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Brasil

Após ‘nem aí’, Tarcísio diz que PM violenta não está ‘à altura da farda’

1 em cada 4 assassinatos em SP foi cometido pela polícia de Derrite

Publicado em 03/12/2024 12:37 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Os recentes episódios de violência policial em São Paulo colocaram o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) sob os holofotes de uma controvérsia que desafia seu discurso sobre segurança pública. Após minimizar, em março, denúncias de violência policial levadas à ONU, Tarcísio agora adota um tom mais crítico diante de casos de letalidade e abuso envolvendo a Polícia Militar paulista, revelados pela imprensa nesta semana.

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Dois casos ganharam destaque: a execução de um jovem negro, baleado pelas costas por um policial à paisana na capital paulista, e um homem jogado de uma ponte por um PM na zona sul da cidade. Ambos os episódios foram amplamente divulgados, aumentando a pressão sobre o governo.

Em publicação no X, o governador repudiou os atos, afirmando que “aquele que atira pelas costas ou joga uma pessoa da ponte não está à altura de usar essa farda”. Ele prometeu investigações rigorosas e punições exemplares, mas as declarações contrastam com posicionamentos anteriores, nos quais demonstrou indiferença a críticas internacionais sobre a atuação da PM.

Os dados revelam um quadro alarmante. De janeiro a setembro de 2024, 474 pessoas foram mortas por policiais em São Paulo, segundo a Secretaria de Segurança Pública. A maioria das vítimas era negra (64%) e homens (99%). Entre elas, estão 69 adolescentes mortos desde o início da gestão Tarcísio, em 2023, de acordo com o Instituto Sou da Paz. Isso significa que um jovem menor de idade é morto pelas polícias paulista, em média, a cada nove dias.

O perfil das vítimas reflete um padrão de desigualdade racial e social historicamente associado à violência policial no Brasil. Como destaca o sociólogo Abdias do Nascimento em suas obras sobre racismo estrutural, “as estatísticas da violência não são apenas números, mas reflexos de um sistema que privilegia vidas de forma desigual”.

Discurso versus Realidade

A retórica adotada pelo governador e pelo secretário de Segurança, Guilherme Derrite, nesta semana, ao enfatizarem punições severas aos envolvidos, difere do tom adotado anteriormente. Em março, ao responder a denúncias de abuso policial levadas à ONU, Tarcísio afirmou não estar “nem aí”. A postura gerou críticas de organizações de direitos humanos, que veem na fala uma naturalização da violência estatal.

Esse tipo de reação não é inédita em governos que priorizam um discurso de “lei e ordem”. Como analisa o filósofo Michel Foucault em Vigiar e Punir, as estratégias punitivistas muitas vezes mascaram a ausência de reformas estruturais no sistema de segurança pública, reforçando práticas de violência e exclusão.

Especialistas apontam que o enfrentamento à violência policial exige mais do que investigações pontuais e promessas de punição. Reformas estruturais são necessárias para combater a cultura de impunidade dentro das corporações. “É preciso avançar na formação dos policiais, no controle externo e na transparência das ações, garantindo que a polícia atue como instrumento de cidadania e não de repressão seletiva”, afirma a cientista política Jacqueline Muniz, da Universidade Federal Fluminense.

A contradição entre discurso e prática no governo paulista reflete o dilema enfrentado por muitas administrações no Brasil: a busca pela segurança pública esbarra na manutenção de uma cultura institucional que perpetua desigualdades. Os casos recentes em São Paulo são mais do que tragédias isoladas; são sintomas de um sistema que ainda não foi capaz de equilibrar eficácia no combate ao crime com respeito aos direitos humanos.

Enquanto promessas de punições rigorosas não se traduzirem em mudanças estruturais, episódios como esses continuarão a manchar a reputação das forças de segurança e a questionar o compromisso do Estado com os princípios democráticos. Como diria o jurista Celso Lafer, “o valor da democracia está em assegurar que o poder não seja exercido como violência”. Uma lição que, no Brasil, ainda precisa ser aprendida.


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