02/03/2024 - Edição 525

Viver Bem

Indústria está desatenta ao plus size

Publicado em 05/11/2015 12:00 -

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Para a top model plus-size brasileira Fluvia Lacerda, 35, é fácil vestir uma mulher que usa um tamanho pequeno ou médio. O desafio é encontrar roupas para comprar se você veste números maiores.

A indústria, diz ela, ainda está pouco atenta ao potencial de mercado da moda plus-size. "É uma consumidora que pouco encontra nos catálogos ou nas revistas de moda", afirma ela.

Fluvia, que diz nunca ter feito dieta na vida e que não divulga o seu peso, trabalhou com várias marcas e foi capa de revistas internacionais.

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O plus-size no Brasil é algo extremamente recente.
Quando eu cheguei ao Brasil falando sobre minha carreira de modelo plus-size no exterior, eu não encontrava absolutamente nada dentro desse nicho. Não queriam saber de modelo gorda, nunca tinham ouvido falar disso. Hoje vejo que muitas publicações estão no bonde do desespero para se comunicar com a consumidora plus-size, tentando de todas as formas abraçar o poder aquisitivo dela, mas poucos entendem realmente sobre moda para a mulher gorda.

O que você vê no mercado hoje?
Vejo um grande crescimento na parte de quem faz roupa, mas também vejo muita preguiça e falta de talento. Não existe desafio na hora de vestir uma mulher que usa tamanho 42, simplesmente porque essa mulher não encontra dificuldade alguma na hora de comprar roupa. A consumidora que sustenta a indústria de tamanhos maiores é quem busca inspiração na hora de se vestir e pouco encontra nos catálogos ou revistas de moda. Eu, como consumidora, quero que me provem que é possível vestir bem meus 133 cm de quadril.

Por que você acha que a moda convencional não fabrica tamanhos maiores?
Acho que ainda existe muito comodismo por parte das marcas. As modelos convencionais já não usam 38, mas 32. E as marcas se dão por satisfeitas em fabricar um 44 porque em comparação com o 32 é realmente muito maior.

O mercado plus-size no Brasil está crescendo muito e ainda existem algumas batalhas que precisam ser vencidas. Mas percebo que preço alto no Brasil não é exclusividade de roupa plus-size, a moda em geral é cara.

Muitas marcas justificam a falta de diversidade de tamanhos dizendo que 42 já é plus-size.
Acho que hoje essa justificativa não cabe mais. A grande prova é o sucesso das blogueiras [de moda plus-size]. Mostra a falta de coerência das marcas. Muitas ainda usam modelos magras para vender roupas plus-size. Isso não representa quem compra. Resolver o caso da modelo que usa 46 não é suficiente para tomar uma decisão geral.

Muitas mulheres reclamam de tamanho e preço nas peças plus-size aqui no Brasil. Você se identifica com essa exigência?
O mercado plus-size no Brasil está crescendo muito e ainda existem algumas batalhas que precisam ser vencidas. Mas percebo que preço alto no Brasil não é exclusividade de roupa plus-size, a moda em geral é cara. Além de tudo isso, temos de ter plena consciência de que nosso país nos sufoca com impostos fora de órbita, e trabalhar dentro dos formatos legais exigidos pelo governo, pagando direitos trabalhistas, exige que os preços tenham de bancar tudo isso.

O que você acha que falta na moda plus-size?
Muita gente acordou e entendeu a mina de ouro que é esse mercado. Vejo um vasto crescimento diante do nascimento de marcas segmentadas e da expansão de tamanho dentro das redes que fabricavam até o 46. Qual você acha que é a solução do problema do preconceito? O primeiro passo é acabar com o vitimismo e parar com o "mimimi".

Como assim?
Veja, eu amei uma pessoa que perdi [seu parceiro morreu quando ela estava grávida].
Eu já tinha essa postura de me lixar para o que pensam a meu respeito, de respeitar e me amar independente do que os outros pensam da minha aparência. Mas quando você perde alguém, a pancada coloca as coisas em perspectiva. A vitimização pela aparência perde qualquer relevância. Uma pessoa achar que você é gorda não é o fim do mundo. Ninguém conhece quem você é e qual a sua história. Acredito que o valor maior não está em alimentar a amargura verbalmente vomitada por um infeliz, mas sim naquela hora que você se olha no espelho e vê uma pessoa incrível, linda e poderosa.

Como se dá esse empoderamento?
Acho que é algo que começa em casa. Eu sempre fui uma criança gordinha e minha mãe nunca me censurou por isso. Nunca vi minha mãe perdendo tempo com paranoias quanto a rugas ou celulites nela, gastávamos tempo falando dos nossos sonhos. Hoje enxergo uma perpetuação de frustrações, passadas de mães para filhas, e assim refazendo o círculo vicioso.

Débora Fomin é autora do blog Overlicious


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