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Brasil
Sindicato avisou Enel que haveria apagão em SP, diz dirigente: privatização em xeque
Publicado em 07/11/2023 9:09 - Leonardo Sakamoto (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On
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Os seis mortos deixados pelo despreparo de São Paulo em lidar com eventos extremos deveriam ser o bastante para que priorizássemos a adaptação da capital e do interior para um futuro de mudanças climáticas tanto quanto a redução da nossa emissão de gases de efeito estufa na atmosfera. Infelizmente, não é assim que as coisas funcionam.
Todos os anos, tragédias climáticas, como deslizamentos e inundações, costumam ceifar com lama vidas pobres que moram nas periferias. Além disso, seis mortes passam despercebidas em um Estado de 44,4 milhões que viveu uma pandemia de covid-19 que só aqui matou mais de 181,6 mil.
Mas a lembrança do apagão, que atingia mais de 2 milhões de moradores mesmo passadas 27 horas da tempestade, incluindo bairros centrais da capital, pode funcionar como um aviso de que nossa vida mudou. Na manhã de ontem (6), mais de 410 mil continuavam sem energia, o que vem levando a uma série de críticas à distribuidora e aos governos.
Moradores de regiões protegidas, que nunca precisarão se preocupar se o seu barraco está em área de risco, sentiram seu cotidiano mudar com a falta de energia. Tragédia das tragédias, não há eletricidade para recarregar o celular para checar zap e redes sociais, por exemplo. Em alguns locais, o apocalipse: a internet caiu.
Ao mesmo tempo, empresas e consumidores perderam produtos e geladeiras, médicos e pacientes sofrem com a falta de luz e de geradores decentes e crimes foram cometidos com as ruas mais escuras.
A tempestade encontrou cidades com milhares de árvores sem a devida manutenção, com raízes fragilizadas ou comidas por cupins. Tudo isso com a Enel, concessionária de serviços públicos, operando despreparada, como se o clima não tivesse mudado. Ventos acima de 80 km/h podem derrubar árvores, mas São Paulo padeceu pela incompetência e o despreparo.
Responsabilizar o poder público e o setor privado é parte importante da questão, mas não a esgota. Esquentamos a temperatura média do planeta, aumentando a frequência de eventos climáticos extremos. Tempestades, como a que ocorreu nesta sexta, farão parte do nosso novo normal.
Precisamos preparar São Paulo para essa nova realidade, cuidando principalmente de quem pode perder a vida. Mas também atuar sobre a responsabilidade a cidade, e, portanto, nossa, para o aquecimento do planeta.
Por exemplo, parte da madeira extraída da Amazônia vem para a construção civil do Estado e somos grandes consumidores da carne bovina e de matérias-primas produzidas por lá, como minérios e soja. Atividades conectadas com desmatamento e queimadas. Sem contar que hidrelétricas são construídas, impactando o clima, para nos abastecer de energia.
Ao mesmo tempo, milhões de escapamentos de nossos carros, motos e caminhões pioram o efeito estufa, enquanto o aumento da malha de transporte de massa sobre trilhos segue devagar quase parando. E temos uma cobertura vegetal pequena e malcuidada em comparação ao nosso tamanho.
São Paulo é vítima do clima, mas também seu algoz. Até agora, a incompetência do poder público e do setor privado em preparar a capital e o Estado era mais sentida por apenas uma parte de seus habitantes. Se mortes não nos compadecem, que cada apagão após tempestade nos lembre que o tempo para medidas concretas está se esgotando.
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Sindicato avisou Enel que haveria apagão em SP com ciclones, diz dirigente
“A gente previu o que aconteceu. Avisamos a Enel que se houvesse um ciclone extratropical, São Paulo poderia ficar uma semana sem luz. O problema é crônico e não vai se resolver agora. Pode até piorar, se mudanças não forem feitas no modelo do setor elétrico.”
A avaliação foi feita pelo presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo, Eduardo Annunciato, o Chicão.
De acordo com o dirigente, para garantir que São Paulo não passe novamente pelo caos enfrentado desde sexta, é necessário avançar em três dimensões do problema: investimentos, recursos técnicos e política/regulação. E até repensar a natureza pública ou privada de empresas que prestam serviços essenciais, como luz e água.
Annunciato diz que o modelo atual do setor de distribuição de energia elétrica garante melhor remuneração à empresa por investimentos que ela fizer em novos ativos em contraposição aos investimentos em manutenção preventiva. Assim, ao invés de gastar com material de manutenção e podas de árvores em locais que costumam ter falhas, empresas preferem instalar religadores automáticos.
O equipamento fraciona e isola defeitos impedindo que ele afete o resto da rede e permitindo que uma equipe vá consertar. Assim, a empresa não gasta em fazer manutenção preventiva em toda a malha, mas apenas a corretiva nos pontos atingidos.
De acordo com o dirigente, isso pode funcionar em dias normais. Quando acontece um evento climático de grandes proporções, como o de sexta, defeitos ocorrem em muitos pontos da rede simultaneamente devido à falta de manutenção. E a estratégia com os religadores não dá conta.
A empresa diz que investiu mais de R$ 5 bilhões. A questão é o tipo de investimento.
Ao mesmo tempo, em sua avaliação, a Enel “abusou da redução de quadro de funcionários”. Pondera que ela fez programas de demissão voluntária e incentivou aposentadorias, ou seja, no geral, a ação não foi danosa aos trabalhadores. Mas teve consequências para os consumidores.
