25/04/2024 - Edição 540

Brasil

A Grande Demissão estará chegando ao Brasil?

Onda de jovens que se demitem de “empregos de merda” – e atinge EUA e Inglaterra – começa a se espraiar no país. A maioria é de classe média e tem curso superior, mas está frustrada com os salários precários e a falta de perspectivas

Publicado em 24/11/2022 9:44 - André Antunes (EPSJV/Fiocruz), RBA, Vinicius Konchinski (RBA) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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Um fenômeno que eclodiu durante a pandemia de Covid-19 principalmente em países como os Estados Unidos e Inglaterra vem chamando atenção de analistas do mundo do trabalho também do lado de cá do oceano Atlântico. Chamado de ‘Great Resignation’, ou a Grande Renúncia, como foi batizada a demissão voluntária em massa de milhões de trabalhadores em meio à pandemia, o fenômeno repercute até hoje sobre os cenários de trabalho e emprego desses países, chegando a se espraiar por terras brasileiras. Para analistas ouvidos pela Poli, é necessário cautela ao traçar os paralelos entre o fenômeno nos diferentes países, e ressaltam que ele denota uma insatisfação de trabalhadores com as condições de trabalho em nível global, mas que vem sendo tratada de maneira contraditória por aqui, principalmente pela grande mídia.

Números aqui e lá

No país mais rico do mundo, números do Bureau of Labour Statistics dos Estados Unidos (a agência de estatísticas do trabalho do governo do país) apontam que, em média, 4 milhões de pessoas pediram demissão por mês ao longo de 2021, meio milhão a mais do que a média de 2019. Se em janeiro de 2019 o BLS registrou um montante de cerca de 7 milhões de vagas de trabalho sem serem preenchidas, em setembro de 2022 esse número havia aumentado para 10,7 milhões, um crescimento de mais de 50%. No Reino Unido, um levantamento realizado pela consultora Barnett Waddingham divulgado em junho apontou que 85% das empresas foram afetadas de alguma forma pela ‘Grande Renúncia’, sendo que 31% relataram dificuldades para reter trabalhadores e 32% relataram problemas para contratar novos funcionários ao longo de 2021, o que inclusive teria levado algumas empresas a oferecerem vagas com uma semana de trabalho reduzida, de quatro dias.

No Brasil, um levantamento de agosto produzido pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) a partir de dados do Ministério do Trabalho, mostrou que entre janeiro e maio de 2022 o número de trabalhadores com carteira assinada que deixaram seus empregos voluntariamente bateu recorde, chegando a 2,9 milhões. Isso significa que um em cada três contratos de trabalho encerrados no período se deu por iniciativa do próprio trabalhador, um volume 35,2% maior do que no mesmo período de 2021. A nota técnica da Firjan ressalta que o recorde anterior para o período havia sido em 2014, quando 2,6 milhões de trabalhadores com carteira assinada pediram demissão voluntariamente, em um cenário em que a taxa de desemprego medida pelo IBGE girava em torno de 7%, ou seja, menor do que o cenário atual, de cerca de 10% de desemprego.

Perfil dos trabalhadores revela jovens com escolaridade elevada

Segundo a Firjan, quase metade das demissões registradas no período se deu entre trabalhadores com ensino superior completo, responsáveis por 48,2% dos desligamentos. A nota técnica destaca ainda a prevalência de trabalhadores mais jovens entre os que pediram demissão: 38,5% dos pedidos de demissão se deram na faixa etária entre 18 e 24 anos, enquanto 36% foram entre os trabalhadores entre 25 e 29 anos. Ainda de acordo com a nota, os Profissionais da Informática foram o subgrupo ocupacional com maior proporção de desligamentos voluntários em 2022 (65,1%), seguidos pelos Técnicos em Informática (57,9%), Pesquisadores (57,0%) e Profissionais da Medicina (56,5%).

