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Brasil

Flávio vive “inferno astral” com aliados investigados pela Federal

PF aponta atuação do governo Castro em favor da Refit e aprofunda crise política no centrão

Publicado em 15/05/2026 1:17 - Semana On

Divulgação Redes Sociais

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A pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) atravessa uma sequência de turbulências que, em pouco mais de uma semana, atingiu figuras centrais de sua articulação política e comprometeu parte da estratégia montada pelo partido para as eleições de 2026. Em um intervalo de oito dias, três episódios colocaram aliados diretos do senador no centro de investigações e suspeitas: a operação da Polícia Federal envolvendo o senador Ciro Nogueira (PP-PI), a divulgação de um áudio entre Flávio e o banqueiro Daniel Vorcaro e, mais recentemente, a ação de busca e apreensão contra o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL).

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Os três casos têm impacto direto sobre a construção política da candidatura. Ciro Nogueira era tratado nos bastidores como um dos nomes mais fortes para ocupar a vice-presidência em uma eventual chapa encabeçada por Flávio Bolsonaro. Já Cláudio Castro integra o núcleo político do senador no Rio de Janeiro e vinha sendo preparado para disputar uma vaga ao Senado no palanque estadual anunciado pelo PL no início do ano.

A ofensiva mais recente ocorreu por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, no âmbito de uma investigação sobre crime organizado ligado ao setor de combustíveis, derivada da chamada ADPF das Favelas. Castro tornou-se alvo de mandados de busca e apreensão e também deverá prestar esclarecimentos em outro inquérito em curso no STF, relacionado a operações financeiras envolvendo o Banco Master.

As suspeitas recaem sobre aplicações realizadas durante sua gestão no governo fluminense. O Rioprevidência, fundo previdenciário dos servidores estaduais, destinou cerca de R$ 970 milhões a letras financeiras do Banco Master. Quando considerados também investimentos de estatais estaduais, como a Cedae, o prejuízo potencial estimado para os cofres públicos se aproxima de R$ 1,5 bilhão.

Nos bastidores da campanha de Flávio Bolsonaro, o desgaste provocado pelo caso é tratado como um problema político de grandes proporções. Um integrante da equipe eleitoral descreveu Cláudio Castro como um nome “tóxico” não apenas para o presidenciável, mas também para Douglas Ruas, escolhido pelo PL para disputar o governo do Rio de Janeiro.

A preocupação do partido se concentra especialmente nos efeitos eleitorais do episódio. Dirigentes da legenda avaliam que adversários devem explorar o caso durante a campanha, sobretudo o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), principal concorrente de Ruas na disputa estadual. Integrantes da sigla admitem reservadamente que será necessário recalibrar o discurso eleitoral para conter os danos provocados pela associação entre o partido e os investigados.

O cenário tornou-se ainda mais delicado porque Castro já enfrentava fragilidade política antes da operação da PF. Em março, ele renunciou ao governo do Rio numa tentativa de evitar eventual cassação pelo Tribunal Superior Eleitoral. Apesar de ter sido declarado inelegível, pretendia recorrer da decisão e manter sua candidatura ao Senado.

Mesmo diante da crise, o PL ainda preservava espaço para o ex-governador em sua composição eleitoral. Na véspera da operação, Castro participou de um evento partidário, discursou e pediu votos. Após a ação da PF, porém, dirigentes da legenda passaram a considerar inviável sua permanência na disputa.

Com a deterioração do cenário, o partido iniciou discussões sobre uma possível reformulação do palanque fluminense. Entre as alternativas analisadas está a substituição do candidato a vice de Douglas Ruas, atualmente o ex-prefeito Rogério Lisboa, ligado ao Progressistas. A ideia seria transferir a vaga ao Republicanos, legenda que passou a ser cortejada pelo PL. O nome mais citado internamente é o da deputada Rosângela Gomes.

Apesar das articulações, aliados de Cláudio Castro defendem aguardar uma manifestação do próprio ex-governador sobre o futuro de sua candidatura antes de qualquer reconfiguração oficial da chapa.

A sucessão de episódios envolvendo aliados de Flávio Bolsonaro ampliou o desgaste político da pré-campanha e alimentou críticas da oposição. Nos últimos dias, investigações e vazamentos colocaram em xeque o discurso de estabilidade e moralidade pública defendido por integrantes do campo bolsonarista.

A primeira crise teve como foco o senador Ciro Nogueira, atingido por investigações que expuseram sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro. Em seguida, a divulgação de um áudio envolvendo Flávio Bolsonaro trouxe novos constrangimentos ao núcleo político do senador. Na gravação, ele cobraria recursos milionários de Vorcaro para viabilizar a produção de uma cinebiografia de Jair Bolsonaro.

O caso ganhou dimensão ainda maior após a revelação de movimentações financeiras que envolveriam R$ 61 milhões transferidos por Vorcaro para um fundo sediado no Texas e administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro.

