22/05/2024 - Edição 540

Brasil

Extrema direita se mostra mais preocupada com a disputa política que com a solidariedade aos gaúchos

O passo-a-passo da inoperância no RS, segundo um dos responsáveis por alertar as autoridades

Publicado em 13/05/2024 11:01 - ICL Notícias, João Filho e Cleber Lourenço (Intercept_Brasil), Jamil Chade (UOL) – Edição Semana On

Divulgação

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Diante da catástrofe climática que há muitos dias arrasa cidades inteiras no Rio Grande do Sul e impõe sofrimento aos gaúchos, o Brasil se uniu para ajudar.

Enquanto as autoridades federais e estaduais trabalham em conjunto para resgatar vítimas das enchentes, salvar vidas e garantir recursos para o socorro, de todos os estados são enviadas doações de alimentos e itens de urgência para os desabrigados.

Essa corrente de solidariedade só não é maior porque políticos e outros personagens de extrema direita têm se dedicado com afinco a atrapalhar os esforços de doação e resgate.

Em escala industrial, figuras como o empresário Pablo Marçal, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o senador Cleitinho (PL-MG) espalham fake news de vários tipos, de cobrança de impostos dos veículos que transportam alimentos para os desabrigados até proibição de circulação das embarcações de salvamento. Tudo falso.

Dessa vez, a enxurrada de mentiras tem o objetivo de reverter a boa avaliação que a população teve da reação do governo federal à catástrofe. Nas primeiras pesquisas de opinião, o trabalho da equipe do presidente Lula foi elogiada pela maioria dos entrevistados.

Mais preocupados com a disputa política que com a solidariedade aos gaúchos, os bolsonaristas voltaram a recorrer a sua milícia digital para disseminar desinformação.

O primeiro ataque de peso foi feito por Pablo Marçal, que divulgou em suas redes um vídeo em que um conhecido militante da extrema direita dizia que caminhões com doações foram barrados nas estradas porque o material não tinha nota fiscal.

A mesma mentira foi disparada por Eduardo Bolsonaro, Cleitinho e até pelo governador bolsonarista Jorginho Mello, atingindo milhões de pessoas e gerando revolta.

Apesar dos desmentidos oficiais, na quarta-feira (8) deputados do grupo do ex-presidente Jair Bolsonaro foram à tribuna da Câmara para fazer discursos que deram eco às informações falsas.

Isso obrigou autoridades federais e estaduais a interromperem os esforços que estavam concentrados em salvar vidas para rebater informações falsas, que circulam com grande intensidade.

Uma pesquisa Quaest revelou a magnitude dos prejuízos causados por essa máquina de fake news: um terço dos entrevistados recebeu alguma notícia falsa sobre a tragédia no Rio Grande do Sul, principalmente por grupos de WhatsApp.

“É até difícil entender porque alguém faz uma coisa dessas”, desabafou o ministro Paulo Pimenta, em entrevista ao Jornal Nacional.

Pimenta afirmou que os conteúdos falsos têm consequências de vários tipos, desde fazer com que pessoas fiquem com medo de sair das casas a desestimular doações.

Por solicitação dele, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, pediu à Polícia Federal uma investigação contra a divulgação de mentiras sobre as enchentes no Rio Grande do Sul.

No ofício, Pimenta cita preocupação com o “impacto dessas narrativas na credibilidade das instituições como o Exército, FAB, PRF e Ministérios, que são cruciais na resposta a emergências.”

O ministro afirma no pedido a Lewandowski que “a propagação de falsidades pode diminuir a confiança da população nas capacidades de resposta do Estado, prejudicando os esforços de evacuação e resgate em momentos críticos. É fundamental que ações sejam tomadas para proteger a integridade e a eficácia das nossas instituições frente a tais crises”.

É preciso agir com rigor contra os propagadores de mentiras. A prioridade continua sendo o socorro aos gaúchos, mas nessa tragédia os divulgadores de mentiras mostraram mais uma vez o quanto podem ser nocivos para a vida nacional e o quanto lhes falta escrúpulos.

Agora, toda força deve ser concentrada no combate aos efeitos da enchente. Mas quando as águas baixarem, o combate às fake news deve voltar à ordem do dia — especialmente em um ano eleitoral.

