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Tecnologia
Desinformação, discursos de ódio e declínio no engajamento impulsionam êxodos institucionais e reforçam debates sobre regulação de plataformas digitais
Publicado em 11/01/2025 11:26 - Semana On
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Nos últimos meses, o papel das plataformas digitais como epicentro de desinformação e polarização tem provocado reações contundentes em âmbitos diversos. Universidades britânicas abandonam o X, antiga rede social Twitter, enquanto o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) no Brasil denuncia as mudanças nas políticas da Meta – controladora do Facebook e Instagram – como uma ameaça à democracia. Em ambos os casos, a questão central é a mesma: como regular um ambiente digital que amplifica discursos extremistas e enfraquece os alicerces democráticos?
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Uma investigação da Reuters revelou que várias universidades e conservatórios britânicos estão se afastando da plataforma X, controlada por Elon Musk, citando a disseminação de desinformação e conteúdos violentos. O ambiente tóxico da rede, agravado por episódios de distúrbios raciais no Reino Unido no último ano, é apontado como um catalisador para a saída. Instituições como o Homerton College, de Cambridge, alertaram que continuarão a “avaliar alternativas emergentes”, enquanto o Merton College, de Oxford, excluiu completamente sua conta.
O abandono reflete não apenas o desconforto com os conteúdos promovidos pela plataforma, mas também uma queda acentuada no engajamento do público. Segundo a Universidade de East Anglia, o engajamento caiu 80%. Este declínio é acompanhado por um aumento das críticas a Musk, cuja proximidade com Donald Trump e apoio público a figuras como Stephen Yaxley-Lennon, ativista antimuçulmano, intensificam as controvérsias.
Meta e o desmonte da checagem de fatos
Enquanto isso, no Brasil, o FNDC criticou duramente o fim do programa de checagem de fatos da Meta, anunciado por Mark Zuckerberg. Sob o pretexto de restaurar a liberdade de expressão, a Meta adota um modelo de moderação descentralizado, permitindo que os próprios usuários agreguem notas contestando conteúdos. Para o FNDC, essa mudança “reforça conteúdos que promovem a extrema-direita” e representa “uma ofensiva contra esforços de regulação das big techs”.
A postura da Meta se alinha a tendências globais preocupantes. Na Europa, lideranças como Volker Türk, alto comissário da ONU para direitos humanos, e Volker Wissing, ministro alemão de Assuntos Digitais, manifestaram temores de que as novas regras da Meta possam corroer os pilares democráticos. Na prática, a redução da moderação já permite que conteúdos homofóbicos e xenófobos, antes filtrados, permaneçam online nos Estados Unidos.
No Brasil, as mudanças reacenderam debates sobre o PL das Fake News, projeto de lei que busca responsabilizar plataformas digitais por conteúdos criminosos. Além disso, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) defendem maior supervisão das redes, ecoando preocupações sobre o impacto da desinformação no tecido social e democrático.
Uma crise global da informação
As decisões de gigantes digitais como X e Meta devem ser analisadas sob uma perspectiva histórica e sociológica. A filósofa Hannah Arendt, em A Crise da República, já alertava para os perigos da manipulação da verdade na política: “Quando todos mentem o tempo todo, o resultado não é que a mentira seja aceita como verdade, mas que ninguém mais acredita em nada”. O ambiente digital contemporâneo parece dar forma concreta a essa advertência, criando espaços onde a dúvida e a desinformação se tornam armas políticas.
Elon Musk e Mark Zuckerberg, ao justificarem suas políticas em nome da “liberdade de expressão irrestrita”, ignoram o conceito de liberdade responsável defendido pelo filósofo John Stuart Mill em Sobre a Liberdade. Para Mill, a liberdade de um indivíduo termina onde começa a violação dos direitos do outro. A amplificação de discursos de ódio e de fake news pelas plataformas contraria diretamente esse princípio, ao colocar em risco minorias e instituições democráticas.
O caminho da regulação
A regulação das big techs não é censura, como sugerem críticos como Musk e Zuckerberg, mas uma tentativa de restabelecer o equilíbrio entre liberdade e responsabilidade no ambiente digital. A Lei de Serviços Digitais da União Europeia e o PL das Fake News no Brasil são exemplos de como governos tentam responder a uma crise global.
Como afirma o FNDC, “é imprescindível que governos democráticos e organizações da sociedade civil intensifiquem os esforços para regular as plataformas digitais, a fim de garantir um ambiente online mais justo, seguro e respeitoso”. Reguladores enfrentam, no entanto, o desafio de equilibrar a proteção dos direitos humanos e a garantia de inovação tecnológica.
A crise que envolve X, Meta e outras plataformas escancara um dilema central da democracia contemporânea: como adaptar os valores democráticos a um ambiente digital fragmentado e altamente polarizado. A resposta a essa pergunta moldará o futuro não apenas da comunicação, mas também das democracias ao redor do mundo.
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