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Brasil
IPCA e INPC voltam a subir. A deflação durou o tempo do período eleitoral
Publicado em 11/11/2022 1:42 - Leonardo Sakamoto (UOL), RBA - Edição Semana On
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Para enganar os eleitores, o governo Jair Bolsonaro reduziu a inflação de forma artificial, cortando o ICMS dos combustíveis nos Estados e segurando o preço nas refinarias da Petrobras. Passado o segundo turno, a realidade mentirosa criada pelo “mito” se esgota, com a inflação subindo após três meses de baixa.
Quem defendeu ardorosamente para os parentes, nesta eleição, que o governo havia domado a inflação, agora vai ter que pedir desculpas. Ou deveria.
Pior: o IPCA de outubro ficou em 0,59%, mas se considerarmos apenas os alimentos e bebidas, o índice foi de 0,72%. Ou seja, para os mais pobres, que têm boa parte do orçamento comprometido com comida, a vida ficou ainda mais difícil.
Para tentar se reeleger, o presidente gastou centenas de bilhões em ações eleitoreiras ou em compra de voto descarado. Uma PEC aprovada no Congresso Nacional livrou o seu pescoço de punições por isso. Agora, o Brasil começa a sentir a ressaca do mercado de voto bolsonarista.
De olho na reeleição, Bolsonaro aumentou o Auxílio Brasil para R$ 600, colocou 2,7 milhões de novos beneficiários, aumentou o Vale Gás, distribuiu vouchers para motoristas de caminhão e taxistas. Apesar de alguma melhora em sua intenção de voto entre quem ganha até um salário mínimo, segundo as pesquisas, o grosso dos mais pobres foram com Lula.
Uma das razões para isso é que não adianta despejar dinheiro se o preço de tudo está pela hora da morte. No acumulado do ano do IPCA, a alimentação em casa subiu 11,8%, enquanto a inflação geral 4,7%. A alta do leite está em pornográficos 41,2%.
Apesar de o governo Bolsonaro ter melhorado sua avaliação significativamente, a ponto de um empate entre quem aprovava e reprovava o governo, isso não se converteu em vantagem eleitoral significativa para o presidente uma vez que os mais pobres não tiveram a chamada percepção coletiva de melhora da qualidade de vida.
Pois não é a chegada dos R$ 600 às contas individuais dos beneficiários que muda o voto, mas as famílias sentirem que a vida delas e de sua comunidade está de fato melhor. O que inclui pagar as dívidas com a mercearia, ter geladeiras mais cheias, poder dar um dinheiro para os filhos comprarem um sacolé, tomar uma cerveja com os amigos no domingo. E a inflação dificultou que isso acontecesse.
Todos os estratos sociais sentiram a queda no preço da gasolina, causada pela redução do ICMS (quando o Congresso tirou à força recursos de educação, saúde e segurança nos Estados para baratear os combustíveis). Em outubro, a gasolina ainda teve deflação de 1,56%, influenciando bem menos a inflação geral que nos meses anteriores – em setembro, por exemplo, a queda foi de 8,33%. Vale lembrar, contudo, que os mais pobres, que têm nos alimentos seu principal gasto, não comem gasolina.
O ministro da Economia, Paulo Guedes, vende que os indicadores mostram que vida melhorou. Mas, novamente, os mais pobres não comem indicadores.
Não à toa, as pesquisas apontaram que dois terços dos cidadãos sabiam que, sob Bolsonaro, o aumento do Auxílio seria temporário e eleitoreiro e que, com Lula, a chance era maior do valor se manter. O presidente eleito está em Brasília, nesta semana, negociando com o Congresso uma forma de garantir recursos para manter o valor no ano que vem.
Se a economia tivesse melhorado o suficiente e os benefícios sociais da PEC da Compra dos Votos tivesse ajudado no poder de compra, e a comida desaparecida voltado à mesa dos trabalhadores, Bolsonaro poderia ter fisgado quem estava preocupado com sua sobrevivência material usando sua pauta de costumes e comportamento. Mas a realidade se impôs.
E como a baixa da inflação foi feita na marra, o Banco Central não se sente confortável para baixar os juros, o que mantém caro o financiamento de bens e serviços e se volta contra o próprio governo ao elevar o pagamento de juros da dívida.
