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Viver Bem

Genética ajuda a explicar variação na eficácia de canetas emagrecedoras

Variantes genéticas influenciam perda de peso e efeitos colaterais, mas impacto ainda é limitado

Publicado em 12/04/2026 1:19 - Semana On

Divulgação Gettyimages

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Um estudo recente publicado na revista científica Nature lança luz sobre uma questão recorrente no tratamento da obesidade: por que medicamentos como Wegovy e Mounjaro produzem resultados tão distintos entre os pacientes. A análise sugere que variações em genes relacionados ao apetite e à digestão podem contribuir para diferenças tanto na perda de peso quanto na intensidade de efeitos colaterais.

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Esses fármacos, amplamente utilizados em diversos países, atuam imitando a ação de hormônios intestinais responsáveis pela sensação de saciedade, reduzindo a fome. Ainda assim, a resposta ao tratamento está longe de ser uniforme — e a genética pode ser uma das peças desse quebra-cabeça.

A pesquisa se baseou em dados de aproximadamente 15 mil indivíduos que utilizaram esses medicamentos e que já haviam realizado testes genéticos pela empresa 23andMe. A partir da análise de milhões de variações genéticas, os pesquisadores identificaram padrões que associam determinadas variantes à eficácia do tratamento.

Os resultados mostram que, em média, os participantes perderam 11,7% do peso corporal após cerca de oito meses de uso. No entanto, a dispersão dos resultados é significativa: enquanto alguns indivíduos perderam até 30% do peso, outros tiveram redução mínima ou inexistente.

Ensaios clínicos anteriores já apontavam médias superiores — cerca de 14% de perda com semaglutida (presente em Ozempic e Wegovy) e até 20% com tirzepatida (Mounjaro) — o que reforça a ideia de que fatores individuais influenciam fortemente os desfechos.

Segundo a professora Ruth Loos, da Universidade de Copenhague, uma das variantes identificadas está associada tanto à maior perda de peso quanto à ocorrência de náusea. Indivíduos portadores dessa variação genética tendem a apresentar redução adicional de cerca de 0,76 kg, podendo chegar ao dobro entre aqueles com duas cópias do gene.

A distribuição dessa variante também varia conforme a origem populacional. Entre pessoas de ascendência europeia, 64% possuem uma cópia do gene e 16% têm duas. Já entre afro-americanos, cerca de 7% carregam uma cópia.

Outra variante genética identificada no estudo parece estar relacionada a efeitos adversos mais intensos em usuários de tirzepatida, especialmente episódios de náusea e vômito. Estima-se que até 1% dos pacientes possam apresentar vômitos severos — uma frequência até 15 vezes maior que a observada normalmente.

Apesar dessas associações, especialistas destacam que o peso da genética é relativamente limitado. “O efeito é comparável a outros fatores e não pode ser considerado irrelevante”, afirma Loos, ressaltando, no entanto, que os achados ainda carecem de validação em estudos independentes.

A complexidade do tema é reforçada por outros especialistas. Para Marie Spreckley, da Universidade de Cambridge, a genética representa apenas uma fração das variáveis envolvidas. Elementos como hábitos alimentares, prática de atividade física, condições clínicas e acompanhamento médico desempenham papel central nos resultados.

Além disso, características demográficas também influenciam o desempenho dos tratamentos. Pesquisas anteriores indicam que mulheres têm mais que o dobro de probabilidade de perder ao menos 15% do peso corporal com Mounjaro em comparação aos homens. Idade, etnia e tempo de uso do medicamento também aparecem como fatores relevantes, embora nem sempre completamente compreendidos.

O tipo de fármaco, a dosagem administrada e a duração do tratamento completam o conjunto de variáveis que ajudam a explicar a heterogeneidade dos resultados.

A longo prazo, a integração entre dados genéticos e informações clínicas pode abrir caminho para abordagens mais individualizadas — a chamada medicina de precisão. No entanto, esse cenário ainda não se traduziu em mudanças concretas na prática médica.

Para o professor Naveed Sattar, especialista em saúde metabólica da Universidade de Glasgow, os resultados são promissores do ponto de vista científico, mas ainda insuficientes para orientar decisões clínicas. Segundo ele, são necessários ensaios clínicos mais robustos para definir com maior clareza o balanço entre riscos e benefícios desses tratamentos.

Enquanto o debate científico avança, o acesso a esses medicamentos também passa por transformações. No Brasil, o Rio de Janeiro tornou-se a primeira cidade a disponibilizar o Ozempic pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em 18 de março.

A medida coincide com o fim da patente da semaglutida no país, ocorrido em 20 de março, encerrando a exclusividade da farmacêutica Novo Nordisk sobre o princípio ativo presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy. Com isso, abre-se espaço para a entrada de novos fabricantes e, potencialmente, para a redução de preços.

Ainda assim, a expectativa de queda nos custos não é imediata, diante de desafios regulatórios e industriais. Atualmente, o tratamento pode custar cerca de R$ 1.400 por mês — um valor que restringe o acesso, sobretudo entre populações de menor renda, justamente as mais afetadas pela obesidade.

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