13/04/2024 - Edição 540

Brasil

Bolsonaro diz que não há fome, mas 49 milhões na extrema pobreza discordam

Cadastro da miséria expõe ignorância e insensibilidade social de Bolsonaro

Publicado em 26/10/2022 11:07 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

Divulgação Victor Barone - Midjourney

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Os 10 milhões a mais de miseráveis que o Brasil ganhou nos últimos quatro anos, como mostra reportagem de Carlos Madeiro, no UOL, baseada em dados do CadÚnico, desmentem o próprio governo Jair Bolsonaro, que vem tentando encobrir a disparada da fome no país. O total de pessoas na extrema pobreza chegou a 49 milhões, 23% da população. Culpa do “fique em casa”? Não, culpa da inoperância da atual gestão. “Alguém já viu alguém pedindo um pão na porta, no caixa da padaria? Você não vê, pô”, afirmou Jair Bolsonaro no dia 26 de agosto. “Fome no Brasil? Fome pra valer. Não existe da forma como é falado”, disse.

Ele estava pessoalmente irritado com os dados da pesquisa Vox Populi encomendada pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, que aponta a fome escalando de 19 milhões, no final de 2020, para 33,1 milhões no início de 2022. Um mês depois, em 21 de setembro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, chamou de “mentira” esses dados, sem apresentar aqueles que, no seu julgamento, seriam os verdadeiros.

“É impossível ter 33 milhões de pessoas passando fome”, disse a uma plateia de empresários. Se estivesse falando a trabalhadores rurais ou da periferia de grandes cidades, talvez nem conseguisse terminar a fala diante da revolta. Tanto Bolsonaro quanto Guedes escoram sua certeza de que os brasileiros não passam fome no Auxílio Brasil. O que só reforça a desconexão deles com a realidade, uma incrível falta de empatia ou ambos.

Por exemplo, ficaram célebres como registro da fome as cenas de pessoas disputando ossos e carcaças bovinas no Rio de Janeiro e revirando a caçamba de um caminhão de lixo em Fortaleza. Seguidores mais radicais do presidente chegaram a dizer nas redes sociais que o PT havia contratado atores para fingir que estavam buscando comida apenas para atrapalhar o presidente. Se isso for verdade, o partido de Lula tem milhões de atores e atrizes espalhados por todo o Brasil, na porta de padarias, na saída de restaurantes, no final das feiras livres. Hollywood, tremei!

“O pão de cada dia quem me dá é o lixo”

Após o caso do Ceará viralizar, o MST junto com outros movimentos populares organizaram uma busca pelas famílias que reviravam o lixo e doaram cestas básicas com produtos de assentamentos rurais. Ao todo, 20 famílias foram beneficiadas. “Quando o caminhão chega, a gente tem que ser muito ligeira para pegar. Eles jogam, a gente tem quem correr para dentro da caçamba, tem que ser rápido. Os garis não podem dar na nossa mão, porque é o trabalho deles”, explicou, em um depoimento em vídeo, uma das mulheres que aparece revirando o lixo.

“O pão de cada dia quem me dá é o lixo. Todo dia, meus filhos e eu vamos para o lixo para comer.” Frisando: não é o governo, mas o lixo. O que faz do lixo melhor do que o governo para muita gente. A falácia de Bolsonaro e Guedes é facilmente contestada. Primeiro, a cesta básica é maior do que o valor do Auxílio Brasil em 12 das 17 capitais mensalmente acompanhadas pelo Dieese. Ou seja, para muita gente, o auxílio é menor do que o mês e, depois disso, a fome.

Segundo, porque os gastos de uma família vão muito além da alimentação, incluindo aluguel, transporte, vestuário. Terceiro, porque nem todos os que precisam recebem de fato o benefício. Há gente na miséria que não está lá, como pessoas em situação de rua – que tiveram um crescimento nos últimos anos.

“Tenho perguntado diariamente às pessoas se elas estão com o Auxílio. Muitos não porque faltam documentos. Por exemplo, para conseguir que a certidão de nascimento venha de sua cidade natal, às vezes há um custo que nem sempre os órgãos públicos bancam. Outras vezes, a pessoa não tem acesso a um smartphone para fazer seu cadastro”, explicou à coluna o padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo, logo após as declarações surreais de Bolsonaro sobre a pobreza. “Quem diz que não há fome é porque está vivendo em uma bolha, é insensível ou faz isso como ação política para minimizar os problemas”, lembrou Júlio.

