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Brasil

Desnutrição atingiu 8,4 milhões de brasileiros entre 2021 e 2023, mostra ONU

Brasil quer taxar super-ricos para financiar Aliança contra a Fome

Publicado em 25/07/2024 9:21 - DW, Bruno de Freitas Moura (Agência Brasil) – Edição Semana On

Divulgação Tânia Rego - Abr

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A fome deixou subnutridos cerca de 8,4 milhões de brasileiros entre 2021 e 2023, de acordo com estudo de cinco agências da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado na quarta-feira (24/07).

No mesmo período, 39,7 milhões de brasileiros (18,4% da população) viveram em insegurança alimentar – condição que se apresenta em diferentes graus e abarca desde o consumo de alimentos menos nutritivos e baratos até a falta do que comer. Cerca de 14,3 milhões de brasileiros estiveram nessa última condição (6,6% da população), chamada de insegurança alimentar severa.

Apesar dos dados ainda alarmantes, houve melhora do quadro nos últimos anos. No triênio de 2020 a 2022, 70,3 milhões de brasileiros, ou 32,8% da população, sofriam algum grau de insegurança alimentar, e 21,1 milhões de brasileiros não tinham o que comer (9,9% da população).

O número dos que sofreram com a insegurança alimentar grave é maior do que os oficialmente classificados pela ONU como famintos porque a definição de fome da entidade considera apenas aqueles em estado de subnutrição induzida pela falta crônica e contínua de alimentos.

Os dados estão na edição mais recente do relatório anual “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo”, lançado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e agências parcerias. Neste ano, a divulgação oficial do relatório aconteceu no Rio de Janeiro, como parte do lançamento da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, principal aposta do Brasil no G20.

Neste ano, o Brasil preside o grupo, que inclui 19 estados, a União Europeia e, desde 2023, a União Africana. A Rússia e a China também são membros.

A aliança visa garantir financiamento para combater a fome no mundo e a replicar programas bem-sucedidos. “A fome não resulta apenas de fatores externos. Ela decorre, sobretudo, de escolhas políticas”, afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso. “Não podemos naturalizar tais disparidades”, completou.]

Uma dentre cada 11 pessoas no mundo passa fome

O estudo revela que a fome permaneceu praticamente no mesmo nível durante os três últimos anos, depois de um pico na pandemia. Entre 713 e 757 milhões de pessoas podem ter passado fome em 2023, o que equivale a 1 entre 11 pessoas no mundo – e 1 a cada 5 no continente africano.

Dessa forma, o mundo ainda está longe de alcançar o compromisso de zerar a fome até 2030, apontam as entidades envolvidas.

A projeção é de que 582 milhões de pessoas estarão cronicamente subnutridas no final da década, mais da metade delas na África.

“É necessário acelerar a transformação de nossos sistemas agroalimentares para fortalecer sua resiliência aos principais fatores e enfrentar as desigualdades para garantir que dietas saudáveis sejam acessíveis e estejam disponíveis para todos”, diz o relatório.

O documento destaca a necessidade de financiamento, seja público ou privado, para garantir a disponibilidade, o acesso e a continuidade no abastecimento de alimentos nutritivos e seguros, além de práticas que favoreçam dietas saudáveis, serviços de saúde, educação e de proteção social.

As entidades observaram melhorias nos países mais populosos e com economias em crescimento, mas a fome, a insegurança alimentar e a desnutrição continuam a aumentar em muitos países do mundo.

“Isso está afetando milhões de pessoas, especialmente nas áreas rurais, onde a pobreza extrema e a insegurança alimentar continuam profundamente arraigadas”, diz o texto.

Entre os mais vulneráveis, estão mulheres, jovens e povos indígenas. A prevalência de insegurança alimentar é maior nas áreas rurais do que nas áreas urbanas.

A África é a região com a maior parcela da população que vive em situação de fome – 20,4%. Na Ásia, esse índice é de 8,1%, na América Latina e no Caribe, 6,2%, e na Oceania, 7,3%. Entretanto, a Ásia ainda abriga o maior número de pessoas: 384,5 milhões, ou mais da metade de todas as pessoas que passam fome no mundo.

