 14 anos é quase o dobro do registrado entre jovens adultas (50 mortes para cada 100 mil nascidos vivos, contra 26 entre mulheres de 20 a 24 anos).
Entre 2019 e 2023, 51 meninas morreram por complicações da gravidez, muitas delas por abortos clandestinos. A morte, nesse contexto, é o desfecho extremo de uma cadeia de falhas: violência sexual, omissão familiar, negligência institucional, silêncio social.
Responsabilidade coletiva
Desde 2017, todos os casos de gravidez infantil devem ser obrigatoriamente notificados como estupro presumido. A informação sobre o direito ao aborto legal deve ser imediata. No entanto, a notificação é falha, e a informação, negada. Em 70% dos casos, o agressor é alguém próximo da vítima, o que reforça o medo, a culpa e o silêncio.
Denunciar é o primeiro passo. Qualquer pessoa pode acionar o Conselho Tutelar, a polícia ou o Disque 100. Profissionais de saúde e educação têm o dever legal de notificar suspeitas.
“Proteger nossas meninas não é favor, é obrigação do Estado”, resume Laura Molinari. A negligência diante da gravidez infantil é um retrato da falência institucional — e a omissão diante disso é uma escolha política.
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