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Brasil

Com brasileiros presos em Gaza, embaixador de Israel ataca o Brasil

Caso Hezbollah: Dino rebate governo israelense e diz que "nenhuma força estrangeira manda na PF"

Publicado em 09/11/2023 11:48 - Leonardo Sakamoto (UOL), Victor Correia (Correio Biaziliense) - Edição Semana On

Divulgação Extremista Daniel Zonshine, que fez sombra a Bolsonaro na quarta (8), abriu fogo contra soberania brasileira. Nas redes, internautas pedem expulsão do diplomata.

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Representantes de Israel estão se aproveitando que o governo Lula precisa libertar 34 brasileiros que estão na Faixa de Gaza e, por isso, depende de decisão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, para ultrapassar o bom senso da diplomacia. Como dificilmente o Brasil vai expulsar um diplomata em meio à espera de uma autorização de saída de seus nacionais para o Egito, aproveitam para fomentar conflitos internos por aqui.

Dessa vez, o embaixador de Israel, Daniel Zonshine, se reuniu com o ex-presidente Jair Bolsonaro, antigo aliado de Netanyahu, e com parlamentares da oposição, em uma reunião na Câmara dos Deputados, sob a justificativa de apresentar um “filme sobre as atrocidades do Hamas”.

Mais do que uma sessão sangrenta de cinema, o evento teve o objetivo de gerar constrangimento para o governo Lula – que, desde o início do conflito entre Tel Aviv e Hamas vem se engajando em uma solução de cessar-fogo imediato e instalação de corredores humanitários. E isso não interessa ao governo de extrema-direita de Netanyahu neste momento.

O encontro foi usado para ampliar os ataques de apoiadores do ex-presidente contra o atual governo por conta da posição brasileira, crítica ao Hamas, mas também aos crimes de guerra israelenses. Ou seja, o evento com o embaixador foi usado pelo bolsonarismo para sua guerra ideológica interna.

E isso irritou não apenas o Palácio do Planalto, mas o próprio Itamaraty, que vinha tentando acalmar o restante do governo diante da demora de Israel de liberar os brasileiros. O embaixador Zonshine culpa o Hamas por isso, mas ninguém na gestão de Lula acredita.

Não é proibido um embaixador estrangeiro se reunir com a oposição de um país em que está. Porém, no atual momento delicado, conviria a um diplomata ter tato, ainda mais quando Israel segue dificultando a saída de brasileiros. Para muitos, a reunião mostra que o tato foi para o espaço.

Não custa lembrar que a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, como lembra o doutor em Direito Internacional e advogado em direitos humanos, Jefferson Nascimento, obriga que os representantes de país estrangeiros tratem de questões de Estado com o Ministério das Relações Exteriores.

Preocupada com as imagens que chegam de Gaza, com corpos de crianças palestinas, que estão aumentando os protestos contra o conflito em todo o mundo, a diplomacia israelense vem fazendo essas sessões de exibição de vídeos com o ataque terrorista do Hamas, que deixou 1400 mortos. Até agora, os bombardeios e o cerco de Israel mataram 10.569 em Gaza.

No dia 1º de novembro, sessão semelhante foi organizada pelo Consulado de Israel, em São Paulo, convidando jornalistas para assistir. O auxiliar de defesa da Embaixada de Israel no Brasil, Semion Gamburg, reproduziu o vídeo com cenas chocantes.

Muitos no governo e nas redes defendem a expulsão do embaixador ou que, ao menos, ele seja convocado para dar explicações. O assessor especial de Lula, Celso Amorim, já fala de “genocídio” em Gaza em reuniões internacionais. Para além de ter que tomar cuidado pelos brasileiros na Palestina, o Brasil quer se manter como interlocutor e mediador do conflito.

O fato é que, com a demora injustificada em liberar brasileiros por parte de Israel, mortes de nossos patriotas cairão na conta de Tel Aviv e vai forçar Brasília a uma resposta dura.

Caso Hezbollah: Dino rebate Israel e diz que “nenhuma força estrangeira manda na PF”

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, rechaçou um suposto uso político da operação que prendeu dois suspeitos de planejar ataques terroristas no Brasil — possivelmente ligados ao Hezbollah — pelo governo de Israel. Em postagem nas redes sociais nesta quinta-feira (9/11), Dino declarou que aprecia a cooperação internacional, mas rejeitou o uso político da ação e a antecipação de informações pelos israelenses.