Agência Brasil

Brasil quer taxar super-ricos para financiar Aliança contra a Fome

O Brasil conta com recursos vindos da taxação de grandes fortunas, os chamados super-ricos, para financiar iniciativas da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. A afirmação foi feita pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad. A Aliança é uma das prioridades da presidência brasileira do G20 (grupo das 19 maiores economias do planeta, mais União Europeia e União Africana).

“Ao redor do mundo, os super-ricos usam uma série de artifícios para evadir os sistemas tributários. Isso faz com que no topo da pirâmide, os sistemas sejam regressivos e não progressivos [quando mais ricos pagam menos impostos]”, afirmou.

O ministro da Fazenda citou um estudo do economista francês Gabriel Zucman, feito a pedido do Brasil, que estima uma arrecadação de até US$ 250 bilhões por ano, caso bilionários fossem taxados em 2% das riquezas.

“É aproximadamente cinco vezes o montante que os dez maiores bancos multilaterais dedicaram ao enfrentamento à fome e à pobreza em 2022”, comparou Haddad.

Segundo o ministro, a Aliança Global parte da premissa de que a comunidade internacional tem todas as condições para garantir a todos condições dignas de vida. “O que tem faltado é vontade política”. O ministro explicou que a Aliança será “agente catalizador dessa vontade”.

“É imperativo nos mobilizarmos para aumentar os recursos disponíveis internacionalmente, direcionados a enfrentar a fome e a pobreza. Precisamos buscar inovações em instrumentos de financiamento para o desenvolvimento”, pediu o ministro. Ele citou parcerias público privadas e reformas de bancos multilaterais.

Articulação de recursos

Haddad defendeu também que haja a articulação de recursos provenientes de bancos multilaterais de financiamento ao desenvolvimento, como o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), além da facilitação de acesso a recursos, promovida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Haddad citou o mecanismo de canalização do Direito Especial de Saque (DES), que possibilita que países obtenham recursos com o FMI.

O presidente do BID, o brasileiro Ilan Goldfajn, e o presidente do Banco Mundial, o indiano Ajay Banga, participaram do evento de pré-lançamento e manifestaram apoio institucional à iniciativa.

Goldfajn afirmou que o BID está comprometido a erradicar a pobreza extrema na América Latina até 2030.

Ajay Banga, do Banco Mundial, não informou quanto o banco aplicará no combate à fome, mas afirmou que será “parceiro líder” na Aliança Global. O indiano informou ainda que o banco se esforçará para que ações de financiamento cheguem a meio bilhão de pessoas até 2030.

Outra frente de ação do Banco Mundial é por meio de investimento na agricultura de países africanos. “Com investimentos em fertilizantes e irrigação, podemos ajudar pessoas a produzir mais”.

Proposta endossada

A Aliança Global consiste em um conjunto de medidas que visam canalizar recursos e trocas de experiência para erradicar a insegurança alimentar no mundo.

Apesar de ter sido lançada no ambiente do G20, a iniciativa é aberta a países de fora do grupo, além de organismos internacionais. Nesta etapa, acontece a formalização dos termos e abre-se caminho para a adesão de países interessados.

Durante o evento desta quarta-feira, países-membros do G20 endossaram os termos da proposta brasileira.

“Essa é uma aprovação histórica. Se concluída, altera a vida de milhões de pessoas no mundo”, celebrou o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias.

O endosso na reunião desta quarta-feira não significa que os países aderiram ao compromisso. De acordo com o ministro Dias, países que aderirem precisam tratar o combate à fome como política de Estado, estabelecer metas e levar em consideração experiências bem-sucedidas em outros países, como programas de transferência de renda e alimentação escolar.

O lançamento final da Aliança Global deve ser concluído na reunião de cúpula do G20, nos dias 18 e 19 de novembro, também no Rio de Janeiro.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, disse que a Aliança Global “responde a anseios das populações dos países e expectativas das sociedades”.

“Os olhos do mundo estão sobre nós. Não podemos fracassar nesse processo”, declarou.


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