22/04/2024 - Edição 540

Brasil

Cinco surpresas do Censo 2022

Atraso no levantamento foi uma das piores 'heranças malditas' de Bolsonaro a Lula

Publicado em 29/06/2023 9:19 - Mariana Alvim (BBC Brasil), Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Tânia Rêgo - Abr

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A última edição da pesquisa censitária realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi feita em 2010 e, pela lei, ela não poderia demorar mais de 10 anos para ser feita — ou seja, deveria ter ocorrido em 2020. Mas a nova edição só foi realizada entre 1º de agosto de 2022 e 28 de maio de 2023 (fase de coleta e apuração de dados) e divulgada agora.

A primeira etapa de divulgação, que traz números da população do país, de Estados e municípios, revela que a população brasileira aumentou 6,5% e que várias capitais brasileiras diminuíram em população.

Nos próximos meses, serão divulgadas novas informações do Censo — por exemplo, sobre povos indígenas, migração e religião —, mas ainda não há um calendário fechado.

A seguir, confira cinco destaques das primeiras informações reveladas pelo Censo 2022, que visitou 106,8 milhões de endereços em todo o Brasil.

  1. População aumentou, mas taxa foi a menor já registrada

A população do Brasil superou 203 milhões (203.062.512), segundo o Censo 2022. É um acréscimo de 12,3 milhões de pessoas ao total registrado no Censo 2010 (190.755.799).

A data de referência para esse e outros números da nova pesquisa é a meia-noite do dia 31 de julho para 1º de agosto de 2022. Portanto, as pessoas nascidas depois dessa data não estão contabilizadas no Censo 2022.

Ao mesmo tempo, a taxa média de crescimento anual da população brasileira foi a menor já registrada desde 1872: 0,52%.

O IBGE afirma que, com a redução dos níveis de mortalidade a partir nos anos 1940 e o declínio dos níveis de fecundidade nos anos 1960, começou nos anos 1970 uma diminuição na taxa de crescimento populacional.

Segundo projeções populacionais — inclusive do IBGE —, em algum momento nas próximas décadas a redução nessa taxa de crescimento vai se refletir em uma redução no tamanho da população brasileira.

  1. Centro-Oeste passou a ser região com maior taxa de crescimento

Vale dizer que, quando falamos em crescimento de população, ela reflete tendências de fecundidade e mortalidade, como falado acima, e também de migração.

Como está, então, o crescimento da população nas diferentes áreas do país?

Embora todas as regiões, assim como o Brasil, estejam com uma taxa média de crescimento anual cada vez menor, o Centro-Oeste aparece no Censo 2022 com uma taxa duas vezes maior que a média nacional.

Enquanto a taxa brasileira anual foi de 0,52%, a do Centro-Oeste foi de 1,23% — a maior no Brasil. Em 2010, a taxa de crescimento do Centro-Oeste foi de 1,9%.

Nos Censos de 2010 e 2000, a região que tinha a maior taxa de crescimento era o Norte, cuja taxa caiu bastante na edição atual: de 2,09 em 2010 para 0,75 em 2022.

Somente com novos dados do Censo e de futuras pesquisas será possível explicar esse crescimento no Centro-Oeste, mas alguns municípios nos dão pistas. Por exemplo, considerando as cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes, aquela que teve a maior taxa de crescimento da população foi uma cidade goiana: Senador Canedo, com taxa anual de 5,23%.

Esse município foi o que teve também o maior aumento percentual no total da população: em 2010, tinha 84.443 habitantes, passando para 155.635 em 2022 — um crescimento de 84,3%.

Há várias outras cidades do Centro-Oeste no ranking das cidades que mais cresceram, como Sinop (MT) e Sorriso (MT).

O IBGE detectou, no novo Censo, o crescimento populacional em vários municípios no entorno de capitais, como a própria Senador Canedo (próxima a Goiânia). Outros exemplos são Fazenda Rio Grande (Curitiba); Palhoça (Florianópolis); Maricá (Rio de Janeiro); Valparaíso de Goiás e Águas Lindas de Goiás (Distrito Federal), São José de Ribamar (São Luís) e Santana de Parnaíba (São Paulo).

No Censo 2022, além das regiões já citadas, o Nordeste aparece com taxa anual de crescimento de 0,24%; o Sudeste, de 0,45%; e o Sul, de 0,74%.