Pelo bem do Brasil, seus autores e divulgadores mais graduados precisam ser punidos exemplarmente.

Oportunismo de influencers e bolsonaristas nas redes não poupa nem a catástrofe no RS

As mentiras que matam voltaram a assombrar o país. O negacionismo assassino que voou nas asas das mamadeiras de piroca do bolsonarismo durante a pandemia voltou com ainda mais força durante a tragédia do Rio Grande do Sul.

Recordemos o falecido Olavo de Carvalho, o guru da ignorância, afirmando que a tese do aquecimento global é a ‘mãe de todas as fraudes‘. Este gênio da raça é o mesmo que passou os últimos dias da vida negando a letalidade do COVID e acabou morrendo com… COVID.

Guiados pelo obscurantismo olavista, políticos bolsonaristas que passaram os últimos anos negando o aquecimento global tentam agora criar novas narrativas para explicar a tragédia causada por ele.

Uma quantidade industrial de fake news negacionistas passou a circular pelas redes sociais assim que começaram as enchentes. Todas as mentiras criadas seguem o mesmo padrão narrativo: atacam o poder público e exaltam o heroísmo de celebridades e empresários.

Vejamos algumas das mentiras que mais circularam na internet:

Caminhões de doações foram barrados por falta de nota fiscal

Caminhões com doação de água foram retidos na fronteira do Rio Grande do Sul

Resgates por barcos e helicópteros de voluntários foram proibidos

Lula proibiu distribuição de donativos em Lajeado até sua chegada na cidade

Neymar alugou e doou 10 helicópteros para resgates no RS

Madonna fez doação secreta de R$ 10 milhões para vítimas.

O conjunto dessas mentiras conta uma história: o poder público não está fazendo nada e ainda está impedindo as pessoas de ajudar, mas graças a Deus temos os ricos salvadores agindo. Até a Madonna, que há poucos dias atrás era tratada pelos bolsonaristas como uma satanista, foi imediatamente beatificada pela turma.

Essas fake news são organizadas para construir a ideia de que o heroísmo individual é mais efetivo que o trabalho coletivo representado pelo poder público.

Tudo isso faz parte de um projeto de manchar a imagem da política e da democracia e supervalorizar a ação de indivíduos — que invariavelmente são ricos alinhados à ideologia bolsonarista.

Após a divulgação dessas mentiras, celebridades do alto e do baixo escalão passaram a repercutir em massa a informação de que os governos, especialmente o federal, não estão fazendo nada. Nada pode ser mais falso.

É inegável que as forças estatais de todas as esferas (municipais, estaduais e federais) têm atuado ativamente para salvar vidas. Não há qualquer comparação possível entre a atuação dos governos e a de um punhado de celebridades ricas se mobilizando para ajudar.

Enquanto os bolsonaristas espalhavam que a polícia rodoviária federal estava dificultando a entrada de caminhões com doações no Rio Grande do Sul, o governo federal ofereceu R$ 50 bilhões em crédito para empresas gaúchas, antecipou a restituição do IR aos gaúchos, prometeu aliviar a dívida do estado com a União, liberou o seguro desemprego para 140 mil desempregados e antecipará o pagamento do bolsa família e do auxílio gás.

Não fez mais do que a obrigação, sem dúvidas, mas vivemos em tempos em que ações do Estado precisam ser exaltadas para confrontar a canalhice bolsonarista.

Obviamente, há críticas a serem feitas a todas instâncias de governos, principalmente o estadual e os municipais, que são os principais responsáveis pelos planos de prevenção de uma tragédia anunciada no estado.

Antes das chuvas, o governador Eduardo Leite fez pouco ou quase nada, mesmo tendo sido alertado pelos institutos de meteorologia. Sebastião Melo, o prefeito bolsonarista de Porto Alegre, não destinou um real sequer para a prevenção de enchentes anunciadas.

A bancada bolsonarista no Congresso também atua ferozmente para boicotar toda ação em defesa do meio ambiente. Mesmo com todos esses problemas, o poder público é o único ente que está estruturado para fazer o socorro da população e atuar na reconstrução das cidades destruídas.

A ajuda da iniciativa privada é importante, mas ao contrário do que contam as mamadeiras de piroca do bolsonarismo, é quase nada perto do que tem feito o Estado.

