23/04/2024 - Edição 540

Brasil

Deputado Chiquinho Brazão foi citado por Lessa em delação sobre assassinato de Marielle

O assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes completou seis anos na quinta-feira passada

Publicado em 20/03/2024 11:28 - UOL, Lorena Barros, Luiza Eltz e Josias de Souza (UOL), Juliana Dal Piva e Chico Alves (ICL Notícias) – Edição Semana On

Divulgação

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O ex-policial militar Ronnie Lessa afirmou na delação premiada à Polícia Federal (PF) que o deputado federal Chiquinho Brazão (União Brasil-RJ) está ligado ao assassinato da vereadora Marielle Franco e do seu motorista Anderson Gomes, em 2018. A informação foi divulgada inicialmente por Guilherme Amado, do Metrópoles, e confirmada pelo Estadão.

A citação ao parlamentar foi o que motivou o deslocamento do caso do Superior Tribunal de Justiça (STJ) para o Supremo Tribunal Federal (STF), segundo relatou uma pessoa com acesso ao inquérito no tribunal. O parlamentar foi procurado pela reportagem, mas não havia se manifestado até a publicação desta matéria.

O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, anunciou na terça-feira, 19, que STF homologou delação premiada concedida por Lessa. Esse procedimento transforma em evidência as declarações do ex-PM, que ainda precisará ajudar os investigadores a encontrarem provas que comprovem a sua delação. Ainda não há a confirmação de que Brazão teria sido o mandante do crime, mas, segundo Lewandowski, a elucidação do caso está próxima.

O assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes completou seis anos na quinta-feira passada, dia 14. Embora os apontados como o autor dos disparos e o motorista que o conduziu naquela noite de 17 de março de 2018 no Rio de Janeiro estejam presos, ainda falta saber quem mandou matar Marielle.

O executor do crime, conforme apontam as investigações do caso, teria citado o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE) Domingos Inácio Brazão como o autor intelectual dos assassinatos, segundo o site The Intercept Brasil.

A PF informou que, após executar Marielle, os investigados teriam jogado pedaços da placa do veículo utilizado no crime nas linhas férreas dos trens urbanos do Rio de Janeiro. Dois dias após a execução, Edilson Barbosa dos Santos, conhecido como Orelha, recebeu a ordem de “sumir com o automóvel”, segundo as investigações. O destino teria sido um desmanche no Morro da Pedreira, na zona norte da cidade.

O ex-policial militar Élcio Queiroz, acusado de ter pilotado o carro usado na execução, também fechou acordo de delação premiada com os investigadores. Em 14 de março deste ano, ele admitiu a participação no crime e forneceu novos detalhes da execução aos investigadores. Em 2020, ele foi condenado a cinco anos de prisão e pagamento de multa pelo porte de munição e pela posse de armas de fogo, munições e carregadores.

De acordo com a apuração, o ex-bombeiro Maxwell Simões, mais conhecido como Suel, teria participado do planejamento do crime e da ocultação das provas, tendo cedido, um ano depois dos assassinatos, um veículo utilizado para descartar armas que pertenciam a Ronnie Lessa. Em 2020, ele foi detido “por atrapalhar de maneira deliberada” as investigações. No ano seguinte, foi condenado a quatro anos de prisão. O ex-bombeiro foi preso na residência dele no dia 24 de julho de 2023, e transferido para a Penitenciária Federal de Brasília no dia seguinte, dia 25.

Segundo Queiroz, o ex-policial militar Edmilson Oliveira da Silva, mais conhecido como “Macalé”, teria sido responsável por convidar Lessa a matar Marielle e por ceder o carro utilizado nas execuções. A delação ainda cita que Macalé e Suel eram responsáveis por monitorar os passos da vereadora. Ele foi assassinado na Zona Oeste do Rio em novembro de 2021, após receber diversos disparos de homens dentro de um veículo BMW branco.

Também foram alvos de operação da PF Alessandra da Silva Farizote e João Paulo Vianna dos Santos Soares, conhecido como “Gato do Mato”, investigados por terem recebido e descartado as armas do crime.