Para Bruno Chapadeiro, psicólogo e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) que vem estudando a temática, os dados servem para ilustrar uma dimensão importante do fenômeno que tem se demonstrado em todos os países onde foi identificado, e que se mostra com ainda mais força no Brasil. “Tem um recorte muito importante de classe. A gente pode dizer que quem aderiu a essa ‘Great Resignation’ em todas as experiências até agora foram jovens de classe média”, destaca Chapadeiro, e complementa: “É um movimento de uma juventude que tem entendido que as promessas do capitalismo, no sentido de que você desenvolve, estuda, trabalha, faz curso, se aprimora etc. e você tem um lugar ao sol, são falaciosas. São jovens que se veem em empregos com salários precários que não vão levá-los a lugar nenhum e começaram a se demitir”, diz o pesquisador.

Segundo ele, o fenômeno vinha sendo identificado já antes da pandemia, em países como China e Japão, mas explodiram com a pandemia de Covid-19 principalmente nos Estados Unidos, país em que, como lembra Chapadeiro, não há um sistema público de saúde como o SUS. “Muitos trabalhadores, alguns sem acesso a planos de saúde, passaram a ver o risco de adoecer em um país sem um sistema público de saúde, começaram a ter medo de contrair e contaminar seus familiares com uma doença para a qual não existia vacina”, ressalta. Para o pesquisador, concorre também para a eclosão do fenômeno a chegada ao mercado de trabalho de uma geração nascida e conformada pelo ideário neoliberal. “A nossa pesquisa tem tentado entender em que medida essa juventude tem comprado, por exemplo, a ideologia do autoempreendedorismo e começaram a sair de empregos precários para tentar o próprio negócio virtual, sem patrões, com mais flexibilidade. Então a gente tem uma geração de filhos da classe média, que nasce com toda essa perspectiva neoliberal de mundo, que é familiarizada com tecnologias informacionais e que teve a pandemia como catalizadora pra essa reação”, resume Chapadeiro.

Giovanni Alves, professor de sociologia do trabalho na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) vê a Grande Renúncia como um efeito do que ele chama de um “rebaixamento civilizatório por conta da crise estrutural do capital” sobre uma fração da classe trabalhadora que ele denomina de “precariado”. “São aqueles trabalhadores mais qualificados, mais escolarizados, em geral. Alguns até os 40 anos estão ainda morando com os pais. Uma parte deles têm uma margem de insumo familiar para poder operar escolhas com relação ao trabalho. Isso acontece muito nos Estados Unidos, na União Europeia. Em Portugal eles chamam de geração ‘casinha dos pais’, por exemplo”, diz Alves, chamado atenção para o que vê de comum entre Brasil e Estados Unidos nessa conjuntura. “O que há de comum é o mercado de trabalho degradado pela precarização salarial que vem ocorrendo nos últimos 30 anos lá fora e que no Brasil veio com força a partir da Reforma Trabalhista de 2017, que colocou as pessoas em uma situação de insegurança salarial. Além disso são países que na pandemia têm apresentado índices altos de contaminação e de mortes”, lembra o professor da Unesp. Ele ressalta que, principalmente no caso brasileiro, o fenômeno tende a ser mais marginal do que em outros países, justamente pelas características do mercado de trabalho e das condições sociopolíticas do Brasil. “Para a grande maioria dos trabalhadores brasileiros não há possibilidade de escolha: ou você trabalha ou morre de fome”, alerta Alves.

Mas o pesquisador destaca que é importante analisar o fenômeno para além de simplesmente um “luxo” reservado à classe média. “A Grande Renúncia talvez sirva para ocultar outros problemas que estão ocorrendo na economia capitalista e no mercado de trabalho, principalmente a degradação salarial dos empregos de classe média nos últimos 20 anos”, diz Alves, e completa: “Mas quando a gente lê matérias no [jornal] Valor Econômico, no UOL, é tratado como se fosse meramente um luxo. ‘A coisa está tão boa que essas pessoas estão pedindo demissão, podem escolher’. É a ideologia do capital, como se esse fosse um fenômeno da prosperidade do capitalismo. É justamente o contrário”, aponta.

Sindicalização na Amazon: outra face de uma mesma moeda?