Bolsonaro foi irresponsável do ponto de vista fiscal. A Faria Lima cobrou de Lula provas de que andaria na linha, mas fez vistas grossas quando Paulo Guedes implodia o teto em nome das necessidades eleitorais do presidente. Agora, Lula terá uma herança maldita para lidar. E mesmo com a volta à normalidade democrática e econômica e com o enfraquecimento da pandemia, não será fácil.
IPCA e INPC voltam a subir. A deflação durou o tempo do período eleitoral
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação, subiu 0,59%, após três meses de queda, provocada em grande parte pela guinada na política de preços dos combustíveis. O movimento já havia sido detectado pelo IPCA-15. Passado o período eleitoral, já se detecta redução menos intensa da gasolina. O IPCA teve alta em oito dos nove grupos e em todas as regiões pesquisada. E o INPC, outro índice divulgado nesta quinta-feira, pelo IBGE, também subiu (0,47%).
Assim, agora o IPCA acumula alta de 4,70% no ano e de 6,47% em 12 meses. Já o INPC soma 4,81% e 6,46%, respectivamente. A diferença entre os índices está, principalmente, na faixa salarial analisada. O primeiro vai de um a 40 salários mínimos e o segundo, de um a cinco.
Alimentos em alta
Dos oito grupos que compõem o IPCA com alta, Alimentação e Bebidas variou 0,72% e foi responsável por 0,16 ponto percentual da taxa. O IBGE cita aumento dos preços da batata inglesa (23,36%) e do tomate (17,63%), que somaram 0,7 ponto, além de cebola (9,31%) e nas frutas (3,56%). Entre as quedas, o leite longa vida (-6,32%) e o óleo de soja (-2,85%).
Enquanto a alimentação no domicílio subiu 0,80% em outubro, comer fora ficou 0,49% mais caro, em média. O lanche aumentou menos (de 0,74%, em setembro, para 0,30%) e a refeição teve alta maior (de 0,34% para 0,61%).
Gasolina cai menos, etanol sobe
Já a segunda maior alta entre os grupos foi de Saúde e Cuidados Pessoais: 1,16%. Destaque para higiene pessoal (2,28%) e planos de saúde (1,43%), com impactos de 0,09 e 0,05 ponto, respectivamente.
Por sua vez, o grupo Transportes, que vinha caindo nos últimos meses, passou de -1,98% para 0,58%. Os combustíveis ainda tiveram redução, de 1,27%, bem menos intensa do que em setembro (-8,50%). Diminuíram os preços médios de gasolina (-1,56%), óleo diesel (-2,19%) e gás veicular (-1,21%), enquanto o do etanol aumentou (1,34%). Com alta de 27,38% no mês, as passagens aéreas contribuíram com 0,16 da taxa mensal do IPCA.
Ainda nesse grupo, os preços dos transportes por aplicativos, que haviam aumentando no mês anterior, desta vez caíram (-3,13%). O mesmo aconteceu com o ônibus urbano (-0,3%), com redução na tarifa aos domingos em Salvador.
Roupas mais caras
No Vestuário (alta de 1,22% no mês passado), o IBGE cita roupas masculinas (1,70%) e femininas (1,19%). Esse grupo acumula aumento de 18,48% em 12 meses. É a maior variação entre os nove que formam o IPCA.
Já Habitação subiu menos do que em setembro (de 0,60% para 0,34%). Os preços do gás de botijão, que haviam aumentado, agora caíram (-0,67%, em média), enquanto a energia elétrica teve alta menos intensa (0,30%). Além disso, a taxa de água e esgoto aumentou 0,74%, com reajuste em uma concessionária na região de Porto Alegre.
Aumento em todo o país
O único grupo que registrou queda em outubro foi Comunicação (-0,48%). O resultado foi puxada pelo item telefonia móvel, que com -2,05% representou impacto de -0,03 ponto no índice mensal.
Entre as áreas pesquisadas, o IPCA variou de 0,20% (Grande Curitiba) a 0,95% (região metropolitana de Recife). Em 12 meses, o índice vai de 4,46% (Porto Alegre) a 8,21% (Salvador). Na Grande São Paulo, onde o índice mensal foi de -0,32% para 0,66%, agora o IPCA som 7,18%.
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