15/06/2024 - Edição 540

Brasil

Eduardo Bolsonaro e Pablo Marçal lideram propagação de desinformação: extrema direita espalha fake news até contra os militares

Tragédia histórica expõe o quanto governo Leite ignorou alertas e atropelou política ambiental

Publicado em 17/05/2024 10:58 - ICL Notícias, Orlando Calheiros (Intercept_Brasil), Luciano Valled (Sul21), Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Foto: Mauricio Tonetto / Secom

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Estudo do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (Netlab), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aponta que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o influenciador digital Pablo Marçal estão entre os principais propagadores de desinformação sobre a tragédia do Rio Grande do Sul. A análise foi feita entre os dias 27 de abril e 10 de maio.

Segundo o Netlab, o deputado federal Eduardo Bolsonaro usou as redes sociais para “denunciar” uma suposta demora do presidente Lula em aprovar o envio da Força Nacional ao Rio Grande do Sul.

Eduardo Bolsonaro também criticou a decisão de Lula de ir primeiro à cidade de Santa Maria e não a Porto Alegre logo no início da tragédia.

Segundo o parlamentar, a escolha do presidente teria sido influenciada pelo secretário de comunicação Paulo Pimenta, que é de Santa Maria — o município, no entanto, era o mais afetado do estado no dia da visita de Lula, em 2 de maio.

O Netlab também apontou que Netlab, Pablo Marçal usou as redes sociais para disseminar a informação falsa de que a Polícia Rodoviária Federal estava impedindo que caminhões com doações chegassem às vítimas das chuvas e enchentes.

O influenciador também acusou a TV Globo de receber dinheiro para esconder a realidade da tragédia gaúcha e manipular a opinião pública.

O estudo também elenca o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), a influenciadora digital cristã Michele Dias Abreu, o empreeendedor e influenciador Leandro Ruschel, e o médico influenciador Victor Sorretino como os principais disseminadores de fake news.

Narrativas

O Netlab também aponta as principais informações falsas disseminadas na internet. Entre as desinformações mais compartilhadas, estavam “Lula não está comprometido com as vítimas das enchentes”, “Marina insiste em culpar Bolsonaro por tragédia”, “Starlink é a única internet que está ajudando nos resgates”, “Show da Madonna recebeu recursos que deveriam ir pro RS”.

De acordo com o Netlab, também foram identificadas notícias falsas como “Governo está impedindo que doações cheguem às vítimas”, “As chuvas são um castigo de Deus”, “A tragédia foi planejada por globalistas” e “Figuras de direita estão ajudando mais que o governo”.

Anúncios enganosos

O Netlab identificou também 381 anúncios enganosos e 51 anúncios com desinformação sobre as enchentes no Rio Grande do Sul nas plataformas da Meta. Também foram identificados anúncios fraudulentos que promoviam produtos ou informações enganosas com a intenção de gerar lucro.

Extrema direita espalha fake news até contra os militares

O ano é 2021, grupos bolsonaristas no whatsapp e telegram registram picos de atividade, dedicando-se quase que exclusivamente a difusão de notícias falsas a respeito da pandemia de Covid.

Digo “quase que exclusivamente”, pois entre os anúncios de remédios milagrosos sem nenhuma comprovação científica e teorias da conspiração a respeito da real natureza do vírus, corriam estranhos ataques direcionados a algumas autoridades militares.

Mensagens apócrifas que os “denunciavam” enquanto comunistas disfarçados – ou seria melhor dizer recalcados? -, xingando-os de “melancias”, pois “verdes por fora e vermelhos por dentro”. Mostravam imagens dessas mesmas autoridades presentes em eventos do governo Lula e Dilma. Uma prova cabal de seu suposto alinhamento político, diziam!

Detalhe crucial de toda essa histórias, essas autoridades “denunciadas” ou faziam parte ou orbitavam a alta cúpula do governo Bolsonaro.