  1. Sudeste ainda concentra quase metade da população

Apesar da taxa média de crescimento anual do Sudeste ser a segunda menor do país, atrás do Nordeste, a região é casa para 41,8% da população brasileira — somando 84,8 milhões de habitantes.

São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, que são os três Estados mais populosos do Brasil e que pertencem à região, concentram 39,9% da população brasileira.

Em seguida, a maior região em população é o Nordeste (26,9%), seguida por Sul (14,7%), Norte (8,5%) e Centro-Oeste (8%).

  1. Capitais como Rio de Janeiro e Salvador diminuíram em população, enquanto outras cresceram

A lista dos municípios mais populosos é liderada por São Paulo (11.451.245 habitantes), Rio de Janeiro (6.211.423) e Brasília (2.817.068).

Mas o Rio de Janeiro é um dos exemplos de capitais que viram sua população diminuir entre as edições de 2010 e 2022: caiu de 6.320.446 para 6.211.423 (-1,7%).

Também registraram diminuição Fortaleza (-1%), Salvador (-9,6%), Belo Horizonte (-2,5%), Recife (-3,2%), Porto Alegre (-5,4%) e Belém (-6,5%).

Enquanto isso, algumas capitais tiveram aumento da população, como São Paulo (1,8%), Brasília (9,6%), Manaus (14,5%), Curitiba (1,2%), São Luís (2,3%) Maceió (2,7%), Campo Grande (14,1%), Teresina (6,4%) e João Pessoa (15,3%).

A reportagem não teve acesso à lista completa capitais e suas populações, apenas das capitais mais populosas — por isso, algumas capitais do país não estão mencionadas acima.

  1. Número de moradores por domicílio diminuiu

As últimas três edições do Censo mostram que o número de moradores por domicílio (a chamada densidade domiciliar) vem diminuindo: em 2000, a média era de 3,76 moradores por lar; em 2010, esse número era 3,31; e em 2022, 2,79.

Isso se relaciona a outro dado revelado pelo novo Censo: o número de domicílios aumentou 34% desde 2010, chegando a 90,7 milhões — ou seja, a população parece estar dividida em um maior número de lares, diminuindo o número de moradores em cada um deles.

O Norte tem a maior densidade domiciliar (3,3 moradores por domicílio), seguida pelo Nordeste (2,9), Centro-Oeste (2,78), Sudeste (2,69) e Sul (2,64).

Atraso no Censo foi uma das piores ‘heranças malditas’ de Bolsonaro a Lula

Se por um lado o momento é de alívio porque temos informações frescas que serão úteis para orientar decisões de governos, empresas e da sociedade, por outro é de lamento. Afinal, se o Brasil não tivesse sido governado por Bolsonaro, o Censo muito provavelmente teria vindo um ano antes, evitando um apagão estatístico.

A coleta de dados que estava prevista para ir a campo em 2020 foi adiada para o ano seguinte devido às restrições sanitárias trazidas pela pandemia de covid-19. Até aí, é o imponderável. Melhor suspender do que transformar recenseadores em superespalhadores de vírus.

O problema é que, em 2021, o levantamento foi novamente adiado devido a um corte de verbas de 96% no orçamento. A previsão era gastar R$ 2 bilhões naquele ano (o que já seria uma sombra da estimativa de R$ 3,4 bilhões de 2019), mas o valor foi reduzido para míseros R$ 72 milhões.

A retirada da verba foi feita pelo Congresso Nacional, mas a decisão de desidratar o orçamento do IBGE coube ao governo Bolsonaro. “O Censo ficou inviabilizado, é uma decisão de governo. Só aprovou o que o governo queria”, afirmou o deputado Felipe Carreras (PSB-CE), relator setorial do Ministério da Economia no Orçamento na época.

O problema é que os dados do Censo orientam desde o tamanho dos repasses do Fundo de Participação dos Municípios, que abastecem prefeituras pobres, até a metodologia das pesquisas eleitorais. Sim, a estatística se baseia na proporção de determinados grupos no universo da população. Na falta de uma contagem universal, muitos institutos estavam usando a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua, que se mostrou numericamente bem diferente do Censo.