Quem está na linha de frente do atendimento às vítimas é o corpo de bombeiros, as forças armadas e as defesas civis. As celebridades que estão resgatando pessoas com jet ski merecem todos os aplausos, mas são os servidores públicos que estão fazendo os resgates em massa.

Pablo Marçal e Luciano Hang, duas celebridades do bolsonarismo, se destacaram nas redes criticando uma fictícia inação dos governos enquanto supervalorizavam suas ações solidárias. O bolsonarismo os alçou à condição de heróis nacionais.

Lembremos que Marçal já foi condenado por furtar bancos enquanto, segundo a receita federal, Hang sonegou R$25 milhões e é suspeito de lavagem de dinheiro, agiotagem e contrabando, segundo a Abin — eis as credenciais morais dos heróis do bolsonarismo.

É esse o tipo de picareta que está sendo valorizado enquanto o poder público é
atacado de todas as formas. Marçal espalhou uma série de mentiras durante a tragédia e afirmou categoricamente que os militares não estão fazendo nada.

A verdade é que as forças armadas mobilizaram cerca de 17 mil homens que já efetuaram 52 mil resgates aéreos, terrestres ou fluviais. Luciano Hang, um ferrenho negacionista do aquecimento global que causou a tragédia no Sul, declarou durante o governo Bolsonaro que ‘(a defesa do) meio ambiente é um câncer do país’.

Circulou a notícia mentirosa de que Hang teria mais aviões atuando no socorro às vítimas do
que a força aérea brasileira. O empresário não desmentiu.

A tragédia no Rio Grande do Sul é sem precedentes e o grosso dos gastos no socorro às vítimas e na reconstrução das cidades será feito com dinheiro público.

Populações de cidades inteiras terão que ser deslocadas para outras regiões, haja vista que os eventos climáticos inevitavelmente irão se repetir. Só o poder público terá dinheiro e estrutura para operar esse deslocamento em massa.

Ações individuais de ricos negacionistas não darão conta do problema. Quando a água baixar e o assunto esfriar no noticiário, os empresários negacionistas voltarão para os seus negócios e as celebridades endinheiradas voltarão a fazer publicidade de casas de apostas no Instagram.

A solidariedade performática tem prazo de validade, já a ação do poder público deve ser permanente.

Bolsonaro está fora do poder e inelegível, mas o seu projeto de destruição da democracia segue vivo entre bolsonaristas (com ou sem mandato) e empresários obscuros.

As mentiras são meticulosamente criadas para desacreditar a política e impulsionadas por integrantes de uma elite escrota, mesquinha, sonegadora, que enxerga o Estado como o grande vilão para os seus negócios.

Parte da direita que se diz não-bolsonarista e da imprensa corporativa tem caído no discurso fácil de ataque à coisa pública. SBT e Folha de São Paulo, por exemplo, divulgaram algumas fake news que visavam descredibilizar as ações do governo durante a tragédia.

As grandes tragédias mobilizam as pessoas, e o bolsonarismo sabe como canalizar a comoção popular em favor dos seus propósitos. Essa é a especialidade deles. Não é difícil criar esse ambiente quando não se tem o menor pudor em disseminar mentiras.

A criação dessas narrativas serve também a outro propósito: manter seus seguidores dentro da seita, teleguiados, unidos e mobilizados para as próximas eleições.

O que aconteceu no Rio Grande do Sul continuará acontecendo em outros lugares do mundo.

As catástrofes climáticas resultantes do aquecimento global são inevitáveis e todos os países do mundo terão que lidar com o negacionismo que a extrema direita usa para servir à sua ideologia antidemocrática.

Até quando as democracias aguentarão a destruição causada pelas fake news? É fundamental que os democratas continuemos a lutar para que esse tipo de mentira seja penalizada de alguma forma. É uma tarefa árdua mas inadiável.

As big techs que faturam com as mentiras que matam precisam ser reguladas e responsabilizadas pela circulação desse tipo de conteúdo. Trata-se de uma questão de sobrevivência das democracias.

O passo-a-passo da inoperância no RS, segundo um dos responsáveis por alertar as autoridades

A Defesa Civil do Rio Grande do Sul começou a receber alertas sobre a potencial gravidade das tempestades em 25 de abril, mas só começou a pedir que moradores de áreas de risco deixassem suas casas cinco dias depois – quando 77 cidades já haviam sido atingidas.