Nesse sentido, ele chama a atenção para a recente vitória de trabalhadores da Amazon no estado de Nova York, que em abril conseguiram aprovar a criação do primeiro sindicato de trabalhadores da empresa que é a segunda maior empregadora privada do país. Para Giovanni Alves, a eclosão da Grande Renúncia e a luta pela sindicalização em uma das empresas que mais lucrou durante a pandemia, num país onde segundo ele é forte o “espírito antissindical” são questões interligadas, e mostram as diferentes respostas que os trabalhadores de diferentes setores e estratos sociais dos Estados Unidos têm apresentado como respostas ao cenário de precarização salarial no país. “Por que foi na Amazon? Porque ela é a própria representação da desigualdade que vem se aprofundando, uma empresa bilionária onde a diferença salarial entre o topo e a base é enorme, e que é de um dos maiores bilionários do mundo, Jeff Bezos, que inclusive agora quer ir para o espaço sideral. É uma situação muito indigna para o americano. Ele sabe que está dando muito lucro à empresa e está recebendo um salário baixo, então parte para a luta sindical, que é uma luta tremenda por lá”, pontua Alves. “São diferentes estratégias de sobrevivência tendo como pano de fundo esses processos mais estruturais, em um mundo do trabalho degradado: quem pode escolher pede demissão, quem não pode se organiza”, completa.

O professor da UFF Bruno Chapadeiro tem expectativa de que, assim como a Grande Renúncia, o movimento de organização coletiva de trabalhadores simbolizado pela sindicalização na Amazon possa ter influência por aqui também. “O que ele tem de comum ao Great Resignation é o fato de que essas ideias de sindicalização, de Apple, de Amazon, mesmo do Tik Tok, tem vindo da juventude. Arriscando uma imaginação sociológica, como tudo que começa lá no norte do mundo vem para cá, pode ser que essa seja uma ideia que a gente acabe importando também, de que essa juventude queira continuar se movimentando em termos do coletivo, se organizando coletivamente, de uma forma diferente do que foi o sindicalismo dos anos 1970 e 1980, que é uma forma considerada ultrapassada, que não dialoga com a juventude hoje”, aposta Chapadeiro.

País tem 2,6 milhões buscando trabalho há mais de dois anos

A taxa de desemprego cedeu nos últimos meses, em parte pela base de comparação com o período da pandemia, mas procurar trabalho segue sendo em desafio. No terceiro trimestre, 44,5% dos desempregados (4,2 milhões) buscavam nova ocupação de um mês a menos de um ano, 27,2% (2,6 milhões) há dois anos ou mais e 16,6% (1,6 milhão) há pelo menos um mês. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE.

O grupo de desempregados há mais de dois anos diminuiu de 2021 para 2022. Mas na comparação com 2012, cresce 76,6%. Hoje, o IBGE estima em 9,5 milhões o total de desempregados no Brasil.

Segundo os resultados da pesquisa, a taxa de informalidade no país segue próxima dos 40% – corresponde a 39,4% dos ocupados. Mas varia de 25,9% (Santa Catarina) a 60,5% (Pará). Em São Paulo, é de 30,6%. Entram nessa conta empregados no setor privado e trabalhados domésticos sem carteira, empregadores e trabalhadores por conta própria sem registro no CNPJ. No total, 39,1 milhões.

A divulgação mais recente da Pnad Contínua mostrou taxa de desemprego menor, equivalente a 8,7% da força de trabalho. Mas a contratação sem registro em carteira é recorde na série histórica.

A taxa de desemprego no terceiro trimestre é bem maior para mulheres (11%) do que para homens (6,9%). E também para pretos (11,1%) e pardos (10%), enquanto a dos brancos fica abaixo da média nacional (6,8%). Cresce para pessoas com ensino médio incompleto (15,3%) e cai para quem tem superior completo (4,1%).

No recorte por regiões, o desemprego é maior no Nordeste (12%) e menor no Sul (5,2%). Vai a 6,5% no Centro-Oeste, 8,2% no Norte e 8,7% no Sudeste. Entre as unidades da federação, as maiores taxas de desemprego foram registradas na Bahia (15,1%), em Pernambuco (13,9%) e no Rio de Janeiro (12,3%). As menores, em Rondônia (3,9%), Mato Grosso e Santa Catarina (ambas com 3,8%). Em São Paulo, 8,6%, estável em relação ao segundo semestre, como a maioria das UFs.

