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Brasil
Setor de serviços e aumento salarial consolidam recuperação econômica pós-pandemia
Publicado em 31/01/2025 10:08 - Semana On
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Em meio a um cenário global de incertezas econômicas, o Brasil encerrou 2024 com uma taxa de desemprego de 6,2%, a menor já registrada para meses de dezembro desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), em 2012. A notícia, divulgada nesta sexta-feira (31) pelo IBGE, traz um retrato de um mercado de trabalho em recuperação consistente, impulsionado pelo setor de serviços e pelo crescimento de contratações formais.
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No mesmo período de 2023, a taxa de desocupação era de 7,4%, evidenciando uma queda de 1,2 ponto percentual em um ano. Embora a desocupação tenha apresentado leve alta de 0,1 ponto percentual em relação ao trimestre encerrado em novembro, o resultado reforça uma tendência de crescimento sustentável, com o país atingindo um recorde de 39,2 milhões de trabalhadores com carteira assinada em dezembro de 2024.
O motor econômico: setor de serviços lidera a recuperação
O setor de serviços foi o grande responsável pela expansão do mercado de trabalho em 2024. Atividades ligadas ao comércio e à reparação de veículos adicionaram 543 mil pessoas ao quadro de empregados, seguidas pelos setores de transporte, armazenagem e correio (+296 mil), alojamento e alimentação (+230 mil) e informação, comunicação e atividades financeiras (+461 mil). “O desempenho do setor de transportes, especialmente no último trimestre, foi diretamente influenciado pelo comércio eletrônico e datas comemorativas, como a Black Friday e as festas de fim de ano”, observou Adriana Beringuy, coordenadora da Pnad.
A construção civil também se destacou, com um aumento de 5,6% no contingente de trabalhadores, equivalente a 414 mil novos empregados, puxado pela intensificação das obras de edificações e reformas. A indústria geral seguiu o mesmo caminho, registrando 413 mil novos profissionais, um crescimento de 3,2% em relação ao ano anterior. Esse panorama reforça a visão de que o Brasil, após as retrações enfrentadas durante a pandemia, está retornando a níveis de ocupação semelhantes aos tempos pré-crise, mas agora com uma base mais ampla e diversificada.
Ganhos salariais e avanço da massa de rendimentos
Outro dado importante divulgado pelo IBGE foi o aumento do rendimento médio real do trabalhador brasileiro, que alcançou R$ 3.225 em 2024 — o maior valor da série histórica, superando inclusive os R$ 3.120 de 2014. O aumento de 3,7% no rendimento médio em relação a 2023 reflete tanto o fortalecimento dos vínculos formais de trabalho quanto a recuperação do poder de compra. De acordo com Adriana Beringuy, esse crescimento foi generalizado, beneficiando trabalhadores formais e informais.
A massa total de rendimentos também apresentou um avanço significativo. Entre setembro e dezembro de 2024, a soma de todos os rendimentos das pessoas ocupadas foi de R$ 328,9 bilhões, um aumento de 6,5% em relação ao mesmo período de 2023. Esses dados reforçam a importância da recuperação econômica não apenas no aumento do número de ocupados, mas também na qualidade da ocupação e nos ganhos financeiros das famílias brasileiras.
O mercado de trabalho e os ciclos econômicos brasileiros
Para compreender o significado desses números, é necessário situá-los no contexto histórico. Em 2014, último ano antes da crise econômica iniciada em 2015, o Brasil experimentava uma taxa de desemprego de 7%, resultado do crescimento econômico sustentado durante a década anterior. No entanto, a recessão econômica que seguiu, agravada pela crise política e pela pandemia de COVID-19, elevou as taxas de desocupação a picos superiores a 14% em 2021. A partir de 2022, com a reabertura econômica e políticas de estímulo ao consumo e ao investimento, o mercado de trabalho começou a apresentar sinais de recuperação.
A trajetória de queda do desemprego em 2023 e 2024 evidencia que o país está recuperando o fôlego econômico. No entanto, o desafio da inclusão social persiste: mesmo com os avanços, cerca de 6,8 milhões de brasileiros ainda buscam uma oportunidade de trabalho. Esse número, embora inferior aos 8 milhões de 2023, destaca a necessidade de políticas públicas para ampliar o acesso ao mercado e garantir a sustentabilidade desse ciclo de crescimento.
Desafios e perspectivas: a necessidade de políticas estruturais
O atual panorama do mercado de trabalho brasileiro não é apenas resultado de fatores conjunturais, como o aquecimento sazonal do final de ano, mas também de mudanças estruturais na economia. O crescimento do setor de tecnologia e a consolidação do comércio eletrônico demonstram que a digitalização tem potencial para criar novas oportunidades de emprego, mas também para acentuar desigualdades se não forem implementadas políticas de qualificação profissional adequadas.
Especialistas, como o sociólogo e economista francês Thomas Piketty, alertam que, sem políticas redistributivas e de investimento em educação e capacitação, os ganhos econômicos podem ser concentrados em uma parcela restrita da população. “O crescimento econômico por si só não é suficiente para garantir equidade; é preciso redistribuí-lo”, afirmou Piketty em sua obra O Capital no Século XXI.
Um momento de otimismo cauteloso
O desempenho do mercado de trabalho em 2024 oferece motivos para otimismo, mas também exige cautela. O crescimento expressivo da ocupação formal e o aumento dos rendimentos indicam uma recuperação sólida, mas o número ainda elevado de pessoas fora do mercado de trabalho e as disparidades regionais e setoriais são lembretes de que o progresso não é uniforme.
Para que os resultados sejam sustentáveis, será necessário um esforço conjunto entre governo, setor privado e sociedade civil, com foco na educação, inovação e ampliação de políticas inclusivas. O Brasil avança, mas a luta por um mercado de trabalho mais justo e acessível continua. Como disse o filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman: “A modernidade líquida nos apresenta incertezas, mas também oportunidades de mudança.” Que a mudança seja para todos.
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