Foram quatro alertas emitidos às coordenadorias regionais da Defesa Civil, órgãos chefiados por militares, em uma escala crescente de gravidade – e, em todos os casos, as autoridades demoraram dias para agir. Um servidor da Sala de Situação do Rio Grande do Sul, órgão responsável por monitorar eventos críticos, afirmou ao Intercept Brasil que as autoridades estaduais foram avisadas desde 28 de abril que o estado poderia viver uma catástrofe sem precedentes.

“É desesperador o despreparo do estado para lidar com essa questão de eventos meteorológicos e hidrológicos extremos”, disse Fábio, um dos membros da Sala de Situação, órgão da Secretaria do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul ligado à Agência Nacional de Águas responsável por modelagens climáticas. Ele narrou a cronologia da negligência vista por dentro.

Até a manhã de sexta-feira, 10 de maio, mais de 100 pessoas morreram e outras 146 seguem desaparecidas em decorrência das enchentes. Já são 69.617 pessoas em abrigos e 337.116 desalojadas.

O Intercept teve acesso a detalhes de como foram os dias antes da tragédia que fez com que milhares de pessoas ficassem vulneráveis. Segundo Fábio, os vários alertas da Sala de Situação não receberam a devida diligência do governo do estado.

Segundo o servidor, todos os avisos de eventos meteorológicos são acompanhados de uma reunião online com os coordenadores da Defesa Civil, divididos em nove regiões. Cabe aos técnicos, meteorologistas e hidrólogos, apresentar as projeções – e os coordenadores da Defesa Civil decidem o que fazer.

Esses coordenadores são todos militares, sendo cinco coronéis e tenente-coronéis, além de tenentes e majores. Eles são os responsáveis por tomar a decisão de enviar alertas por SMS e avisar prefeituras e defesas civis municipais para fazer evacuação, por exemplo.

“Nessas reuniões a gente [servidores da sala de situação não ligados à Defesa Civil do estado] acaba indicando o que fazer, porque vemos a inoperância”, disse Fábio. “Alguns coordenadores são bons, mas muitos são fracos e preguiçosos. Não fazem nada”, critica. Fábio ainda completou: “repito, não deveria ser assim, mas somos nós, como sala de situação, que fazemos as indicações. Acaba sendo ruim. Como técnicos, acabamos tomando a decisão por outras pessoas”.

Segundo ele, as chuvas que devastaram o estado ocorreram de uma forma um pouco diferente do que as previsões indicavam: inicialmente deveriam começar no Sul e depois se deslocar pro Centro e Norte do estado. Porém, começaram no Centro e Norte antes do previsto e com maior intensidade.

Segundo Fábio, a Sala de Situação estava desde o final de semana anterior ao desastre, nos dias 27 e 28 de abril, alertando “para que todos os órgãos se preparassem para um evento no nível do eventos de novembro do ano passado”.

No último dia 30, terça-feira, o alerta foi atualizado para um evento com magnitudes superiores a qualquer coisa já registrada no estado – e foi o que ocorreu. “O pior é que se tivesse sido parecido com o evento de novembro (ou seja, uma catástrofe bem menor) eles [o governo estadual] também não estariam preparados”, diz Fábio.

Cinco dias entre alerta e o primeiro pedido de evacuação

No dia 25 de abril, a equipe da Sala de Situação avisou pela primeira vez sobre riscos de enchentes. O “Aviso Hidrometeorológico – 254” já detalhava quais eram os locais de inundação e reforçava o risco. Naquele dia, a previsão era de maior gravidade no sul do estado, com alerta em outras localidades.

O cenário piorou rapidamente. No sábado, 27, o Instituto Nacional de Meteorologia alertava para tempestades. No dia 28, domingo, a Sala de Situação enviou um novo aviso. O documento mostra uma progressão rápida da situação, colocando quase metade do estado sob risco de inundação.

“Ao final deste aviso, os acumulados poderão variar entre 80 e 100 mm sobre grande parte do Rio Grande do Sul, podendo passar pontualmente dos 120 mm no Sul, Campanha e Costa Doce. Além disso, há risco de eventual queda de granizo e rajadas fortes de vento sobre parte do estado”.