“A empresa perdeu memória técnica. O número de funcionários com experiência não foi resposto. Investiram na mão de obra terceirizada, que tem uma rotatividade tremenda e corpo menos qualificado para avaliar e atender os problemas”, diz. “Não é só a Enel, outras empresas privatizadas estão com o mesmo problema.”
O presidente do sindicato aponta que, em 2019, o número de empregados próprios da Enel estava em 7,7 mil, caindo para 3,9 mil agora. E lembra que a antiga proprietária da Eletropaulo, a AES, havia aumentado o número de funcionários diretos após um apagão de bairros em São Paulo causado por uma tempestade em 2014 (6.450, em 2014, 7.450, em 2015, 8.050, em 2016). Até que a Enel assumiu o controle em 2018.
Mudanças climáticas vão piorar a situação
Ele conta que o fundão da Zona Sul e da Zona Leste da capital e municípios como Diadema, São Bernardo do Campo e Juquitiba costumam ficar no escuro mesmo sem eventos como o de sexta. Mas como a empresa atende, na média, as metas estabelecidas, fica tudo ok.
“Se a Aneel fiscalizasse individualmente por cliente a ausência de energia e multasse as empresas imediatamente ao invés de olhar para o conjunto, ela teria que realizar essas manutenções preventivas”, diz o dirigente. Mas, segundo ele, tampouco há fiscais em número suficiente.
“O modelo foi mal arrumado e depois que privatizou a situação só vem definhando. E com as mudanças climáticas, a tendência é piorar ainda mais. Para resolver, vai ter que apertar as empresas”, avalia. Ele pondera, contudo, que para algumas pode deixar de ser economicamente vantajoso assumir o serviço se tiverem que cumprir mais requisitos.
Nesse caso, acredita que entraremos na discussão sobre o futuro dessa privatização. Por que se nenhuma empresa topar realizar as manutenções preventivas que precisam ser feitas, com um corpo de pessoal técnico capaz de avaliar e responder de forma imediata quando houver um problema e com as trocas de equipamentos velhos que forem necessárias, a questão da reestatização pode ser posta na mesa.
Ainda mais porque, em breve, esgota-se a concessão de 30 anos da Eletropaulo. E as concessionárias vão reduzir os investimentos até saberem se conseguirão renovar, e sob quais condições. “Estamos num momento delicado e crucial”, diz o dirigente. “Pois não adianta tirar a Enel se o modelo for o mesmo.”
Enquanto o caos envolvendo a empresa distribuidora segue, o governo de São Paulo corre para tentar privatizar a empresa paulista de saneamento básico, a Sabesp. Annunciato questiona: “Sem luz, eu até vivo, mas sem água?”
Os paulistas que sofrem com o apagão são felizes e não sabem
Cerca de 315 mil imóveis ainda estão sem luz em São Paulo depois do apagão da semana passada. A quatro pessoas por imóvel, seria algo como 1.260.000 pessoas sem luz; pouco mais da metade da população da Faixa de Gaza sem energia, e por tabela, sem água, a não ser a salgada do mar que, se bebida, provoca doenças.
O Exército de Israel, que partiu o enclave ao meio e bombardeia pesadamente a cidade de Gaza, a essa altura semidestruída, nega comida, transporte e assistência médica aos palestinos que morrem como moscas – mais de 10 mil até ontem. Os paulistas ainda às escuras reclamam de boca cheia. São felizes e não sabem.
Procura-se para São Paulo um prefeito que cuide das árvores
O brasileiro às vezes esquece. Mas algumas das suas principais aflições são municipais. Eventos como a tempestade que desligou da tomada milhões de domicílios e estabelecimentos comerciais em São Paulo vêm para lembrar que os brasileiros vivem nas cidades. E elas não estão preparadas para proteger os seus habitantes de flagelos tão previsíveis como as eruções climáticas extremas.
A saída para evitar novos apagões envolve a transferência da fiação dos postes para o subterrâneo e uma adequada conservação das árvores. A Enel, companhia concessionária de energia, não se programou para apressar o enterro dos fios. Em relação às árvores, a prefeitura faz por pressão um trabalho que deixou de realizar por precaução. Desde sexta-feira, removeu 172 árvores que tombaram sobre a fiação e trancaram ruas. Nesta segunda, aguardava o desligamento dos postes para remover outras 125 árvores.
As questões municipais —da limpeza das ruas à conservação dos bueiros, das opções de transporte coletivo à coleta de lixo— costumam ser relegadas a segundo plano no debate político. No noticiário, os assuntos locais são esmagados pelos megatemas nacionais —as viagens do presidente, as posições do Itamaraty sobre a guerra, as votações do Congresso, a disputa entre os gastadores e defensores da meta fiscal zero…
Até sexta-feira, o debate sobre a disputa pela Prefeitura de São Paulo, marcada para 2024, partia de uma mesma pergunta invariável: o melhor para a cidade é um prefeito apoiado por Bolsonaro ou um administrador vinculado a Lula? O apagão que ainda mantinha um número superior a 400 mil imóveis no breu na tarde desta segunda-feira, mais de 72 horas depois do temporal de sexta, forneceu a resposta.
Nem bolsonarista nem lulista. São Paulo precisa mesmo é de de um prefeito que queira podar as árvores da cidade. A tentativa de federalizar a eleição municipal adiciona ao descaso uma dose de escárnio. Para complicar, assiste-se a um jogo coletivo de empurra. Prefeito, governador e concessionário atribuem o apagão aos ventos e a outras forças do alheio. A agência reguladora federal nem regula nem fiscaliza. Oferece diálogo e compreensão a quem merece multa.
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