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Brasil
Pressão popular sugere que um modelo 5x2, defendido por 70% dos entrevistados, é o mais factível
Publicado em 31/12/2024 11:55 - Semana On
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A discussão sobre a jornada de trabalho no Brasil ganhou fôlego com uma proposta de emenda constitucional (PEC) que busca extinguir a escala 6×1, modelo em que o trabalhador cumpre seis dias consecutivos de trabalho para um de descanso. Segundo pesquisa Datafolha realizada em dezembro, 64% dos brasileiros apoiam a mudança, enquanto 33% são contrários e 3% não souberam opinar.
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Os dados revelam que o apoio à redução da jornada é mais forte entre grupos historicamente explorados no mercado de trabalho. Mulheres (70%), negros (72%) e pessoas que recebem até dois salários mínimos (68%) manifestaram índices de aprovação superiores à média. O contraste é notório entre os mais jovens (81% favoráveis na faixa de 16 a 24 anos) e os mais velhos (48% contrários entre os com 60 anos ou mais).
Essa adesão reflete mais do que uma insatisfação com as condições laborais atuais; ela evidencia como desigualdades de gênero, raça e renda moldam percepções sobre o trabalho no Brasil.
Impactos econômicos e sociais da mudança
A proposta central da PEC é reduzir a jornada semanal para 36 horas, distribuídas em quatro dias de trabalho. O modelo encontra resistência no setor empresarial, que teme os custos dessa transição. Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV Ibre, alerta para os impactos negativos em pequenas empresas. “Algumas podem fechar ou demitir, e isso precisa ser debatido”, argumenta.
Já Naercio Menezes Filho, do Insper, defende que a redução da jornada pode trazer ganhos indiretos, como maior convivência familiar e desenvolvimento infantil, o que pode refletir positivamente na produtividade a longo prazo.
“A produtividade no Brasil é baixa, mas isso está mais relacionado à educação e à tecnologia do que ao número de horas trabalhadas. A modernização da força de trabalho precisa andar junto com uma mudança nas condições laborais”, pondera Clemente Ganz Lúcio, do Dieese.
Uma agenda civilizatória
A discussão sobre a escala 6×1 transcende os limites do mercado formal. Há milhões de trabalhadores precarizados, como entregadores e motoristas de aplicativos, que trabalham sem limite de horas ou qualquer tipo de proteção trabalhista. Para muitos, a promessa de “empreendedorismo” é apenas um verniz para a exploração.
A precarização extrema foi ilustrada recentemente com o resgate de 163 operários chineses em condições análogas à escravidão na Bahia. Submetidos a jornadas de dez horas diárias em regime 6×1, esses trabalhadores enfrentavam condições insalubres e perigosas, com relatos de mutilações e acidentes graves.
“O debate sobre a redução da jornada não é apenas econômico, mas civilizatório. Ele questiona o modelo de desenvolvimento que queremos: um baseado na exploração máxima ou na construção de uma sociedade mais justa e equilibrada?”, reflete Ganz Lúcio.
União improvável em torno de uma pauta
Curiosamente, o tema uniu políticos de diferentes espectros ideológicos. Entre os que votaram em Lula (PT) no segundo turno de 2022, 73% apoiam a mudança, enquanto 53% dos eleitores de Jair Bolsonaro (PL) também se posicionam favoravelmente.
O consenso, entretanto, não elimina as divergências sobre como implementar a redução da jornada. A pesquisa Datafolha mostra que 58% acreditam que a mudança deve ser feita por legislação, enquanto 39% preferem que ela seja negociada diretamente entre patrões e empregados.
Perspectivas futuras
Embora a redução imediata para uma jornada 4×3 possa ser considerada radical, a pressão popular sugere que um modelo 5×2, defendido por 70% dos entrevistados, é mais factível. A experiência internacional mostra que, em países com economias robustas, jornadas mais curtas não apenas aumentam a qualidade de vida, mas também impulsionam a produtividade.
Para que o Brasil avance nesse debate, será necessário equilibrar os interesses empresariais com os direitos dos trabalhadores, além de incluir no diálogo os milhões de precarizados que ainda vivem à margem da legislação trabalhista.
O debate, afinal, é sobre o futuro do trabalho em uma sociedade que precisa decidir: o que significa progresso em termos humanos e sociais? A resposta a essa pergunta pode moldar não apenas o mercado de trabalho, mas a própria identidade de um país que busca se afirmar como mais justo e inclusivo.
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