Você ouviu falar disso? Provavelmente não. Os ataques coordenados aos militares jamais conseguiram ganhar a tração necessária para ultrapassar as fronteiras dos grupos mais extremistas do Bolsonarismo, o próprio “coração” de todo esse ecossistema.

Os ataques não ganharam tração – e digo isso sem medo – pois os militares ainda eram tidos como um dos principais aliados do governo. Mais do que isso, os colocavam como sendo a última linha de defesa da nação contra as ameaças do marxismo cultural e da máquina de terrorismo biológico do regime chinês.

Com outras palavras, no fantástico submundo da extrema-direita, os militares seriam os anticorpos da nação contra as ameaças que adoeciam as mentes e os corpos dos brasileiros.

No entanto, por mais que estes ataques aos militares tenham falhado em seu intuito e se tornado irrelevantes num contexto mais geral da política, a sua mera existência indicava algo que estava longe de ser trivial: um conflito intestino no e pelo “coração” do Bolsonarismo.

Um conflito que se originava na cisma entre olavistas e os próprios militares pelo comando de pastas estratégicas do governo Bolsonaro. Mas quis a história que ambos perdessem essa disputa para o Centrão!

Porém, essa é, com o perdão da repetição, uma outra história, o que nos importa aqui é que essa cisma reemerge no ocaso do governo Bolsonaro. Evento do qual a caserna sai com a pecha de traidora e covarde por supostamente não ter embarcado na tentativa fracassada de golpe de Estado.

Essa alcunha de traidora, inclusive, lhes custou a confiança de uma parcela considerável de outros segmentos da direita, ao ponto disso aparecer em pesquisas quantitativas realizadas no ano passado.

E por que estou rememorando essa história? Porque ela nos ajuda a compreender o presente e, de certa forma, antecipar o futuro. Ela nos ajuda a entender o sentido de um dos eventos mais aterradores do momento: a quantidade de notícias falsas envolvendo a tragédia no Rio Grande do Sul, especialmente aquelas envolvendo militares.

E como os leitores antigos dessa coluna devem imaginar, eu não tenho qualquer preocupação com a preservação da imagem dos militares, a minha questão aqui é outra, é compreender o que esses ataques representam e, tão importante quanto, quem se beneficia deles.

Para que se tenha ideia, um levantamento da Quaest indicou que, entre os dias 3 e 10 de maio, 70% das menções ao Exército nas redes sociais foram negativas. Em sua maioria esmagadora, “notícias” e “denúncias” que circulam por meio de perfis ligados a direita.

Esse tipo de ataque, especialmente em meio a uma tragédia de proporções inéditas na história no país, não acontece de forma espontânea, ao acaso.

Imagine, se entre tanta destruição, mortes e tristeza, a prioridade das pessoas, do povo, seria atacar o exército. Tudo isso é fruto de uma ação coordenada e muito bem coordenada. E como toda ação coordenada ela tem um propósito!

Setores da direita parecem ver na tragédia gaúcha uma oportunidade única para recuperar ou conquistar o protagonismo político dentro da própria direita, ao mesmo tempo em que propagam sua mensagem para grupos mais amplos.

Com efeito, a tragédia é um evento que não pode ser ignorado. As direitas sabem bem disso. E por isso mesmo estão se dedicando tanto para controlá-lo, isto é, para controlar a forma como a tragédia será absorvida pela imaginação, e portanto pela memória da população. Em suma, como tragédia será transformada em fato político.

Tentam reescrever a realidade enquanto ela ainda acontece.

Uma tarefa hercúlea, é verdade, mas não é a primeira vez que fazem isso. Vimos algo muito semelhante durante a pandemia. Uma mobilização que até hoje rende frutos políticos e econômicos para as direitas brasileiras.

A grande diferença, agora, é que todo esse ecossistema não esta mais centrado na figura do ex-presidente Jair Bolsonaro. Que, inclusive, diga-se de passagem, é cada vez menos citado. A rede parece mais voltada para a produção de novas lideranças pensando nas municipais deste ano e nas eleições de 2026, especialmente para o Senado.