Miséria não é só falta de dinheiro, mas de políticas de saúde, moradia, alimentação

Dados do CadÚnico mostram que aumentou em 66% a quantidade de família em situação de rua em pouco mais de quatro anos. Isso pode ser atribuído à melhoria na identificação desse segmento no cadastro, mas também ao aumento da pobreza extrema. Afinal, a crise que o governo foi incapaz de gerenciar não deixou cair as migalhas costumeiras da mesa para a população de rua. O que este governo nunca conseguiu entender é que não é apenas a transferência de renda que retira pessoas da miséria, mas executar o que está previsto na Constituição Federal para garantir qualidade de vida a quem mais precisa.

Um exemplo disso é que o governo Bolsonaro conseguiu tirar o leite das crianças pobres de duas formas em 2022: viu o produto acumular alta de mais de 50% e, ao invés de aumentar a sua doação para minimizar o estrago, fez exatamente o contrário. Neste ano, a entrega gratuita de leite às famílias em extrema pobreza no Nordeste e em Minas Gerais foi reduzida em 87%. O Brasil voltou para o Mapa da Fome no mundo por deficiência em políticas públicas de saúde, saneamento básico, educação, transporte, moradia, entre outros serviços que não avançaram no atual governo – mais preocupado em liberar armas e desmatamento.

Sem isso, é como enxugar gelo. Sem uma visão diferentes diante da pobreza, não serão apenas 10 milhões de miseráveis que vão entrar no CadÚnico nos próximos quatro anos.

Cadastro da miséria expõe ignorância e insensibilidade social de Bolsonaro

A notícia sobre o processo de engorda a que vem sendo submetido o CadÚnico, cadastro que abriga os brasileiros que ralam na pobreza extrema, expõe a ignorância e a insensibilidade social de Bolsonaro. Estão alistados no cadastro da penúria 49 milhões de brasileiros. Desse total, 10 milhões de pessoas entraram no rol escassez ao longo da gestão Bolsonaro. A despeito disso, o presidente declarou dias atrás que “não se justiça” passar fome no Brasil, porque os famintos poderiam requerer o Auxílio Brasil. Ou seja: a realidade não deixa de existir porque Bolsonaro a ignora. O CadÚnico, que abriga a clientela dos programas sociais, não para de crescer. Em vez de aguardar por novas inscrições, Bolsonaro deveria reativar um mecanismo que seu governo extinguiu. Chama-se “busca ativa”.

No momento, nada é tão real quanto a miséria do brasileiro. Em campanha pela reeleição, Bolsonaro recorreu ao Cadastro Único quando quis acenar para o eleitorado pobre. Empurrou para dentro do Auxílio Brasil mais 500 mil famílias. Com isso, o programa passou a socorrer 21,1 milhões de famílias. Não é por falta de pobreza que o governo deixa de exercitar sua vocação social. O problema é que Bolsonaro só notou a miséria ao redor quando precisou de votos.

O presidente já afirmou que não existia “fome pra valer no Brasil”. O noticiário expôs a fila do osso. Mostrou pessoas apanhando alimento descartado nos caminhões de lixo, defronte de supermercados. Mas o presidente disse não ter visto ninguém “pedindo pão no caixa da padaria”. A posição de Bolsonaro evoluiu. Hoje, ele já admite a existência da fome. Mas atribui a culpa aos famintos, que não se dão ao trabalho de engordar um pouco mais os registros do Cadastro Único de miseráveis.

Pela lei, considera-se como extremamente pobre o brasileiro que recebe R$ 105 por mês. Bolsonaro orgulha-se de ter arrancado do Congresso autorização para pagar à clientela do antigo Bolsa Família uma mensalidade de R$ 600. Por ora, vale apenas até o final do ano eleitoral. Mas o presidente diz que “não se justifica” passar fome porque, com uma diária de R$ 20, pode-se comprar “dois quilos de frango no supermercado.”

O Barão de Itararé, pseudônimo do célebre humorista Apparício Torelly, costumava dizer que “quando pobre come frango, um dos dois está doente.” Vivo, o velho Barão diria que, se Bolsonaro continuar tirando os pobres da miséria na velocidade pretendida, vai acabar anunciando um programa novo durante o debate da TV Globo, a menos de 48 horas do término do segundo turno. Será batizado de PIM, Programa de Importação de Miseráveis. Não resolverá o problema da fome no Brasil. Mas permitirá a Bolsonaro cumprir as metas publicitárias de sua campanha.


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