O irmão de Ronnie Lessa, Denis Lessa, é acusado de ter recebido os materiais usados no assassinato (arma do crime, touca, casaco e silenciador) no dia da execução.

Advogados de Ronnie Lessa abandonam defesa após acordo de delação

A defesa de Ronnie Lessa deixou a representação do ex-policial militar após acordo de delação. Advogados citaram “ideologia jurídica”. Em nota, Bruno Castro e Fernando Santana afirmaram que “não atuam para delatores”.

Ronnie Lessa já tinha sido avisado sobre condição, informou a ex-defesa. Eles alegaram que o ex-PM foi informado sobre isso desde o primeiro contato com os advogados, há cinco anos. Eles também informaram que não foram chamados por Lessa para fazer o acordo de delação.

Dupla defendia ex-PM em 12 processos. Não há até o momento informação sobre se Lessa já tem nova defesa constituída.

Defesa já tinham ameaçado abandonar cargo. Em janeiro, Bruno Castro e Fernando Santana afirmaram que deixariam a defesa de Lessa em caso de colaboração. Na ocasião, diante de rumores sobre a delação do ex-PM, eles afirmaram que foram “pegos de surpresa”.

“Desde o primeiro contato deixamos claro que ele não poderia contar com o escritório caso tivesse interesse em fechar um acordo de delação premiada”, disse Fernando Santana Advogados.

A homologação da delação de Ronnie Lessa foi anunciada ontem pelo Ministéiro da Justiça. O ministro Ricardo Lewandowski afirmou que não teve acesso ao conteúdo e que o caso tramita em segredo de Justiça.

Processo está nas mãos de Alexandre de Moraes. Lewandowski afirmou que resultados sobre o que foi apurado devem ser divulgados “muito em breve”.

Após delação, filha de Lessa critica ‘brutalidade’ do crime contra Marielle

Mohana Lessa, filha do ex-PM Ronnie Lessa, enviou à coluna, com exclusividade, uma carta na qual afirma ser “inadmissível tamanha brutalidade cometida” no assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. O crime foi confessado pelo pai dela no acordo de colaboração premiada celebrado por Lessa com a Polícia Federal e homologado pelo ministro Alexandre de Moraes.

Ela disse que não fala diretamente com Ronnie há cerca de oito meses e que recebeu algumas cartas atrasadas nas últimas semanas, mas, em nenhum momento, ele tratou do assunto da delação com a família. Na carta enviada à coluna, Mohana diz que a família não quer fazer parte do acordo. “Não aceitamos e não aceitaremos qualquer proteção vinda desse acordo”, escreveu ela.

A filha de Ronnie Lessa ressaltou que o pai sempre declarou, para ela, ser inocente da acusação do MP do Rio (Ministério Público do Rio) que o aponta como o assassino da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes.

Carta de Mohana Lessa

Como eu havia dito há algumas semanas atrás, eu só queria que tudo fosse um pesadelo da pior espécie que eu pudesse acordar e seguir minha vida.

Sem muitas delongas, a partir da confirmação da homologação de uma delação feita pelo Lessa (ou Ronnie, como eu conhecia), nós, como “família”, mantemos nosso posicionamento inicial. É inadmissível tamanha brutalidade cometida. É totalmente contra o que nós pensamos, acreditamos e defendemos. 

Por cinco anos eu me desdobrei em mil e abri mão da minha vida para tentar provar a inocência de quem não era inocente. Eu confiava fielmente, até o último segundo. Não sei se era minha razão falando ou meu coração. Minha mãe foi presa, meu tio foi preso, amigos foram presos, eu mesma fui processada, e isso tudo, a troco de que? 

Sempre clamei por justiça, seja ela qual for. E isso não mudará nunca. De todo modo, nós, como família, não aceitamos e não aceitaremos qualquer proteção vinda desse acordo. Acreditamos que não temos absolutamente nada a ver com essa história e só queremos distância e paz disso tudo. A escolha desse crime não foi nossa, portanto, as consequências também não serão nossas. Que Deus, com toda sua misericórdia, possa perdoar os responsáveis por isso tudo algum dia. 