E é nesse contexto, justamente, que o ataque coordenado aos militares ganha sentido. Surfam na imagem negativa da caserna para ganhar tração entre os setores mais radicais (leia-se golpistas) da própria direita.

Setores que, não por coincidência, são os mais ativos de todo esse ecossistema. Conquiste-os e você conquistará a própria rede. Afinal, eles são o seu próprio “coração”, responsáveis por “bombear” a desinformação para os outros setores da direita e até mesmo para grupos mais gerais e amplos da população. Onde marcam presença por meio de perfis falsos e estratégias de ocupação de espaços virtuais.

Reitero, infelizmente não há nada de novo nisso, o “coração” da direita segue incólume bombeando desinformação para reescrever e controlar a realidade dos fatos, sejam esses fatos uma pandemia de escala global ou uma tragédia climática no Sul do país.  Afetando a mente e a memória de milhões de brasileiros. Uma máquina política de desinformação que se deleita com a leniência do judiciário e na orientação cada vez mais evidente das big techs.

Contudo, é importante que se diga isso, que se trata de uma história que se repete. Mas também devemos apontar para a diferença nessa repetição. Pois essa máquina, o ecossistema da direita, está se transformando, gradualmente abandonando seus antigos líderes, como o próprio Bolsonaro, e alguns de seus antigos tentáculos, como os militares.

E oportunistas que são, viram na tragédia gaúcha a oportunidade perfeita para isso, para se transformarem.

Melhor dizendo, “parasitas que são”.

Tragédia histórica expõe o quanto governo Leite ignora alertas e atropela política ambiental

Poucos dias antes do início das chuvas que infligem ao Rio Grande do Sul a sua maior tragédia climática, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) enviou ao governador Eduardo Leite (PSDB) um ofício com o incomum título de “Alerta ao Estado do Rio Grande do Sul e ao Governador do Estado”, seguido pelo subtítulo que dizia: “Registro para fins de tomada de conhecimento sobre alertas emitidos há várias décadas”. O documento foi entregue no último dia 26 de abril.

Logo no início, o ofício deixa claro o objetivo de avisar o governador de que o mundo “está enfrentando uma crise climática”. Antes de parecer estranho que a entidade ambientalista mais antiga do RS e do Brasil se disponha a produzir um documento para informar Leite de algo amplamente discutido no planeta, o ofício revela a péssima relação do governador gaúcho com os ambientalistas do estado.

No documento, a Agapan enfatiza que a crise climática é divulgada pela ciência e imprensa há várias décadas e explica que o problema “tem o fator antropogênico como um de seus principais ingredientes de intensificação, sem desconsiderar outros de caráter cíclico e universal que possam somar”. Antropogênico, no caso, significa a ação do ser humano no meio ambiente.

O parágrafo seguinte do documento expõe a distância que separa o governador, apesar do figurino de colete da Defesa Civil quando a tragédia acontece, e os ambientalistas que há anos criticam as medidas adotadas pelo governo Leite.

“Neste sentido, alertamos que a falta de atitudes para estancar e reverter processos que contribuem para o avanço da crise – a exemplo da liberação de mais venenos agrícolas, da autorização para destruir Áreas de Preservação Permanente, da falta de uma política permanente de recuperação de matas ciliares, do incentivo anacrônico à construção de polos carboquímicos e de instalações de infraestrutura que não reconheçam os direitos das comunidades tradicionais, da falta de cuidados e ingerência dos recursos hídricos, entre outros – será motivo de proposta de Ação Civil Pública de nossa parte. É apenas um alerta com o objetivo claro de contar com a parceria para encontrar ‘soluções coletivas’ para estancar e fazer a nossa parte, enquanto povo gaúcho, para ajudar a reverter as mudanças climáticas.”