O Supremo Tribunal Federal determinou, em maio de 2021, que o governo Bolsonaro garantisse recursos para que o levantamento fosse realizado em 2022. Se não houvesse pressão, talvez o governo Lula é que tivesse que ir a campo coletar dados, o que faria com que tivéssemos um Censo 2023 – 13 anos após o último levantamento de 2010.

O Brasil sempre produziu números de qualidade, nossos institutos têm renome internacional e os trabalhadores desses órgãos são de grande competência. Mas os últimos quatro anos foram sinistros para quem trabalha com levantamento de dados, uma vez que o governo passado, insatisfeito com a realidade, comprou brigas com ela. Culpou termômetros pelas febres que encarava.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, menosprezou o questionário do Censo. “Vamos tentar, pelo amor de Deus, simplificar”, afirmou no dia 22 de fevereiro de 2019, sugerindo a redução do questionário. “Se perguntar demais você vai acabar descobrindo coisas que nem queria saber. Sejamos espartanos, façamos as coisas mais compactas e vamos tentar de toda forma ajudar”, disse.

O então presidente Jair Bolsonaro afirmou que a metodologia de cálculo de desemprego do IBGE estava errada porque não concordava com ela.

O general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional na época, disse que as taxas de desmatamento eram manipuladas e infladas.

Osmar Terra, então ministro da Cidadania, reclamou que não confiava em pesquisa da Fiocruz, de renome internacional que foi fundamental para a produção de vacinas contra a covid-19. Aliás, a atual ministra da Saúde, Nísia Trindade, é ex-presidente da instituição.

O ex-chanceler Ernesto Araújo não acreditava em mudanças climáticas e afirmou que o aumento da média da temperatura global estava ocorrendio porque estações de medição de temperatura que estavam no “mato” hoje estariam no “asfalto”.

Aliás, após dizer que tinha a “convicção” de que dados de desmatamento da Amazônia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) eram “mentirosos” e ouvir uma resposta dura de Ricardo Galvão, então chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Bolsonaro revelou que o seu objetivo com as críticas era maquiagem mesmo.

Disse que estava preocupado com dados que podiam “prejudicar o país”, ser “propaganda negativa” ao Brasil no exterior. E que se Galvão tivesse identificado dados alarmantes, deveria ter procurado seus superiores para avisar por questão de “responsabilidade” e “patriotismo”. O cientista, hoje, está à frente do CNPq.

Os ataques sistemáticos do governo Bolsonaro aos números e às instituições que os calculam afetou a coleta de dados do próprio Censo. A taxa dos que não responderam ao questionário chegou a 1,57%, em 2010, e de 4,23%, em 2022.

O presidente interino do IBGE, Cimar Azeredo, saiu em defesa dos números, dizendo que eles são consistentes. Mas reconheceu que a coleta saiu prejudicada, pois o levantamento começou em meio a uma “eleição extremamente polarizada”. E que as críticas de Bolsonaro ao instituto “de alguma forma têm um impacto”.

O governo passado foi um motorista que conduziu o país por uma estrada esburacada e, ao invés de usar toda informação possível para uma travessia tranquila, gritava que as placas sinalizando “pista escorregadia” eram fake news.

Após um esperado acidente, lamentava o ocorrido dizendo que nunca desconfiou das placas ou as culpava por uma suposta falta de clareza – e criticava quem dizia que ele não sabia dirigir. Isso seria engraçado se nós não fossemos nós os passageiros desse ônibus, que não contava com cinto de segurança.

Políticos pouco afeitos à democracia, quando colocados contra a parede, tendem a reduzir a transparência de informações às quais a sociedade tem acesso a fim de adaptar a realidade à sua narrativa.

Não foi à toa que veículos de comunicação se juntaram em um consórcio, em junho de 2020, para apurar e divulgar os dados sobre casos e óbitos por covid-19 diariamente. Isso surgiu a partir do momento em que o Ministério da Saúde começou a fazer malandragem com a sua divulgação uma vez que os números de mortos começavam a incomodar. Nem os mortos Jair quis contar. Afinal, como ele mesmo disse, “eu não sou coveiro”.

Uma coisa, contudo, não podemos negar. Foi um governo que honrou suas origens. Diante de cenários negativos, torturou números até que eles gritassem o que ele deseja ouvir.


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