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Brasil
Levantamento mostra que maioria é contrária à isenção fiscal para o setor
Publicado em 18/02/2026 9:44 - Semana On
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A maioria dos brasileiros é contra a isenção de impostos para igrejas, templos e líderes religiosos e considera “absurda” a ostentação de pastores e autoridades religiosas que exibem luxo — de helicópteros e aviões a iates.
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Os dados são de uma pesquisa nacional encomendada pelo ICL e realizada pela Ágora Consultores, com quase 10 mil entrevistados, entre 17 e 23 de novembro de 2025, indicando que 60% defendem que todas as instituições religiosas devem pagar impostos e, dentro desse grupo, 35% afirmam que “não só devem pagar impostos, como deveriam ser mais fiscalizadas”. A percepção de privilégios fiscais e de opulência religiosa cresce justamente num país em que fé, mercado e representação eleitoral passaram a caminhar juntos — nem sempre em favor do interesse público.
A oposição à isenção se sustenta “de forma ampla” entre recortes distintos. Quando se inclui quem aceita algum tipo de cobrança com isenção específica para pequenas igrejas e templos, a abertura para taxação sobe para 71% dos pesquisados.
No tema da ostentação, o retrato é semelhante em magnitude: diante da imagem de um líder religioso “viajando de helicóptero, avião ou iate”, 62% consideram a situação “absurda”. Outros 28% adotam posição neutra (“depende”), alegando que, se o dinheiro vier de outras atividades, líderes religiosos teriam “direito” a luxos. Apenas 8% acham “normal”.
O dado mais revelador, porém, não está nas divergências: está na constância do repúdio à ostentação. Mesmo entre grupos que discordam sobre impostos, são minoritários os que normalizam cenas de vida opulenta entre líderes religiosos. A pesquisa registra como “normal” a ostentação para 8% dos evangélicos, 9% dos ateus, 11% dos espíritas e dos católicos, e só 2% entre seguidores de outras religiões. A variação existe, mas o piso de tolerância é baixo.
Religiosidade, ideologia e o mapa da discordância
O levantamento mostra um padrão esperado: os que dizem não acreditar em Deus são o grupo com menor abertura à isenção. Entre ateus/não crentes, 83% defendem cobrança para todos os templos, independentemente do tamanho — e 72% apoiam maior fiscalização das finanças das instituições religiosas.
No outro polo, o maior bastião de resistência aparece entre evangélicos: apenas 33% defendem cobrança de impostos para todos os templos; 46% afirmam que a isenção “é essencial para a liberdade religiosa”. É o grupo com maior proporção de defensores da isenção como “instrumento de liberdade”, quase o dobro do verificado entre católicos (para quem esse número fica em 24%).
Entre católicos, a abertura para cobrança em qualquer cenário é 57%, ligeiramente abaixo da média geral (60%), mas ainda muito acima do bloco evangélico.
A clivagem ideológica é ainda mais contundente. Entre os entrevistados que se dizem de esquerda, 87% defendem cobrança de impostos em qualquer cenário (e só 8% veem a isenção como válida). Entre os que se definem de direita, a proporção cai para 34%, com 42% apoiando a isenção.
No debate sobre ostentação, aparece uma faixa intermediária decisiva: os que respondem “depende” — aceitando luxo desde que venha de atividades fora da igreja. E, novamente, quem mais concede é o recorte evangélico: é o único em que a visão de que viajar de helicóptero/avião/iate é “absurdo” fica abaixo de 50% (46% “absurdo”; 45% “depende”). Entre católicos, “absurdo” sobe para 58%; entre espíritas, 72%; em outras religiões, 75%; e entre os que não acreditam em Deus, 78%.
Isenção, imunidade e Estado laico
O debate público costuma chamar de “isenção” o que, no coração do sistema, é imunidade tributária prevista na Constituição. A Constituição de 1988 veda a instituição de impostos sobre “templos de qualquer culto”, no artigo 150. Esse dispositivo foi historicamente justificado como uma barreira contra perseguições e como proteção ao livre exercício religioso — ideia compatível com democracias liberais que aprendem, por experiência, que o Estado pode tentar sufocar dissidências via tributação seletiva.
