22/04/2024 - Edição 540

Brasil

Cientistas e entidades defendem jornada de trabalho de quatro dias na semana

Estudos indicam que semana de trabalho mais curta pode aumentar a produtividade e reduzir o cansaço. Para defensores da proposta, mudança poderia ainda trazer benefícios para o meio ambiente

Publicado em 23/06/2023 9:45 - RBA, DW - Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) divulgou editorial, assinado pelo presidente da entidade, o professor e filósofo Renato Janine Ribeiro, em defesa da jornada de trabalho de quatro dias. A ideia é ampliar a qualidade de vida dos trabalhadores, sem prejudicar a produtividade das empresas. Outras entidades, inclusive internacionais, concordam. Caso do Fórum Econômico Mundial.

Diferentes países já testam o modelo. Entre eles, muitos da União Europeia e até mesmo o Chile, na América do Sul. “Trabalhe de forma mais inteligente, não mais dura, tem sido o mantra dos consultores de gestão há décadas. Mas e se você simplesmente trabalhasse menos? Há cada vez mais evidências de que abandonar a semana de trabalho convencional traz benefícios tanto para empregadores quanto para funcionários”, defende o Fórum Econômico Mundial.

O ex-ministro Janine apela no mesmo sentido. “Nos últimos cem anos se consolidaram as oito horas diárias, que não foram reduzidas sequer de um minuto (…) O fato é que nos países desenvolvidos, a ideia de um tempo estendido de lazer está avançando célere. E por isso é mais que hora de trazê-la para nosso meio”, afirma.

Cada vez mais estudos rechaçam o argumento, basicamente empresarial, de que a redução da jornada afetaria a produtividade. “O maior já realizado sobre o assunto (no Reino Unido), conduzido durante seis meses, e envolveu cerca de 2.900 funcionários, em 61 companhias. Segundo o que se extrai do relatório final, os principais benefícios da semana de 4 dias incluem: redução nos casos de burnout, diminuição nos níveis gerais de ansiedade e fadiga, bem como a percepção, por parte dos funcionários, de uma relação mais equilibrada entre vida pessoal e trabalho”, aponta artigo da Inova Social.

Evolução e trabalho

O pensamento social, no bem-estar do trabalhador, faz parte do ideário progressista, particularmente com a criação de sindicatos, no início do século 20. Foi a partir da atuação sindical que se passou a combater mazelas como o trabalho infantil e jornadas que chegavam a 70 horas.

Assim, enquanto o setor empresarial se vale de mudanças provocadas pela tecnologia para cortar empregos, os trabalhadores seguem em jornadas exaustivas. Além de reféns de doenças mentais cada vez mais frequentes, sem tempo ou disposição para atividades da vida social.

Aumento de produtividade

Então, diante desse quadro, pensadores começam a questionar mesmo se vale a pena, inclusive economicamente às empresas, exaurir seus funcionários. “Trabalhar quatro dias por semana significa que as pessoas realizam mais em menos tempo. Em 2019, a Microsoft Japan introduziu uma semana de trabalho de quatro dias e relatou um aumento de 40% na produtividade”, afirma o Fórum.

“Houve resultados semelhantes nos testes globais de 2022, com os funcionários se comprometendo a realizar 100% do trabalho normal em 80% do tempo. Quando questionados sobre a melhoria da produtividade durante o teste em uma escala de 1 a 10, onde 1 era negativo e 10 era muito positivo, os empregadores deram uma pontuação de 7,7, (…) As medidas de estresse, exaustão, fadiga e conflito entre trabalho e família de cada funcionário diminuíram.”

Efeito sobre o clima

Já sobre a questão climática, a entidade pondera os benefícios. Aliado a políticas de trabalho remoto, estas medidas, que melhoram a vida dos trabalhadores, podem impactar positivamente no futuro da humanidade. “Com um dia a menos de trabalho, o tempo gasto em deslocamento por semana era esperado para diminuir e foi exatamente o que aconteceu, caindo de 3,5 horas para pouco menos de 2,6 horas – uma redução de 27%. Mas uma surpresa maior foi a redução geral das pessoas que se deslocam de carro, de 56,5% para 52,5% dos funcionários.”

Juliet Schor, economista e professora de sociologia no Boston College, nos EUA, diz que há ligações claras entre a pegada climática e as horas de trabalho – pelo menos em países de alta renda.

“O que descobrimos é que países com longas jornadas de trabalho têm altas emissões de carbono, e países com jornadas de trabalho curtas têm emissões de carbono mais baixas”, disse Schor.

Um artigo de sua coautoria em 2012 analisou os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) entre 1970-2007 e concluiu que uma redução de 10% nas horas de trabalho poderia reduzir a pegada de carbono em 14,6%.