No ofício, a Agapan afirma não poder mais, por princípio de precaução diante da crise climática alertada há décadas, “ser complacentes com governos que têm demonstrado pouca ou nenhuma sensibilidade para a situação, em especial, da população mais vulnerável, que primeiro sofre e sofrerá com a ampliação do ritmo de avanço das mudanças climáticas”.

Presidente da Agapan, Heverton Lacerda pondera que a crise climática vivida no planeta pode levar séculos para ser revertida – ou nunca ser. A única chance é se, nos próximos anos e décadas, as sociedades conseguirem, de forma muito drástica, primeiro estancar tudo o que está causando e ampliando a crise climática, e depois realizar ações para a reversão.

“Não adianta apenas resiliência ou mitigação de danos. O que precisa ser combatido é a causa da mudança climática. O que os governos estão fazendo é ligado à questão da resiliência e da mitigação de danos, tirando a população de locais atingidos, mas vão continuar fazendo aquilo que causa a crise climática”, afirma, sem esconder na voz a insatisfação com os rumos da política ambiental.

A calamidade que assola o RS, com 78 mortos e mais de cem desaparecidos até o momento, número que tende a crescer nos próximos dias, é uma “tragédia anunciada” na visão de Lacerda. “Não existe nada que possa ser feito para evitar o próximo evento climático extremo que vai acontecer porque estamos dentro da crise climática.”

Se no curto prazo há pouco a fazer, no médio e longo prazo a perspectiva pode ser outra. O presidente da Agapan cita como prioridades a recomposição das Áreas de Preservação Permanente (APP), a recomposição das matas ciliares e o aumento do calado dos rios. A última medida com resultado mais rápido.

“Desassorear rios seria uma solução de forma imediata, cara e trabalhosa, mas o melhor seria a gente recompor as florestas”, defende. “Um dos grandes problemas é o assoreamento dos rios por causa de um modelo agrícola de desenvolvimento que desmata as bordas dos rios, tanto para construir casas quanto lavouras. Nossos rios estão assoreados, nossas cidades estão sendo construídas na beira dos rios, as encostas dos morros estão sendo impactadas, mesmo quando têm vegetação já tiraram as árvores grandes com raízes profundas, não é mais a mata natural.”

Ao citar os rumos para estancar a devastação ambiental que influencia diretamente na mudança climática e abre caminho para a força das águas dos rios, as divergências entre a Agapan (e outras entidades ambientalistas gaúchas) e o governo Leite se tornam evidentes. Mais que isso, explicam o ofício enviado poucos dias antes da atual tragédia causada pelas enchentes.

“O governo do Rio Grande do Sul vai na contramão da ecologia. Estamos regredindo na legislação ambiental enquanto estado que foi precursor na criação de leis ambientalistas. Outros estados que criaram a sua legislação ambiental, inclusive a nacional, se basearam no que foi criado aqui no Rio Grande do Sul”, destaca Lacerda.

A revolta remonta ao começo do primeiro mandato de Leite, em 2020, quando o governador aprovou na Assembleia Legislativa a Lei 15.434. Chamada de Novo Código Estadual do Meio Ambiente, a lei suprimiu ou flexibilizou mais de 500 artigos e incisos do Código Estadual de Meio Ambiente criado no ano 2000, afrouxando regras de proteção ambiental dos biomas Pampa e Mata Atlântica.

Em outubro de 2023, já depois da trágica enchente que devastou o Vale do Taquari, durante evento de lançamento do Plano de Governança e Conformidade Climática, a secretária estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), Marjorie Kauffmann, chegou a dizer que o novo Código Estadual do Meio Ambiente “trouxe mais elementos para analisar” o tema das mudanças climáticas.

“Quando entra um governo com essa visão mais neoliberal e anti-ecológica, ele se baseia nas legislações de fora que estão mais permissivas do que as nossas para fragilizar e enfraquecer a nossa legislação. As que se basearam nas nossas foram criadas de uma forma mais flexível”, explica o presidente da Agapan.

