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Tecnologia
Empresa vai acabar com checagem de fatos nos EUA e copiar modelo usado pelo X
Publicado em 07/01/2025 11:07 - Semana On
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Em uma guinada controversa, Mark Zuckerberg, CEO da Meta, anunciou nesta terça-feira (7) mudanças profundas nas políticas de moderação das plataformas Facebook, Instagram e WhatsApp, eliminando a checagem de fatos independente e flexibilizando filtros contra conteúdos nocivos. Sob o pretexto de promover a “liberdade de expressão”, as medidas incluem parceria com o governo de Donald Trump, críticas à regulação europeia e ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro, em um movimento que favorece a desinformação e acena a agendas autoritárias. Especialistas alertam para os riscos à democracia global e a intensificação da polarização digital.
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O anúncio marca uma inflexão radical na política de moderação de conteúdo da Meta, controladora de plataformas como Facebook, Instagram e WhatsApp. Sob o pretexto de “restaurar a liberdade de expressão”, Zuckerberg decidiu eliminar o programa de checagem de fatos por terceiros e adotar um modelo de “notas da comunidade” inspirado no X (antigo Twitter), de Elon Musk. Mais do que uma mudança técnica, a decisão revela um alinhamento explícito com Donald Trump, presidente eleito dos EUA, e sua agenda de desinformação e radicalização política.
“É hora de voltar às nossas raízes em torno da liberdade de expressão”, declarou Zuckerberg, ignorando os danos sociais provocados pela circulação desenfreada de notícias falsas, algo evidenciado na eleição de Trump em 2016, quando o escândalo da Cambridge Analytica expôs o papel do Facebook em manipular dados para fins eleitorais.
Democracia sob ataque
A guinada da Meta não se limita ao fim da checagem de fatos. Temas polêmicos como imigração e gênero, frequentemente usados como bodes expiatórios por movimentos autoritários, terão filtros mais leves, enquanto conteúdos políticos voltarão a ser priorizados nos algoritmos. A promessa de “mais liberdade” mascara a abertura para discursos de ódio, manipulações ideológicas e polarização exacerbada.
A decisão reflete não apenas o interesse comercial de Zuckerberg, mas também sua adesão à retórica da extrema-direita global. Em vídeo, o executivo criticou o que chamou de “tribunais secretos” na América Latina e “censura institucionalizada” na Europa, mirando diretamente o STF do Brasil e os reguladores europeus, que têm atuado para conter a disseminação de desinformação e proteger direitos fundamentais.
Pablo Ortellado, coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP, alerta: “O sistema de moderação construído nos últimos anos, com checagem independente e conselhos supervisores, foi desmantelado. Zuckerberg não só se ajoelha perante Trump como se alinha à economia da polarização”.
Uma aposta na polarização
A guinada ocorre num momento em que Donald Trump se prepara para reassumir a presidência dos EUA, trazendo consigo uma agenda de desregulamentação que privilegia interesses corporativos em detrimento de valores democráticos. Ao jantar com Trump em novembro e anunciar uma parceria com seu governo para combater regulações na Europa e na América Latina, Zuckerberg assume explicitamente uma postura imperialista.
A retórica de Zuckerberg sobre “liberdade de expressão” se confunde com permissividade para discursos que desinformam e ameaçam minorias. Como destacou Hannah Arendt em A Origem do Totalitarismo, “a mentira organizada destrói qualquer fundamento sobre o qual possamos concordar, e isso é mortal para a política e para a liberdade”. O discurso de Zuckerberg, ao atacar reguladores e defender leis americanas como modelo global, reforça a ideia de que plataformas digitais podem operar acima das soberanias nacionais.
Consequências para o Brasil
No Brasil, o STF tem sido alvo recorrente de ataques de figuras alinhadas à extrema-direita, como Jair Bolsonaro e seus aliados, que ecoam o mesmo discurso de censura atribuído por Zuckerberg às “cortes secretas”. A crítica à atuação do STF ignora que as decisões judiciais sobre moderação de conteúdo visam conter abusos e proteger a esfera pública democrática.
Ao promover a desregulação em nome de uma falsa liberdade, Zuckerberg legitima ataques a instituições como o STF, reforçando a narrativa de líderes autoritários. No entanto, como apontou o filósofo alemão Jürgen Habermas, “a democracia depende de uma esfera pública robusta e de um debate informado”.
As plataformas e o novo Leviatã
A aliança entre Zuckerberg e Trump simboliza um novo estágio na relação entre Big Techs e poder político. Longe de serem espaços neutros, as plataformas digitais moldam comportamentos, opiniões e, em última instância, processos democráticos. Como observou Shoshana Zuboff em A Era do Capitalismo de Vigilância, as grandes empresas de tecnologia atuam como “novos Leviatãs”, concentrando poder e influência sem prestar contas à sociedade.
A opção da Meta por flexibilizar a moderação é uma rendição ao curto prazo: o engajamento promovido por discursos radicais gera lucros imediatos, mas compromete a coesão social e a qualidade do debate público.
O preço da liberdade sem responsabilidade
Ao abdicar de seu papel na moderação responsável, Zuckerberg coloca o lucro acima do bem comum. A liberdade irrestrita que ele defende é, na verdade, a liberdade para manipular, enganar e explorar. E, como a história já mostrou, democracias frágeis não sobrevivem ao caos informativo.
No cenário atual, em que o autoritarismo ganha força, decisões como a de Zuckerberg não são neutras: são escolhas políticas que moldam o futuro da democracia global. Resta à sociedade civil, às instituições e à mídia resistir a essa nova era de barbárie digital.
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