Um outro estudo, realizado em 2021 pelo grupo ambiental britânico Platform, previu que, ao mudar para uma semana de trabalho de quatro dias até 2025, o Reino Unido poderia reduzir suas emissões em 20%, ou cerca de 127 milhões de toneladas. Isso é mais do que toda a pegada de carbono da Bélgica.

De onde viriam essas economias? De acordo com o estudo, um dia a menos de expediente pode reduzir o consumo de energia nos locais de trabalho, diminuir as emissões decorrentes dos deslocamentos e incentivar mudanças sustentáveis no estilo de vida.

Mas deixando de lado uma carga semanal de quatro dias, simplesmente trabalhar mais em casa – como muitas pessoas se acostumaram a fazer durante a pandemia – também pode resultar em uma economia a semelhante de emissões por deslocamentos.

Mas o que é feito do tempo livre?

Mesmo que os trabalhadores se desloquem menos e os locais de trabalho economizem energia, qualquer benefício para o clima dependerá, em última análise, do que as pessoas fazem no dia de folga. Se os funcionários decidirem fazer uma viagem de carro ou um pegar um voo, isso pode aumentar acabar aumentando as emissões.

“Perguntamos às pessoas como elas estão gastando esse dia de folga e não parece ser de maneira intensiva em carbono”, diz Schor. “Será que elas estão simplesmente voando para algum lugar, especialmente em países como a Irlanda e o Reino Unido, onde há todos aqueles voos europeus baratos? Parece que isso não está acontecendo.”

Em vez disso, a pesquisa até agora mostrou que a maioria das pessoas fica perto de casa e dedica o tempo livre com hobbies, tarefas domésticas e cuidados pessoais. Schor diz que também houve uma mudança para estilos de vida mais sustentáveis.

Quão realista é uma semana de quatro dias?

Os experimentos recentes cobriram uma variedade de setores, desde fábricas até empresas de design, serviços de saúde e organizações sem fins lucrativos. Enquanto muitos optaram por dar folga aos funcionários às sextas-feiras, outros tinham modelos escalonados para garantir que todos os dias fossem ocupados. Mas reduzir as horas de trabalho não funcionou para todos.

Mark Roderick e os 40 funcionários de sua empresa de engenharia e suprimentos industriais Allcap participaram do teste no Reino Unido no ano passado. Mas pela própria natureza do negócio, os recursos acabaram ficando muito escassos.

“Muitas vezes, as pessoas vêm até nós porque temos em estoque o que elas precisam naquele dia. Somos como uma loja. Não podemos simplesmente dizer: ‘estamos fechados na sexta-feira'”, diz ele. “Processamos pedidos o dia todo, e essas coisas precisam ser feitas, caso contrário, elas se acumulam rapidamente.”

Durante a fase piloto, a empresa concedeu aos trabalhadores uma folga quinzenal. Mas, segundo Roderick, isso fez com que os funcionários ficassem ainda mais estressados, pois eles também tinham que assumir o trabalho dos colegas quando estes estavam de folga.

Como resultado, eles interromperam o esquema nos três principais pontos de comércio da empresa, mas implementaram a semana de quatro dias no centro de engenharia, onde a produção segue prazos diferentes.

“Lá, isso fez com que o pessoal ficasse mais descansado, não tão estressado e cometesse menos erros”, diz ele, acrescentando que houve também uma economia energética.

“É uma unidade de negócios que consome bastante energia. Então, para mim, foi mais fácil para dizer: ‘Ninguém vem na sexta-feira e não ligamos nada'”, conta.

Mais estudos pela frente

Schor diz que ainda são necessárias mais pesquisas sobre como as horas de trabalho mais curtas afetam as emissões e o uso de energia. Até agora, o foco tem sido principalmente na produtividade e no bem-estar do trabalhador.

Nos próximos meses, outros países devem conduzir projetos pilotos sobre o tema, como África do Sul, Europa, Brasil e América do Norte.

Não há dúvida de que os padrões de trabalho estão mudando. A pandemia de coronavírus nos levou a repensar a forma como trabalhamos, mostrando alternativas de arranjos flexíveis. E em muitos setores, o advento de novas tecnologias, como a inteligência artificial, também está criando novas possibilidades.

Para Schor, não há dúvidas: de uma forma ou de outra, a semana de quatro dias é o futuro.

No Brasil, a Constituinte de 1988 aprovou a diminuição da jornada de 48 para 44 horas semanais. O movimento sindical reivindicava 40 horas. Em alguns casos, a jornada foi reduzida por meio de negociação coletiva.


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