Na postagem, Dino esclareceu que as investigações no Brasil nada têm a ver com a guerra no Oriente Médio, que “nenhuma força estrangeira manda na Polícia Federal” e que líderes estrangeiros não podem antecipar resultados de investigações que ainda estão em andamento.

“O Brasil é um país soberano. A cooperação jurídica e policial existe de modo amplo, com países de diferentes matizes ideológicos, tendo por base os acordos internacionais. Nenhuma força estrangeira manda na Polícia Federal do Brasil. E nenhum representante de governo estrangeiro pode pretender antecipar resultado de investigação conduzida pela Polícia Federal, ainda em andamento”, escreveu o ministro da Justiça em sua conta no X (antigo Twitter).

1.O Brasil é um país soberano. A cooperação jurídica e policial existe de modo amplo, com países de diferentes matizes ideológicos, tendo por base os acordos internacionais.

2.Nenhuma força estrangeira manda na Polícia Federal do Brasil. E nenhum representante de governo…

Ontem (8), uma operação deflagrada pela PF prendeu dois suspeitos de planejarem ataques terroristas no Brasil contra instituições da comunidade judaica. A suspeita é que ambos sejam ligados ao Hezbollah, e que a organização terrorista estaria recrutando brasileiros. A PF atuou em cooperação com a Mossad, o serviço secreto israelense.

Dino frisou ainda que os mandados de prisão cumpridos ontem tiveram origem no Poder Judiciário Brasileiro, e que é dever da Polícia Federal investigar os indícios. As operações da PF tiveram início antes do conflito, que já dura mais de um mês.

“Apreciamos a cooperação internacional cabível, mas repelimos que qualquer autoridade estrangeira cogite dirigir os órgãos policiais brasileiros, ou usar investigações que nos cabem para fins de propaganda de seus interesses políticos”, rebateu ainda Dino. Segundo ele, os resultados da investigação da PF, técnicos e isentos, serão enviados ao Judiciário com provas exclusivamente produzidas pelas autoridades brasileiras.

Netanyahu confirmou participação da Mossad

O primeiro-ministro da Israel, Benjamin Netanyahu, comentou a operação ainda ontem. “A Mossad agradece aos serviços de segurança brasileiros pela prisão de uma célula terrorista que era operada pelo Hezbollah para ataques em alvos israelenses e judeus no Brasil”, disse Netanyahu, também no X. “Considerando o plano de fundo da guerra em Gaza contra o a organização terrorista Hamas, o Hezbollah e o regime iraniano continuam a operar ao redor do mundo para atacar alvos israelenses, judeus e ocidentais”, acrescentou. Israel acusa o Irã de financiar e operar o Hezbollah, que atua no Líbano, o que o Irã nega.

A preocupação do governo com as falas de Israel é que isso possa afetar a posição diplomática do Brasil, que não endossa nenhum dos lados da guerra e defende o cessar-fogo, especialmente devido ao alto número de vítimas em Gaza – mais de 10 mil pessoas já foram mortas em bombardeios e na invasão israelense.

Especialista diz que investigação da PF não bate com modus operandi do Hezbollah

Karime Cheaito, especialista em questões relacionadas ao Líbano, afirmou que a investigação da Polícia Federal não bate com o modus operandi do Hezbollah.

“O Hezbollah é, antes de tudo, um grupo nacionalista libanês que é um extremo aliado do Irã. Uma arquitetura de um atentado no Brasil, dentro das especulações de hoje, precisaria de um diálogo ou, pelo menos, anuência do Irã. A questão é que essas acusações não correspondem com o histórico e o modus operandi do Hezbollah”, disse.

A especialista também destacou a importância de analisar como a PF conduziu as investigações e reiterou que as denúncias partiram de Israel. No X, antigo Twitter, Israel declarou que a Mossad, a agência de inteligência do país, colaborou com as atividades da PF no Brasil.

“A gente precisa ver como essas investigações foram feitas, lembrando que a PF foi acionada a partir de uma denúncia de suspeita que veio do serviço de inteligência israelense. Agora, a PF brasileira precisa investigar a consistência dessa investigação”, afirmou.


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