Reforma trabalhista completa cinco anos: menos direitos e queda na renda do trabalhador

A Reforma Trabalhista completou cinco anos de vigência no último dia 11. Proposta e aprovada durante o governo do ex-presidente Michel Temer (MDB), a mudança na legislação sobre o trabalho no país reduziu direitos de empregados e contribuiu para a queda de seus rendimentos. Por isso, deve passar por uma revisão durante o próximo governo.

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva prometeu em carta divulgada dias antes do segundo turno construir uma nova legislação trabalhista que “assegure direitos mínimos – tanto trabalhistas como previdenciários – e salários dignos”.

Já a reforma de 2017 visou exatamente ao oposto disso. Retirou da lei garantias de trabalhadores para, com isso, reduzir o custo da contratação de empregados para os empresários e gerar até 6 milhões de postos de trabalho – o que nunca ocorreu.

Segundo o advogado Ricardo Mendonça, doutor em Ciências Jurídicas e Políticas na Universidade Pablo de Olavide, da Espanha, a reforma acabou precarizando as relações de trabalho e incentivando a terceirização.

Também dificultou o acesso do trabalhador à Justiça do Trabalho, reduzindo o acesso gratuito aos tribunais e até prevendo que trabalhadores tenham que ressarcir empregadores caso percam processos.

Por fim, reduziu o poder dos sindicatos em negociações e ainda comprometeu a sustentabilidade financeira das entidades tirando delas, por exemplo, o valor que era arrecadado por meio do imposto sindical.

“Todas foram medidas para reduzir direitos dos trabalhadores e para ampliar a margem de lucro de empresários”, resumiu Mendonça. “O resultado foi desemprego, informalidade e concentração de renda.”

Números comprovam fracasso

Para Patrícia Pelatieiri, diretora adjunta do Dieese), dados do IBGE comprovam as consequências da reforma para o trabalhador. Ela lembrou que, no segundo trimestre de 2017 – ou seja, antes da reforma trabalhista –, um trabalhador brasileiro recebia em média R$ 2.744 (valores corrigidos pela inflação). Cinco anos depois, no 2º trimestre de 2022, ele ganhava R$ 2.652.

Citou também que a taxa de desemprego até caiu de 2017 para cá, mas ainda está acima da registrada há dez anos. E essa queda não deve ser vista necessariamente como algo totalmente positivo para o trabalhador.

“Muitos trabalhadores foram empurrados para a informalidade, que bateu recorde neste ano, atingindo 39,3 milhões de pessoas”, afirmou.

Segundo o IBGE, cerca de 39% dos trabalhadores brasileiros são informais. Hoje, eles formam um contingente maior do que o de trabalhadores do setor privado com carteira assinada – 36,3 milhões, segundo dados oficiais.

“A reforma deu errado porque o que amplia o emprego é o crescimento econômico”, complementou o economista David Deccache, assessor do Psol na Câmara dos Deputados e diretor do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento (IFFD). “E o que amplia o crescimento é o investimento público, que caiu nos últimos anos.”

Expectativa de reversão

Deccache defende uma revisão da reforma e diz que ela é, sim, possível durante o próximo mandato de Lula. Para ele, o ex-presidente foi novamente eleito prometendo rever a reforma. A mobilização de entidades sindicais deve pressionar por isso.

Pelatieiri também vê espaço para revisão e espera que ela seja proposta logo no início do novo governo, quando historicamente o novo presidente goza de maior prestígio político. Para ela, a revisão faria bem para que o país apontasse para o tipo de empregos ele quer gerar no futuro.

“Não tem como gerar emprego sem crescimento”, afirmou. “Agora, nem todo crescimento gera emprego. É preciso uma intencionalidade para gerar trabalhos de qualidade.”

Para Pelatieri, o Brasil precisa rever principalmente a precarização dos contratos de trabalho criada pela reforma. Ela defendeu também que seja devolvida aos acordos coletivos a importância sobre a definição de salários e outros direitos.


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