Já a operação contra Cláudio Castro adicionou um componente simbólico à crise. Durante sua passagem pelo governo fluminense, o então governador atacava publicamente a ADPF das Favelas, classificando-a como “maldita”. Agora, é justamente uma investigação derivada dessa ação que atinge seu entorno político e financeiro.

As apurações também avançam sobre o empresário Ricardo Magro, ligado à Refit, empresa investigada por suspeitas de sonegação fiscal no setor de combustíveis. Segundo as investigações, o esquema movimentaria recursos entre o Rio de Janeiro e Miami, onde integrantes do grupo desfrutariam de patrimônio e estruturas de luxo atribuídas aos ganhos obtidos com as irregularidades sob investigação.

No entorno de Flávio Bolsonaro, a avaliação é de que a sequência de crises alterou significativamente a narrativa política que o grupo pretendia consolidar para 2026. O discurso voltado à ordem, estabilidade e ética passou a conviver com denúncias, operações policiais, suspeitas financeiras e rearranjos emergenciais de alianças.

Enquanto o PL tenta reorganizar sua estratégia no Rio de Janeiro e conter os efeitos políticos das investigações, dirigentes do partido reconhecem reservadamente que a sucessão de episódios abriu uma frente de desgaste difícil de controlar em pleno início da corrida presidencial.

PF aponta atuação do governo Castro em favor da Refit e aprofunda crise política no Rio

A investigação da Polícia Federal sobre o empresário Ricardo Magro avançou para um novo patamar ao atribuir diretamente ao ex-governador Cláudio Castro (PL) responsabilidade pela criação de condições institucionais favoráveis aos interesses da Refit, conglomerado do setor de combustíveis controlado pelo empresário. Em documento encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, os investigadores afirmam que a gestão estadual atuou de maneira coordenada para beneficiar a empresa mesmo após operações de fiscalização que identificaram suspeitas de irregularidades.

Segundo a representação apresentada ao STF, a conduta do então governador foi marcada por “leniência” diante das atividades atribuídas ao grupo empresarial. Para a PF, decisões políticas e administrativas adotadas durante sua gestão acabaram contribuindo para a continuidade das operações investigadas e favoreceram a expansão das atividades classificadas pelos investigadores como ilícitas.

No centro da apuração está a Lei Complementar 225/2025, elaborada sob autoria de Cláudio Castro. A norma instituiu um programa de renegociação e parcelamento de dívidas tributárias com o Estado do Rio de Janeiro. De acordo com a Polícia Federal, os critérios estabelecidos pela legislação se ajustavam de forma precisa às necessidades financeiras da Refit.

A lei foi publicada poucas semanas após uma ofensiva de órgãos de fiscalização contra o conglomerado. Em setembro de 2025, ações conduzidas pela Agência Nacional do Petróleo e pela Receita Federal, no âmbito da Operação Cadeia de Carbono, resultaram na interdição de uma planta da empresa e na retenção de combustíveis. As medidas atingiram diretamente a capacidade operacional do grupo empresarial.

Os investigadores sustentam que, mesmo diante desse cenário, setores do governo fluminense passaram a atuar para minimizar os impactos sofridos pela companhia. A PF cita especificamente a atuação da Procuradoria-Geral do Estado do Rio de Janeiro, que teria produzido manifestações jurídicas favoráveis à Refit.

Entre os elementos reunidos pela investigação aparece um parecer elaborado pelo então procurador-geral do estado, Renan Miguel Saad — também alvo da operação deflagrada pela PF. Segundo os investigadores, o documento foi produzido a pedido de Cláudio Castro e defendia que a paralisação das atividades da Refit poderia comprometer a arrecadação estadual em um momento de recuperação fiscal do Rio de Janeiro.

Na avaliação da Polícia Federal, o episódio demonstra um alinhamento entre setores estratégicos do governo e os interesses do conglomerado empresarial. A representação enviada ao Supremo afirma que a máquina pública estadual teria sido mobilizada em múltiplas frentes para atender demandas ligadas ao grupo controlado por Ricardo Magro.

Os investigadores descrevem o caso como exemplo da conexão entre estruturas do poder público e organizações econômicas investigadas por práticas criminosas. O documento aponta que as medidas adotadas pelo governo estadual ajudaram a criar um ambiente favorável para a continuidade das operações da empresa, apesar das suspeitas levantadas pelas autoridades federais.

A defesa de Cláudio Castro reagiu às acusações afirmando que sua gestão foi a única capaz de obter pagamento de débitos do Grupo Refit junto ao estado. Em nota, o ex-governador sustentou que todas as decisões relacionadas à empresa obedeceram critérios técnicos e legais.

A nova frente da investigação aprofunda o desgaste político do entorno de Cláudio Castro e amplia a pressão sobre aliados que ainda tentavam preservar sua influência eleitoral no Rio de Janeiro. O avanço das apurações reforça a percepção, dentro e fora do PL, de que a crise envolvendo o ex-governador deixou de ser apenas um problema jurídico individual para se transformar em um fator de contaminação política mais amplo, com potencial de atingir alianças, candidaturas e a reorganização do campo bolsonarista no estado.

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