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Brasil
Luxo privado, prejuízo público: Banco Master drenou recursos de aposentados
Publicado em 07/01/2026 9:58 - Semana On
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Pelo menos 46 influenciadores digitais teriam participado de uma ofensiva articulada contra o Banco Central (BC) após a liquidação do Banco Master, decretada no fim de 2025. A informação veio à tona a partir do relato do vereador e influenciador de direita Rony Gabriel (PL), de Erechim (RS), que afirmou ter sido procurado por uma empresa com a proposta de produzir conteúdos em defesa do banco liquidado e com ataques diretos à autoridade monetária.
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Em vídeo publicado na terça-feira (6) em seu perfil no Instagram, Rony contou que a abordagem ocorreu em 20 de dezembro do ano passado. Segundo ele, o contato foi feito com seu assessor por uma empresa que se apresentou como responsável pelo “gerenciamento de reputação de um grande executivo”. O interlocutor teria informado que estava contratando influenciadores para reforçar uma estratégia de comunicação nas redes sociais.
O vereador afirmou que a proposta incluía o pagamento de uma “boa quantia em dinheiro”, mas disse ter recusado. Apesar disso, avalia que outros influenciadores aceitaram a oferta e passaram a integrar a campanha. De acordo com Rony Gabriel, o objetivo central da ação seria atribuir ao Banco Central a responsabilidade pela grave crise de liquidez enfrentada pelo Banco Master e sustentar a narrativa de que não houve irregularidades na instituição comandada por Daniel Vorcaro.
Ainda segundo o influenciador, a contratação exigiria a assinatura de um acordo de confidencialidade. O contrato, exibido no vídeo, previa multa de R$ 800 mil em caso de descumprimento. Rony afirma que propostas semelhantes foram encaminhadas a diversos perfis com grande alcance nas redes, compondo um ataque coordenado para descredibilizar o BC e defender o banco liquidado.
A denúncia foi publicada inicialmente pela jornalista Malu Gaspar, de O Globo. Segundo ela, uma reportagem do Metrópoles teria sido indicada como modelo de conteúdo a ser difundido, sempre com o objetivo de lançar dúvidas sobre a atuação do Banco Central no processo que levou à liquidação do Master.
A Folha de S.Paulo também tratou do tema. Reportagem assinada por Adriana Fernandes e Lucas Marchesini identificou ao menos 46 perfis que vêm atacando o BC e investigadores envolvidos no caso. Entre os principais alvos está o ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central, Renato Gomes, cuja área recomendou o veto à compra do BRB pelo Master e forneceu informações relevantes ao Ministério Público Federal.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, seus familiares e o diretor de Fiscalização, Aílton de Aquino Santos, também passaram a ser alvo da campanha. Além deles, banqueiros e associações do setor financeiro que divulgaram notas públicas em apoio à decisão técnica de liquidar o Master vêm sendo atacados.
Diante do que classificaram como um movimento atípico, a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) e outras entidades divulgaram, em 27 de dezembro, uma nota pedindo a preservação da autoridade técnica do Banco Central para evitar um “cenário gravoso de instabilidade”. No texto, a entidade informou que analisava se as postagens configurariam um ataque coordenado, observando, porém, uma redução significativa no volume das publicações nos dias seguintes.
A ofensiva ocorre em paralelo a movimentações incomuns no chamado Caso Master, tanto no Supremo Tribunal Federal quanto no Tribunal de Contas da União (TCU). No início de dezembro, o ministro Dias Toffoli, relator do processo no STF, decretou sigilo máximo sobre as investigações contra executivos do banco poucos dias após viajar em um jatinho particular para assistir à final da Libertadores da América, em Lima, ao lado do advogado Augusto Arruda Botelho, que representa um dos empresários da instituição.
Na sequência, o TCU passou a analisar documentos do Banco Central relativos à liquidação do Master. Conforme revelou a coluna de Amanda Miranda, no ICL Notícias, a atuação do relator do caso no tribunal, ministro Jhonatan de Jesus, é considerada inadequada por especialistas.
Para o professor Luiz Henrique Cadermatori, do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina, trata-se de uma situação inédita na história republicana. Ele observa que nunca houve um órgão de controle fiscalizando outro órgão fiscalizador pertencente a um poder distinto. Segundo Cadermatori, isso cria um conflito político, já que os ministros do TCU são escolhidos por critérios políticos, ao contrário do Banco Central, cuja estrutura decisória é eminentemente técnica.
O professor ressalta que decisões sobre liquidação de bancos e definição de critérios de atuação no sistema financeiro são técnicas por natureza. Embora avalie que a repercussão do caso no TCU seja moral e politicamente questionável, ele reconhece que não há impedimento jurídico prévio para esse tipo de intervenção.