Em uma reunião no dia 28 de abril, afirma Fábio, os especialistas da Sala de Situação teriam alertado os coordenadores da Defesa Civil para que ficassem preparados para uma situação no mesmo nível da que ocorreu em novembro do ano passado.

O aviso ainda considerava as chuvas vindo pelo Sul, mas já deixava as outras regiões do estado em alerta. No dia 29, a Defesa Civil do estado emitiu alertas de inundações no Rio Quaraí e Rio Santa Maria, além de um alerta sobre áreas de risco hidrológico. Foi registrada a primeira inundação grave no Rio Taquari.

Naquela noite, o governador Eduardo Leite, do PSDB, postou um vídeo alertando para as chuvas, mas em tom tranquilo.

Até então, o aviso era de “alerta”, replicado pelas prefeituras. No dia 30, a prefeitura de Eldorado Sul divulgou um aviso que previa “potencial chance de alagamentos”, e São Leopoldo anunciou um plano de emergência. Os moradores de Lajeado também receberam um aviso por SMS naquele dia. Na cidade, o rio Taquari já subia a 50 centímetros por hora.

Foi só na tarde daquele dia 30 que o governo do estado, por meio da Defesa Civil, emitiu um comunicado alertando que as pessoas deveriam ser retiradas de locais com risco de inundação.

Naquele dia, a Sala de Situação já havia enviado a terceira atualização do aviso 254. A situação havia ficado mais grave rapidamente: o centro do estado já estava com “alerta severo”. Àquela altura, oito pessoas já haviam morrido.

“É indicada a condição de inundação em praticamente todo o estado, ressaltando as elevações rápidas e extravasamento de pequenos rios e arroios”, diz o aviso, que também previa “inundação severa”.

Muçum, no Vale do Taquari, foi uma das poucas cidades que fez um alerta de evacuação naquele mesmo dia. O prefeito Mateus Giovanoni Trojan, do MDB, foi às redes sociais avisar que havia começado os trabalhos de remoção das pessoas localizadas em áreas de risco da cidade.

“Fomos repassando as informações conforme recebíamos as atualizações, e executamos o plano de evacuação e a estruturação do plano de contingência gradativamente na cidade”, disse Trojan ao Intercept. Muçum foi uma das mais afetadas pelas chuvas de setembro de 2023, quando 20 pessoas morreram. Neste ano, não houve nenhuma morte, embora a cidade tenha ficado destruída.

Na quarta-feira, 1 de maio, às 15h, a cidade de Eldorado do Sul comunicou à população seu primeiro alerta de “inundação gradual” – embora o aviso tivesse sido dado pela Sala de Situação no dia anterior. Às 20h daquele dia o município declarou situação de emergência. Mais tarde, a cidade precisou ser praticamente toda evacuada.

Foi só na noite de 1 de maio que o governador Eduardo Leite foi às redes sociais alertar para que a região fosse evacuada.

Foi na madrugada do dia 2 que a Defesa Civil passou a usar a palavra “extrema” para definir as enchentes e tempestades. Naquele dia, veio a terceira atualização da Sala de Situação. A partir daqui, já era claro que seria um evento maior do que a enchente de 2024, como haviam avisado os técnicos.

“Permanece o alto risco de transtornos por conta das chuvas intensas e persistentes, com INUNDAÇÃO EXTREMA em grande parte do estado, com os rios atingindo níveis históricos e com tendência de continuar em elevação, com risco muito alto a toda população”.

Naquele momento, o estado já registrava 32 mortes. Neste intervalo de tempo, já havia chovido três vezes a média para aquele período. O Rio Taquari ultrapassava 30 metros de altura, atingindo o maior nível da história. O Rio Grande do Sul  já se encontrava em estado de calamidade pública.

A água ainda não havia chegado à região metropolitana, mas o alerta já avisava que isso aconteceria. No dia 3, a Defesa Civil pediu evacuação de parte do centro histórico. No mesmo dia, hidrólogos pediram que a prefeitura de Porto Alegre preparasse evacuação mais ampla, mas isso não aconteceu. Nos dias seguintes, bairro precisaram ser evacuados às pressas.