A escolha feita pelos participantes, sejam eles quem forem, acabou não somente com a vida da vereadora Marielle e seu motorista Anderson, como também de suas respectivas famílias, e com as nossas. Nada nunca mais será como antes.  

Eu tenho a péssima mania de me desculpar por erros que eu não cometi. Portanto, me perdoem, do fundo do meu coração, por tudo o que eu não fiz. Eu realmente sinto muito; por vocês, e por nós. Espero sinceramente que Deus possa nos confortar de alguma maneira depois que tudo isso acabar (se for possível). E que tudo acabe logo. 

Mohana Lessa (em meu nome e de toda minha família, que compartilhamos do mesmo sentimento de decepção e tristeza).

‘Crime penetrou nas estruturas’, diz Cappelli, após homologação da delação de Lessa

O anúncio da homologação da delação de Ronnie Lessa se deve à equipe anterior do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Hoje no Supremo Tribunal Federal, o antecessor de Lewandowski, Flávio Dino, tem limitações para comentar o assunto porque pode vir a julgar o caso. O ex-secretário executivo da pasta e braço direito de Dino, Ricardo Cappelli, falou ao ICL Notícias.

“Nós temos muita confiança no trabalho da Polícia Federal, liderada pelo dr. Andrei Passos e pelo superintendente no Rio, Leandro Almada. Eles sempre nos disseram que o caso seria resolvido. Nós bancamos ele e toda a equipe. Houve muita resistência, muita mesmo, foi travada uma luta intensa para a nomeação deles”.

Para Cappelli, a resolução da investigação revelará como o crime penetrou nas estruturas de Estado e como conseguiu construir uma rede poderosa. “A situação do Rio é gravíssima. A resolução deste caso terá repercussão internacional. O crime no Brasil virou um negócio bilionário. Com esse poder, ele exerce pressão e tenta cooptar agentes dos três poderes. Isso é gravíssimo. E se manifesta mais gravemente no Rio em função da fragilidade institucional. Vários governadores presos e afastados. A crise no Rio é muito séria”.

No caso Marielle, Lewandowski faz a espetacularização do nada

É preciso ser justo. Desde que começou a comandar o Ministério da Justiça, no início de fevereiro, Ricardo Lewandowski rala para demonstrar sua serventia no cargo. Já tentou tudo. Por enquanto, tudo não quis nada com o ministro. Na penúltima tentativa, Lewandowski flertou com o desespero. Cavalgando o caso Marielle, promoveu a espetacularização do nada.

Na semana passada, Lewandowski havia sinalizado que o inquérito sobre a execução de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes estava próximo de um desfecho. “As notícias que temos é que vamos encontrar os criminosos. Espero poder anunciar isso em breve.” Decorridos cinco dias, o ministro mandou chamar a imprensa.

Os repórteres passaram os ouvidos a limpo. Imaginaram o seguinte: depois do suspense que criou, o ministro não se atreveria a aparecer diante dos refletores em outra forma que não que não fosse a de uma resposta categórica para a interrogação que pisca no letreiro nacional há seis anos: Quem mandou matar Marielle?

Correspondendo às expectativas de quem não vê motivos para esperar muito dele, Lewandowski limitou-se a anunciar que o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes homologou a delação premiada de Ronnie Lessa, o criminoso acusado de puxar o gatilho. Reiterou: “Brevemente teremos a solução do assassinato”.

O problema de certos espetáculos é que o público não está devidamente ensaiado. “Queremos respostas“, bateu Monica Benicio, a viúva de Marielle. Lewandowski vem do Supremo Tribunal Federal. Ali, há dois tipos de ministros. Alguns acham que são Deus. Os outros têm certeza. Na pasta da Justiça, a maior decepção de Lewandowski é a descoberta gradativa de que também está sujeito à condição humana.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *