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Brasil

Desigualdade de renda no Brasil atinge menor nível desde 2012; mas ainda é imensa

Em MS, 10% mais ricos recebem quase 20 vezes mais que os 10% mais pobres

Publicado em 12/05/2025 10:54 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A desigualdade de renda no Brasil atingiu, em 2024, seu menor patamar desde 2012, segundo o IBGE. Mas o que parece ser um avanço esconde um paradoxo cruel: em estados como Mato Grosso do Sul, a distância entre ricos e pobres continua abissal, enquanto o custo básico para alimentar uma família já supera o dobro da renda de milhões. A ilusão de progresso contrasta com a persistência de um modelo social que ainda reproduz as mesmas desigualdades estruturais da história brasileira.

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Os dados mais recentes da Pnad Contínua, divulgados em maio de 2024, trazem um alívio estatístico: a diferença entre os rendimentos dos 10% mais ricos e dos 40% mais pobres do Brasil caiu para 13,4 vezes, a menor desde o início da série histórica, em 2012. O índice de Gini, termômetro global da desigualdade, também recuou para 0,506 — ainda alto, mas em queda.

No entanto, como observa o economista francês Thomas Piketty, “a desigualdade não se reduz apenas com crescimento econômico, mas com a correção de estruturas históricas de concentração de renda e riqueza”. No caso brasileiro, tais estruturas estão enraizadas desde o período colonial, quando terras e poder foram distribuídos de maneira extremamente desigual, criando um padrão que atravessou Império, República e regimes autoritários.

O crescimento da renda dos mais pobres — um salto de 9,3% entre 2023 e 2024 — deve-se, em grande parte, à recuperação do mercado de trabalho formal, aos reajustes do salário mínimo e à ampliação de programas sociais como o Bolsa Família. Ainda assim, os 10% mais ricos mantêm um rendimento médio de R$ 8.034, enquanto os 40% mais pobres vivem com R$ 601. A disparidade é ainda mais gritante no topo: o 1% mais rico recebe, em média, R$ 21.767, ou 36,2 vezes a renda dos mais pobres.

Mato Grosso do Sul: um retrato da desigualdade

Em Mato Grosso do Sul, a desigualdade apresenta traços ainda mais perversos. De acordo com a mesma Pnad, os 10% mais ricos do estado recebem quase 20 vezes mais que os 10% mais pobres. Enquanto os mais ricos ostentam uma renda média de R$ 12.738, os mais pobres sobrevivem com R$ 644. No topo, o 1% mais rico aufere R$ 26.480 mensais — mais de 40 vezes a renda dos mais pobres.

Essas cifras não são meros indicadores econômicos. Como ensina o sociólogo francês Pierre Bourdieu, “a desigualdade material é também uma desigualdade simbólica, que se traduz em acesso desigual ao poder, à educação e à cidadania”. Em MS, as assimetrias raciais e educacionais reforçam essa lógica: pessoas brancas ganham 1,5 vezes mais que pardos, e quem possui ensino superior recebe 3,4 vezes mais que aqueles sem instrução.

Além disso, a diferença salarial entre homens e mulheres no estado é de 25%, um reflexo da persistente divisão sexual do trabalho e das barreiras culturais à equidade de gênero.

A conta não fecha: custo de vida e invisibilidade social

Se a renda cresce timidamente, o custo de vida dispara. Em Campo Grande, o Dieese calcula que uma família de quatro pessoas precisa de R$ 2.400 por mês apenas para se alimentar — quase a totalidade da renda de um casal que receba dois salários mínimos (R$ 3.036). A cesta básica da capital sul-mato-grossense é a 5ª mais cara do Brasil, com alta de 9,87% em 12 meses.

Esse cenário evidencia uma contradição estrutural: enquanto o salário mínimo oficial é de R$ 1.518, o mínimo necessário, segundo o Dieese, seria de R$ 7.638,62 para garantir moradia, saúde, educação, alimentação e transporte dignos. Como disse o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, nos anos 1990: “A fome é o escândalo mais visível da desigualdade. Mas há outras fomes: de justiça, de educação, de saúde”.

Uma desigualdade estrutural e persistente

Historicamente, a desigualdade no Brasil se sustenta em um tripé perverso: concentração de terras e riqueza, tributação regressiva e serviços públicos de baixa qualidade para a maioria. Como afirma o cientista político André Singer, “o Brasil convive com uma modernização conservadora, onde as elites buscam perpetuar privilégios, mesmo em contextos de crescimento econômico”.

Ainda que programas sociais e políticas de valorização do salário mínimo tenham, em momentos específicos, reduzido a pobreza, a distância entre os extremos permanece brutal. A recente redução do índice de Gini, embora positiva, deve ser vista com cautela: não basta reduzir a desigualdade relativa se a pobreza absoluta persiste em níveis inaceitáveis.

Caminhos possíveis: reforma tributária, redistribuição e cidadania

Para romper esse ciclo, especialistas defendem medidas estruturais. A reforma tributária progressiva, que aumente a carga sobre grandes fortunas, heranças e lucros financeiros, é apontada por economistas como Sergio Gobetti e Bernard Appy como essencial para uma redistribuição mais justa.

Além disso, políticas públicas robustas — como investimentos em saúde, educação e habitação — devem ser tratadas como direitos universais, e não como favores ou compensações.

O filósofo Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia, sintetiza essa visão ao afirmar que “o desenvolvimento deve ser visto como um processo de expansão das liberdades reais das pessoas”.

A desigualdade extrema não é apenas um problema econômico. É, sobretudo, uma ameaça à democracia. Quando vastas parcelas da população não têm acesso às condições mínimas de dignidade, a cidadania torna-se uma ficção.

O Brasil de 2024 deu passos tímidos para reduzir seu abismo social, mas a estrada para uma sociedade justa ainda é longa. Os números melhoraram, mas a vida real — sobretudo em estados como Mato Grosso do Sul — exige muito mais que estatísticas positivas. Exige vontade política, consciência cidadã e um projeto de país onde direitos não sejam privilégios.

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