No mesmo evento em outubro do ano passado, ao apresentar as ações de enfrentamento às mudanças do clima que o governo estadual entende já teriam sido realizadas, outros episódios que tiveram ampla repercussão negativa junto as entidades ambientalistas do RS chamaram a atenção. Foi o caso do Licenciamento por Adesão e Compromisso (LAC), conhecido como autolicenciamento privado, criado em dezembro de 2021 e muito criticado por afrouxar a fiscalização ambiental. A medida permite que 49 atividades econômicas, sendo 31 com alto e médio potenciais poluidores, sejam autorizadas independente do seu porte.

Quando a LAC foi aprovada pelo Consema, o Centro de Estudos Ambientais (CAE), sediado em Pelotas, declarou que o caso representou o “maior retrocesso ambiental promovido por um governo nesse colegiado”. A ONG diz que o órgão atualmente está dominado por uma aliança anti-sociedade e anti-natureza, reunindo o governo estadual e o agronegócio, a indústria e a construção civil.

Ainda no evento de lançamento do Plano de Governança e Conformidade Climática, entre as medidas listadas pelo governo estadual como ações para enfrentar a crise climática no RS esteve a participação na Conferência do Clima (COP 26), em Glasgow, e na COP 27, no Egito; a adesão ao programa Race to Zero e Race to Resilience; a criação do Fórum Gaúcho de Mudanças Climáticas; o incentivo a criação de Comissões Municipais sobre Mudanças Climáticas; assim como a assinatura do protocolo de intenções para a descarbonização das cadeias produtivas do RS e o Programa de Desenvolvimento da Cadeia de Hidrogênio Verde no RS, entre outras ações consideradas inócuas ou insuficientes pelas entidades ambientalistas do estado.

Discurso x prática

No dia 14 de setembro de 2023, enquanto as famílias no Vale do Taquari ainda choravam seu parentes mortos, procuravam desaparecidos e contabilizam os prejuízos econômicos causados pela enchente, o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) aprovou a atualização do Zoneamento Ambiental para a Atividade da Silvicultura (ZAS) no estado. Pela decisão, a alteração será aplicada aos novos plantios ou na renovação dos plantios florestais já existentes.

As áreas de plantios da silvicultura passarão dos atuais 900 mil ou 1 milhão de hectares para 4 milhões de hectares em cada Unidade de Paisagem Natural (UPN) x Bacia Hidrográfica (BH). A silvicultura é o cultivo de florestas por meio do manejo agrícola, com o objetivo de suprir o mercado de madeira e aproveitar o uso racional das florestas. No RS, o eucalipto é um dos principais cultivos da silvicultura.

A mudança foi comemorada pela secretária estadual do Meio Ambiente, Marjorie Kauffmann. A aprovação se concretizou mesmo com os alertas de perda de biodiversidade feitos por técnicos da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). Membro do Consema, o Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (InGá) também emitiu parecer contrário a mudança. No documento, a entidade afirmou que a aprovação poderá representar uma “irreversível e extraordinária perda adicional ao Pampa e aos Campos Sulinos”. O InGá ainda considerou que a proposta aprovada teve vício de origem por ter sido elaborada por empresas contratadas pelo próprio setor a ser regulado pelo governo estadual.

A empresa que construiu a proposta foi a Codex, sob financiamento da multinacional chilena CMPC, e protocolada no Consema pela Fiergs. No último dia 29 de abril, cerca de seis meses após a mudança na regra e quando já chovia no RS, o governo estadual e justamente a CMPC firmaram um protocolo de intenções para a instalação de uma nova planta industrial de produção de celulose em Barra do Ribeiro. Com aporte de R$ 24 bilhões da empresa, o negócio foi festejado pelo governo como “um dos maiores investimentos privados da história do Rio Grande do Sul”.

