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Viver Bem
Medicamento não hormonal promete alívio rápido para insônia e fogachos
Publicado em 10/05/2025 10:33 - Semana On
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Um marco silencioso, mas potente, começa a ser desenhado na medicina feminina: pela primeira vez, um medicamento não hormonal mostrou-se eficaz contra dois dos sintomas mais debilitantes da menopausa — as ondas de calor intensas, os chamados fogachos, e a insônia crônica. O fármaco, desenvolvido pela farmacêutica Bayer e apresentado na última semana a jornalistas de dez países, em Berlim, surge como esperança concreta para as cerca de 80% das mulheres que enfrentam os fogachos e as 60% que relatam sérias dificuldades para dormir durante essa fase.
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A nova molécula, batizada de elinzanetant, inova não apenas por dispensar hormônios em sua fórmula, mas principalmente por sua forma de ação: ela mira diretamente os sintomas da menopausa, rompendo com o paradigma histórico de reposição hormonal, que embora eficaz, é limitada por contraindicações severas e prazo de uso restrito.
A terapia hormonal ainda é a principal linha de frente contra os desconfortos da menopausa. Porém, como alerta a ginecologista Cecília Caetano, diretora médica global de saúde feminina da Bayer, “a reposição só pode ser feita na janela de oportunidade de até dez anos após a última menstruação e, dentro dela, por no máximo cinco anos. Depois disso, ela deve ser interrompida”. Essa limitação impõe um dilema para mulheres que ainda sofrem com sintomas persistentes, especialmente após os 60 anos — fase em que os tratamentos hormonais são geralmente descontinuados.
Além disso, há restrições severas: mulheres que tiveram câncer de mama, de endométrio, problemas cardiovasculares ou hepáticos não podem recorrer à reposição. Soma-se a isso uma crescente rejeição entre novas gerações, alimentada por temores sobre riscos à saúde — nem sempre justificados por evidências científicas, mas suficientemente fortes para afastar muitas pacientes desse tipo de tratamento.
Nesse cenário, alternativas naturais — como fitoterápicos ou terapias complementares — proliferam, mas com eficácia questionável. “A maioria mal alivia o mal-estar”, afirma Cecília. E no caso dos distúrbios do sono, os fármacos tradicionais trazem consigo o risco da dependência. Ou seja, até agora, milhões de mulheres viviam entre o desconforto e a resignação.
O cérebro no centro do tratamento
O elinzanetant representa uma nova era justamente por atacar a origem neurofisiológica dos sintomas. Estudos recentes identificaram a atuação de um grupo específico de neurônios, conhecidos como KNDy, localizados no hipotálamo — região do cérebro responsável por regular funções como temperatura corporal e sono. Em condições normais, esses neurônios são regulados pelos hormônios femininos. Mas, com a queda drástica de estrogênio na menopausa, os KNDy entram em hiperatividade, provocando desregulação térmica (fogachos) e comprometimento do ciclo do sono.
A inovação do elinzanetant está no bloqueio direto dos receptores NK1 e NK3, por onde passam os estímulos desses neurônios exacerbados. Ao inibir essa via, o medicamento reduz significativamente a frequência e a intensidade dos fogachos — que podem chegar a 50 episódios semanais — e melhora a qualidade do sono desde o primeiro dia de uso, segundo os resultados de quatro estudos clínicos de fase 3, que envolveram mais de 800 mulheres entre 40 e 65 anos nos Estados Unidos, Europa e Israel.
Um dos dados mais relevantes vem do estudo OASIS 4, que incluiu mulheres com histórico de câncer de mama — grupo sistematicamente excluído de testes com terapias hormonais. “Vi nessa população uma oportunidade de atender uma necessidade real e negligenciada”, disse Cecília, que atuou por mais de uma década no hospital da Universidade de Coimbra, em Portugal, cuidando dessas pacientes. A participação delas nos testes marca um avanço significativo, ampliando a segurança e a abrangência da nova abordagem terapêutica.
Novos rumos para o cuidado com a menopausa
É verdade que o elinzanetant não cobre os mais de 30 sintomas possíveis da menopausa — que vão da irritabilidade à perda de libido, da secura vaginal às alterações cognitivas. No entanto, abre caminho para uma medicina mais personalizada, baseada na combinação de tratamentos, com foco específico em cada queixa da paciente.
Além disso, seu uso futuro em associação com doses mínimas de hormônio é cogitado, o que poderia maximizar os efeitos benéficos da reposição com um perfil de segurança ampliado. A ideia, segundo especialistas, é que o futuro do cuidado com a menopausa se desdobre em múltiplas frentes, afastando-se da visão única e muitas vezes limitadora da terapia hormonal como panaceia.
Expectativas de chegada ao Brasil
Atualmente em fase final de aprovação pelo FDA (Food and Drug Administration) nos Estados Unidos e pelas agências regulatórias europeias, a expectativa é que o elinzanetant esteja disponível nesses mercados ainda em 2025. No Brasil, segundo estimativas da própria Bayer, a chegada deve ocorrer um ano após o lançamento internacional.
Trata-se de um desenvolvimento que ressoa com força num país em que mais de 29 milhões de mulheres vivem a fase do climatério, segundo dados do IBGE, e que pode transformar profundamente a maneira como se enxerga e trata a menopausa — não mais como um inevitável calvário, mas como uma etapa da vida passível de cuidado, respeito e protagonismo feminino.
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