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Viver Bem

Quaresma: hora de fazer dieta e aumentar a atividade física

Publicado em 17/03/2016 12:00 -

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Aqui e ali, no Instagram e em blogs, surge um novo incentivo para a dieta. Ele tem uma roupagem tradicional, embora siga todos os preceitos de uma dieta da moda: é a "Quaresma Fit". A proposta é aproveitar os quarenta dias da Quaresma para segurar a balança, que será devidamente liberada na Páscoa. Hashtags como #páscoasemculpa e #quaresmafit pululam em redes sociais.

O mais comum é que os adeptos cortem pão, bebida alcoólica, doces e carnes (exceto peixe), em uma vaga referência ao jejum cristão desse período. "Isso tem sido bastante comum no consultório. Os pacientes chegam dizendo: 'A minha Quaresma vai ser cortar o pão'", diz a nutricionista Adriana Kachani, do Hospital das Clínicas da USP.

A bancária Maria Clara Dias, 32, está de dieta desde janeiro, mas sabia que a Páscoa seria a primeira grande provação. "No Carnaval, perdi mais quilos do que ganhei com a cerveja, mas na Páscoa a conta não fecha, é uma festa parada e glutona", diz ela. Sem esperanças de autocontrole diante dos ovos, apelou para um grupo de ajuda no WhatsApp. Ela e as primas enviam fotos das refeições junto a estímulos.

Nenhuma delas pretende jejuar de verdade. "Meu jejum vai ser de jacas [gíria para deslizes na dieta]", brinca. Diferentemente de Maria Clara, o analista de sistemas Francisco Cadamuro, 33, é católico. Ele sempre seguiu a Quaresma por motivos religiosos. Há dois anos, entrou em um regime rigoroso e perdeu 33 quilos.

Desde então, as Quaresmas aliam sacrifício religioso a um ganho de saúde. "Corto carne, bebidas gaseificadas e álcool", diz ele, que intensifica a rotina de exercícios no período. No domingo de Páscoa, Maria Clara pretende comer "todos os ovos a que tenho direito". Já Francisco quer se manter firme. "Vou comer, mas sem exageros", diz.

Intercalar períodos de privação com bonança é sabidamente um gatilho para compulsões alimentares. Mas muito antes das dietas entrarem em voga, o calendário religioso já propiciava essas variações bruscas. "Comida é cultura. O contexto em que algo é feito é tão importante quanto o que ingerimos", diz o nutrólogo Celso Cukier. Para ele, restrições religiosas, desde que não sejam radicais, não provocam o mesmo efeito rebote de uma dieta estética.

"Se a intenção não é ficar magro, e sim fazer um sacrifício, a atenção se volta para outra coisa. No caso de uma dieta de emagrecimento, só se pensa em comida e no próprio corpo", diz Cukier.

Quem segura a vontade para liberar tudo na Páscoa, no entanto, está gestando um efeito sanfona. "A pessoa restringe a comida rapidamente. Isso funciona, ela emagrece, as células de gordura ficam vazias. Quando chega a comida, no entanto, essas células se enchem o máximo que podem", explica.

Quando uma célula de gordura chega a seu limite, novas células são geradas. Por isso que, uma vez tendo engordado, é cada vez mais difícil permanecer magro: ex-gordos têm mais células de gordura no corpo.

Na tradição católica, a Quaresma é o período de purificação entre os excessos do Carnaval e a Páscoa.

"Sou judia, mas acho que aproveitar a Quaresma para fazer dieta e emagrecer é um empobrecimento da religião católica", opina a nutricionista Adriana Kachani. "Uns poucos católicos ainda observam essa data, retiram algum prazer mundano", explica o filósofo Luiz Felipe Pondé. A proposta seria comer pouco e em horários regrados, rezar bastante e meditar sobre os pecados. Para ele, a "Quaresma Fit" se enquadra em um processo de comoditização dos valores religiosos, que são esvaziados e diluídos em artigos para o consumo.

"A ideia original é se purificar reprimindo um desejo, mas isso foi substituído por uma mera suspensão de consumo. Não vou comer doces, isso é Quaresma. Não funciona assim. Ou talvez funcione, mas só para um 'selfie' mais magrinho", diz.


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