Um novo aviso, de número 255, foi elaborado nesta última quinta, 9. Como de praxe, foi acompanhado por uma reunião com os membros da Defesa Civil. A previsão é de uma nova leva de chuvas intensas no estado. Resta saber se dessa vez os alertas e avisos à população serão dados com a devida brevidade e clareza.

Em nota, a Defesa Civil e a Sala de Situação reforçaram “a seriedade com que as informações repassadas pelo corpo técnico são tratadas e a absoluta sinergia entre as duas estruturas de prevenção”. Segundo o órgão, desde 2020 os dois grupos trabalham no mesmo local, no centro de Porto Alegre, para “ampliar a integração”.

Segundo o órgão, imediatamente após a emissão do Aviso 254, o alerta foi enviado às defesas civis regionais e municipais, “que têm a atribuição de adotar ações para a retirada de pessoas de áreas de risco”. A Defesa Civil ainda disse que no dia 25 os alertas já orientavam a população a procurar informações sobre áreas de risco e, no dia 27, “foi orientado à população de áreas de risco deixar esses locais”.

Reconstrução no RS levará ‘pelo menos um ano’, alerta Cruz Vermelha

A Federação Internacional da Cruz Vermelha (FICV) alerta que a reconstrução das áreas afetadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul vai levar pelo menos um ano. A entidade lançou nesta segunda-feira um apelo internacional para implementar um plano de emergência e atender às vítimas.

A instituição pede 8 milhões de francos suíços (R$ 45 milhões) para “ampliar a assistência humanitária às comunidades afetadas pelas enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul”.

“Essa inundação sem precedentes afetou dois milhões de pessoas em áreas rurais e urbanas, e o número de desabrigados ultrapassou 620.000, com mais de 81.000 pessoas alojadas em escolas, ginásios e outros abrigos temporários”, afirmou.

“Esses números podem aumentar, pois os danos ainda estão sendo avaliados em algumas áreas remotas ou isoladas, e o estado está novamente em alerta com o risco de as águas subirem a níveis recordes na capital, Porto Alegre”. disse.

Por meio desse apelo emergencial, a Federação Internacional da Cruz Vermelha apoiará, pelos próximos 12 meses, 25.000 pessoas que perderam suas casas e precisam urgentemente de assistência, especialmente famílias monoparentais com crianças menores de cinco anos, idosos e pessoas com deficiência.

“Desde o início das chuvas, as equipes da Cruz Vermelha Brasileira (CVB) têm trabalhado ininterruptamente para manter as pessoas seguras. Os voluntários da Cruz Vermelha têm prestado primeiros socorros, assistência médica e apoio psicológico à população afetada. Nos abrigos, eles estão realizando iniciativas de promoção de higiene e ajudando as pessoas a entrar em contato com seus entes queridos”, diz o comunicado emitido em Genebra.

A entidade ainda ativou centros de coleta e enviou toneladas de suprimentos de socorro para as áreas afetadas. “Os voluntários ajudarão a distribuir os suprimentos e trabalharão com as autoridades locais para avaliar as necessidades e os danos em 160 comunidades. Com o apoio da IFRC, eles ampliarão sua resposta, concentrando-se na saúde por meio da promoção da saúde e da higiene, do apoio psicossocial e do acesso à água potável”, explicou.

Somente em Porto Alegre, mais de 80% dos moradores não têm água encanada. Cinco das seis instalações de tratamento de água da cidade não estão funcionando, e as autoridades locais decretaram que a água deve ser usada exclusivamente para consumo essencial.

“No prazo imediato, vamos nos concentrar em cuidar da saúde física e mental das pessoas mais vulneráveis, garantindo que elas tenham acesso à água – incluindo informações e meios para realizar a desinfecção doméstica da água – e distribuindo artigos de limpeza e higiene, cobertores, lâmpadas solares e conselhos sobre prevenção de doenças”, disse Daniel Bolanos, chefe da delegação da FICV no Cone Sul.

À medida que a resposta inicial avança, os especialistas em resposta a desastres da FICV que já estão na área afetada estão preparando o terreno para ampliar a resposta. “A recuperação das enchentes levará pelo menos um ano, e a Cruz Vermelha está pronta para coordenar com as próprias comunidades afetadas o que precisa ser priorizado e como lidar com isso ao longo do tempo”, completou Bolanos.


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