Chama atenção, ainda, o perfil do relator no TCU. Quando deputado, Jhonatan de Jesus foi autor de emendas parlamentares hoje sob análise do ministro Flávio Dino. Ele também é aliado de Arthur Lira e ligado ao Centrão, grupo político que reúne diversos defensores do Banco Master.
Há, sem dúvida, motivos legítimos para críticas ao Banco Central — em especial à manutenção da taxa Selic em patamar elevado. No caso do Banco Master, porém, a atuação da autoridade monetária tem sido considerada tecnicamente correta. E é justamente nesse contexto que surge uma ofensiva articulada para deslegitimá-la.
As cifras envolvidas e o peso político e econômico dos personagens ligados ao Master ajudam a explicar a dimensão e a agressividade desse ataque sem precedentes.
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Luxo privado, prejuízo público
Enquanto afundava financeiramente, o Banco Master mantinha um padrão de gastos incompatível com a própria sobrevivência. A instituição transformou recursos de investidores — inclusive verbas de aposentadorias de servidores públicos — em um portfólio de superluxo destinado ao usufruto de seu controlador, Daniel Vorcaro. Mansões, apartamentos de alto padrão e jatinhos somaram cerca de R$ 2 bilhões em aquisições, enquanto o banco se deteriorava diante do mercado.
A apuração, publicada ontem (7) pelo UOL, mostra que não foram apenas CDBs de investidores individuais ou empresariais que financiaram esse estilo de vida. Recursos provenientes de fundos de pensão estaduais — dinheiro público destinado a aposentadorias — também alimentaram o caixa do banco. Entre eles, aportes do Rio de Janeiro e do Amapá, feitos quando os sinais de insolvência já eram evidentes para o mercado.
No Rio, a gestão de Cláudio Castro investiu cerca de R$ 1 bilhão no Master — valor que o Tribunal de Contas estadual estima em até R$ 2,6 bilhões. No Amapá, sob Clécio Luís, foram aplicados R$ 400 milhões em títulos de alto risco. Trata-se de recursos de aposentadorias de professores, profissionais de saúde e trabalhadores de serviços essenciais.
A Rioprevidência e a Amprev do Amapá afirmam que o pagamento de benefícios está garantido apesar da liquidação do banco. A questão central, porém, é quem arcará com o rombo. Há quem defenda que a conta seja transferida à União — e, portanto, aos contribuintes.
Parte do prejuízo poderia ser mitigada com a venda do patrimônio acumulado por Vorcaro e por empresas a ele vinculadas, caso fique comprovado que esses ativos foram constituídos para blindagem patrimonial. Ainda assim, uma fatia significativa dos recursos não é recuperável. Segundo o UOL, cerca de R$ 40 milhões foram gastos em um camarote na Sapucaí, R$ 15 milhões em uma festa de 15 anos e ao menos R$ 1,1 milhão em diárias de uma casa em Trancoso.
Mesmo assim, há movimentos institucionais que parecem dificultar a recomposição de perdas. O Tribunal de Contas da União emitiu despacho indicando que pode impedir o Banco Central de vender bens ligados ao Master no processo de liquidação, além de determinar uma inspeção urgente sobre a decisão da autoridade monetária. Como órgão auxiliar do Congresso, a atuação do TCU tem sido vista como atípica e alimenta suspeitas de favorecimento político ao banco e a seu controlador.
O Master foi liquidado em novembro, após o BC vetar sua venda ao Banco de Brasília, operação que ampliaria o prejuízo público. Vorcaro chegou a ser preso ao tentar deixar o país e depois foi solto. A Polícia Federal investiga fraudes que ultrapassam R$ 12 bilhões.
O Fundo Garantidor de Créditos cobrirá até R$ 250 mil por investidor, num total que pode superar R$ 40 bilhões. A venda de ativos acima desse limite é crucial para reduzir perdas maiores. Ainda assim, a estratégia da defesa do controlador é clara: preservar patrimônio e evitar consequências financeiras pessoais.
O embate, portanto, vai além do campo jurídico ou técnico. É moral. O país precisa decidir se aceita que recursos de quem trabalhou a vida inteira se convertam em mansões, jatinhos e camarotes sem responsabilização efetiva, ou se reafirma que banqueiros não formam uma casta acima da lei. Blindar patrimônio, atrasar a liquidação e socializar prejuízos é escolher proteger o luxo privado em detrimento das aposentadorias. E quando o Estado faz essa escolha, deixa explícito quem manda — e quem sempre paga a conta — no Brasil.
Os bens mais caros ligados a Vorcaro
A apuração sobre a compra de patrimônio de super luxo foi publicada por Natália Portinari, Amanda Rossi e Pedro Canário hoje no UOL. Se quiser sentir raiva, veja as fotos das mansões do Vorcaro na matéria do UOL.
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