O problema é que, no Brasil real, a imunidade se move num terreno de interpretações e ampliações. O próprio STF já firmou entendimento de que entidades religiosas têm imunidade tributária sobre patrimônio, renda e serviços relacionados diretamente à atividade religiosa. E, ao mesmo tempo, o Congresso discute propostas para ampliar ainda mais esse alcance: a PEC 5/23, por exemplo, tramita para estender a imunidade a bens e serviços necessários à formação de patrimônio, geração de renda e prestação de serviços — ampliando o perímetro do benefício.
É aqui que a pesquisa bate como um sino: enquanto setores políticos buscam expandir a blindagem tributária, a maioria social expressa desconforto com a combinação entre privilégio fiscal e símbolos de riqueza.
A questão da laicidade ajuda a entender por que esse desconforto não é “antirreligioso”, mas institucional. Como sintetizou o ministro Luís Roberto Barroso, em debate no STF sobre ensino religioso, “o Brasil é um Estado laico, mas não é um Estado ateu”. A frase tem dupla leitura: a laicidade não autoriza perseguição à fé; mas também não legitima a conversão de crença em exceção permanente — especialmente quando isso envolve poder econômico e influência política.
Ostentação como sintoma social
A rejeição à ostentação — transversal, baixa em “normalização” — indica um traço sociológico clássico: sociedades podem aceitar que existam ricos, mas cobram coerência moral de quem reivindica autoridade espiritual. Em termos de cultura política, o “helicóptero do pastor” funciona como metáfora de um descolamento entre mensagem e prática — e esse descolamento aparece como escândalo moral inclusive entre fiéis.
Não por acaso, o próprio Papa Francisco, em registro público e verificável, afirmou: “Como eu gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres”. A frase não é um comentário sobre impostos no Brasil, mas expõe um princípio ético que atravessa tradições cristãs: a fé perde legitimidade quando vira vitrine de sucesso pessoal.
Em democracias, a disputa não é entre “religião” e “Estado”, mas sobre limites entre esfera pública e interesses privados — e sobre como evitar que o sagrado vire instrumento de acumulação sem escrutínio.
Tocqueville, ao observar a democracia americana no século XIX, resumiu um dilema que permanece atual: “Despotism may govern without faith, but liberty cannot” (“o despotismo pode governar sem fé, mas a liberdade não”). A advertência serve para lembrar que liberdade religiosa é pilar democrático; mas também sugere o outro lado: quando instituições religiosas se fundem a projetos de poder, a liberdade pode ser usada para justificar privilégios, não para proteger direitos.
O crescimento evangélico e o peso político do tema
Embora a pesquisa recorte opiniões, o pano de fundo é histórico: a presença evangélica no Brasil cresceu de forma acelerada nas últimas décadas. O Censo 2010 do IBGE registrou avanço de evangélicos de 15,4% (2000) para 22,2% (2010).
Essa transformação ajudou a reorganizar a arena pública: mais representação parlamentar, mais redes de mídia, mais capacidade de mobilização — e, consequentemente, maior sensibilidade política a qualquer pauta que pareça “ataque à fé”, mesmo quando o debate é sobre transparência fiscal, uso de recursos e concorrência justa.
Isso ajuda a explicar por que, entre evangélicos, a defesa da isenção aparece vinculada à “liberdade religiosa” (46%), enquanto, no conjunto, cresce a expectativa por cobrança e fiscalização. A divergência não é apenas teológica; é institucional e política.
Entre liberdade e privilégio
O dado central do levantamento — 60% a favor da cobrança para todas as instituições, com 35% defendendo também mais fiscalização — aponta para um desejo de simetria republicana: o cidadão comum, que paga impostos sobre consumo e renda, tende a rejeitar a ideia de “zonas de intocabilidade” quando elas se associam a riqueza exibida e pouca transparência.
Ao mesmo tempo, a pesquisa também registra uma cautela social importante: existe espaço, para 71% quando se incluem cenários com exceções, para diferenciar pequenas comunidades religiosas — frequentemente sustentadas por doações modestas e trabalho comunitário — de estruturas com grande capacidade de arrecadação e influência.
Em democracias, esse é o desafio: garantir liberdade de culto sem transformar fé em mecanismo de captura de recursos públicos indiretos, blindagem patrimonial e poder sem accountability. E, num país em que a desinformação e o cinismo corroem o debate público, vale lembrar a advertência de Hannah Arendt sobre regimes que prosperam quando a distinção entre verdade e mentira se dissolve. Em outras palavras: discutir imunidade tributária e fiscalização não é “perseguir religião”; é proteger a própria ideia de uma esfera pública onde regras valem para todos — inclusive para quem prega do alto do púlpito.
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