23/02/2024 - Edição 525

Brasil

Cursinho que exaltou sexo com cadáver age como escola do crime para policiais

Fundador do AlfaCon, o ex-PM Evandro Guedes, explica como “estuprar” uma mulher morta: e ele acha que está tudo bem

Publicado em 05/12/2023 2:19 - Leonardo Sakamoto - UOL

Divulgação Arquivo Pessoal

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Mais um vídeo com uma aula do AlfaCon, curso preparatório para concursos públicos de carreiras de agentes de segurança, viralizou com uma apologia a um crime bizarro. Neste caso, o seu fundador, o ex-policial militar Evandro Guedes exalta a violação de um cadáver de uma mulher, crime previsto no artigo 212 do Código Penal.

Usando as assistentes de palco do programa Pânico como exemplo, ele afirmou: “Meu irmão, com aquele ‘rabão’. E ela infartou de tanto tomar ‘bomba’ na porta do necrotério. Duas da manhã, não tem ninguém, quentinha ainda. O que você vai fazer? Vai deixar esfriar? Meu irmão, eu assumo o fumo de responder pelo crime”.

E foi além, ensinando a usar um secador de cabelo para esquentar o corpo frio antes de se satisfazer, dizendo que esse seria o “mais feliz da sua vida, irmão”. E que a pena pelo crime é pequena, valendo responder por ele.

Depois, quando o caso repercutiu negativamente, culpou a interpretação da esquerda – covardia comum ao bolsonarismo radical, que sistematicamente terceiriza a responsabilidade por suas próprias ações e declarações diante da possibilidade de punição.

Não é a primeira vez que o cursinho se envolve em polêmicas por fazer apologia ao cometimento de crimes na formação de agentes de segurança.

Após a morte de Genivaldo de Jesus Santos, colocado em uma câmara de gás por policiais rodoviários federais em Sergipe, em maio do ano passado, a Uneafro Brasil e o Instituto de Referência Negra Peregum apresentaram notícia-crime ao Ministério Público do Paraná pedindo investigação contra professores e diretores da AlfaCon e o seu fundador, Evandro Guedes.

Em um vídeo, um professor da AlfaCon conta aos alunos que pretendem se tornar policiais como produziu uma câmara de gás semelhante à que matou Genivaldo. O vídeo, recuperado pela Ponte Jornalismo, era de 2016.

“Nesse interim que a gente ficou lavrando procedimento e ele estava na parte de trás da viatura, ele ainda tentou quebrar o vidro com um chute. O que a polícia faz? Abre um pouquinho, pega o spray de pimenta e taca… Foda-se! É bom pra caralho! A pessoa fica mansinha… Daqui a pouco eu só escutei assim “ah eu vou morrer, eu vou morrer”. Ai, eu fiquei com pena, abri de novo e disse ‘torturaaaa’. E fechei de novo”, diz o instrutor.

Naquele momento, através de nota, a empresa afirmou que “repudia qualquer tipo de prática discriminatória ou violência, seja física ou psicológica, contra civis”. E que “ciente da relevância do debate atual na sociedade, a empresa reforçará orientações e treinamentos direcionados aos times pedagógico e de recursos humanos”. Também disse que o professor que aparece nesse vídeo não fazia mais parte do curso desde 2018.

Em outra aula, outro docente fez apologia a outro crime: “Nada como uma tortura bem aplicada para entregar onde está. Se você não tortura, deixa comigo, eu faço isso, não tem problema nenhum. Minha consciência é livre e leve – e eu sou bom nesse troço, nossa… Eu tenho afinidade com isso daí, não tenho dó. E torturo até umas horas. Tortura é pontual: é curto, direto e reto”.

Já Evandro Guedes, fundador da empresa, relatando um caso de agressão em um estádio de futebol, usou termos como “criolada” e “favelados” para se referir aos torcedores.

Vídeos do cursinho também fazem incitação de crimes como tortura, racismo, homicídio, muitos dos quais considerados inafiançáveis e imprescritíveis pela legislação.

Em uma palestra no cursinho, em julho de 2018, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) disse que, para fechar o STF bastava um cabo e um soldado.”Cara, se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Você não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo. Não é querer desmerecer o soldado e o cabo, não.”

Policiais não são monstros alterados por radiação para serem insensíveis ao ser humano. Não é da natureza das pessoas que decidem vestir farda (por opção ou falta dela) tornarem-se violentas. Elas aprendem a agir assim. No cotidiano da instituição a que pertencem (e sua natureza mal resolvida), na exploração diária como trabalhadores, na internalização da missão de manter o status quo, na formação que tiveram.

O problema não se resolve apenas com aulas de direitos humanos, mas com uma revisão sobre o papel e os métodos da polícia em nossa sociedade. Setores estão impregnados com a ideia de que nada acontecerá com eles caso não cumpram as regras. E isso começa por aqueles envolvidos na formação dos profissionais.

Se há ausência de regulamentação de cursos preparatórios, que o Estado brasileiro trate de resolver essa lacuna. O que não é admissível é que eles sirvam para ajudar a confundir o policial com o bandido.


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