Recentemente, outro projeto com alto potencial de impacto ambiental colocou Leite e entidades ambientalistas em lados opostos. Trata-se da lei que flexibiliza ainda mais o Código Estadual de Meio Ambiente para permitir a construção de barragens e açudes em Áreas de Preservação Permanente (APP). O objetivo é proporcionar alternativas de armazenamento de água para agricultura e pecuária, de modo a enfrentar períodos de estiagem. Leite sancionou no dia 9 de abril o projeto aprovado em março na Assembleia Legislativa.

Na ocasião da aprovação do projeto, Rodrigo Dutra, mestre em Ecologia e integrante da Coalisão pelo Pampa, avaliou que a medida é resultado da vulgarização dos conceitos de utilidade pública e interesse social. “Em geral, são exceções para obras e empreendimentos de interesse coletivo, e nos PLs entram várias atividades particulares como a irrigação e até a mineração”, disse.

Para Dutra, o pano de fundo para a discussão sobre o tema é a omissão estadual em implementar o Programa de Regularização Ambiental (PRA), previsto desde 2012 para recuperar passivos de APPs e reserva legal nos biomas Pampa e a Mata Atlântica – a Reserva Legal determina a preservação de no mínimo 20% de todo imóvel rural. Ele pontuou ainda que, segundo o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (PLANAVEG), apenas no bioma Pampa deveriam estar sendo recuperados 300 mil hectares de APPs e Reserva Legal. “Nada disso está acontecendo, e o PL prevê destruir mais APPs para barragens”, lamentou.

Também após a aprovação pela Assembleia do projeto que flexibiliza o Código Estadual de Meio Ambiente, a Agapan emitiu nota denunciando o que definiu como a “destruição ambiental” que está sendo incentivada e legalizada no estado. A entidade destacou haver muitas provas científicas sobre o impacto das atividades humanas no planeta, com enormes danos ao meio ambiente. E neste contexto de crise ambiental intensificada pelas mudanças climáticas, disse que a nova lei aprovada no RS é “antiecológica” e “irresponsável”.

Outro lado

Questionado pela reportagem do Sul21 sobre as ações de enfrentamento a crise climática implementadas desde a enchente de setembro do ano passado, o governo estadual informou apenas que, neste momento, “trabalha 24 horas por dia com prioridade total no resgate e atendimento às vítimas das chuvas históricas”, com toda sua estrutura agindo de forma descentralizada e em conjunto com as forças nacionais de segurança.

“Pensando na adaptação e resiliência climática, em novembro de 2023 foi instituído o Gabinete de Crise Climática, que tem como principal função conectar as secretarias de Estado, instituições e pesquisadores no monitoramento e implementação de ações práticas de resposta à crise do clima”, respondeu, em nota.

Entre as medidas em andamento citadas pelo governo Leite para enfrentar a crise climática, estão a contratação de serviço de radar meteorológico pela Defesa Civil, que será instalado na Região Metropolitana de Porto Alegre e está em fase final de implementação; melhorias na Sala de Situação, responsável pelo monitoramento das chuvas e dos níveis dos rios; e a implementação do roadmap climático dos municípios, que mapeará as ações relacionadas ao clima em esfera municipal.

“O governo reforça o seu compromisso, neste momento, em garantir a vida e a segurança da população gaúcha neste momento de emergência”, afirma, sem citar nenhuma das ações defendidas pelos ambientalistas para mudar a trajetória dos futuros eventos climáticos extremos.

Em novembro do ano passado, um dia depois da Assembleia Legislativa aprovar o orçamento do governo estadual para 2024, com receitas totais de R$ 80,3 bilhões e despesas totais de R$ 83 bilhões (um déficit de R$ 2,7 bilhões), o governo Leite celebrou a fatia do orçamento de R$ 115 milhões para enfrentar os eventos climáticos no RS no ano de 2024. O governo definiu o valor previsto como um “orçamento robusto”, embora a cifra represente menos de 0,2% do orçamento total aprovado.

De doações a ‘não sou homem do tempo’, Leite flerta com o bolsonarismo

O governador Eduardo Leite mostrou que talvez não fosse a melhor pessoa para mitigar uma catástrofe climática no Rio Grande do Sul dada a quantidade de regras ambientais enfraquecidas sob sua gestão. Agora, vai mostrando que pode não ser a melhor pessoa para comandar uma resposta à tragédia devido a declarações que criam barulho desnecessário e atrapalham o trabalho de atendimento às vítimas.

A última que viralizou nas redes sociais foi a de uma entrevista ele concedeu à rádio BandNewsFM, na terça (14), na qual afirmou estar preocupado que o grande volume de doações ao estado reduza as vendas no comércio local.

“Pedi à nossa equipe aqui que ajude a estruturar na medida do possível ferramentas e canais para que aquelas pessoas que queiram fazer doações possam fazer essas doações também ajudando o comércio local, que está impactado. Porque, na verdade, quando você tem um volume tão grande de doações físicas chegando ao estado, há um receio sobre o impacto que isso terá no comércio local. O reerguimento desse comércio fica dificultado na medida em que você tem uma série de itens que estão vindo de outros lugares do país”, afirmou.

Ele ainda disse que não queria ser entendido como alguém que estava desprezando as doações, mas foi exatamente isso que foi compreendido nas redes.

A retomada do comércio local é importante, mas em um momento em que as todas vidas estiverem protegidas, alimentadas e aquecidas, o que ainda não aconteceu. É possível fazer um paralelo com a pandemia de covid-19: a economia e os empregos importavam, mas a prioridade dos governantes sérios (o que excluiu o então presidente da República) foi a de salvar vidas

Dada a comoção com sua declaração, Leite gravou um vídeo para pedir desculpas, dizer que houve um mal-entendido e que as últimas semanas têm sido brutais e ninguém está livre de erros.

Outra confusão desnecessária envolvendo o governador foi a conta Pix para a doações que ele promove desde o início da tragédia. Só muito tempo depois, e diante de questionamentos públicos, explicou publicamente que os recursos seriam geridos por uma entidade privada, a associação dos bancos do Rio Grande do Sul. Isso provocou mais uma onda de especulações.

Tudo isso poderia ter sido evitado se, desde o começo, ele tivesse detalhado o destino dos recursos e a governança do fundo. Pois o problema não é o setor privado receber os recursos e um comitê com a participação de entidades sociais e governo decidir o destino, o problema é a falta de cuidado com a transparência.

Neste momento, o governador demonstra sua insatisfação com a escolha do ministro Paulo Pimenta como interlocutor do governo federal para a tragédia no Rio Grande do Sul. O grupo político de Eduardo Leite vê uma manobra com futuras intenções eleitorais, como informa Tales Faria, no UOL. O foco do Palácio Piratini segue sendo Brasília, com pedidos, exigências e reclamações de falta de organização para atender às necessidades do estado – algumas justas, outras não. Mas, enquanto isso, o próprio estado mostra-se despreparado até para se comunicar corretamente com a população.

Quando fez o alerta para as fortes chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul, no final de abril, Eduardo Leite foi criticado por começar sua intervenção como “eu não sou o homem do tempo” e não apontar ações concretas a serem tomadas, no máximo pediu para todos ficarem alertas e não se colocarem em situação de risco. Isso fez com a declaração fosse comparada nas redes com “não sou coveiro”, eternizada por Jair durante a tragédia da covid-19.

Ninguém está livre de errar e de falar bobagem, ainda mais sob pressão, mas em situações de grande tragédia, um governante precisa saber escolher bem as palavras, pois elas causam impactos nas ações de atendimento, no fluxo de doações, na vida das pessoas.

Até para não seguir os passos do ex-presidente Bolsonaro, que jogava entre a sinceridade violenta do improviso, o selvagem egoísmo da indiferença e a hipocrisia agressiva da politicagem, e será lembrado por suas frases insensíveis e por ter perdido 711 mil brasileiros na pandemia.


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