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Tecnologia
Pegada hídrica da IA generativa preocupa especialistas e expõe impacto ambiental
Publicado em 27/05/2025 11:01 - Semana On
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O crescimento acelerado da Inteligência Artificial, especialmente dos modelos generativos como o ChatGPT, tem alimentado uma revolução tecnológica sem precedentes — mas também uma crise ambiental silenciosa, que ameaça comprometer um recurso vital: a água. Em meio a promessas de inovação e eficiência, a IA consome volumes alarmantes de água potável para treinar modelos, manter data centers e resfriar equipamentos. Com impacto potencial superior ao consumo anual de países como o Reino Unido, a pergunta que se impõe é inquietante: será que estamos trocando nossa inteligência natural pela extinção do nosso patrimônio hídrico?
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Relatórios recentes de organismos internacionais e pesquisas acadêmicas revelam números estarrecedores. Treinar um único modelo de IA generativa, como o GPT-4, pode consumir até 700 mil litros de água potável — o equivalente ao consumo anual de 300 residências. Um estudo de 2023 da Cornell University indicou que o treinamento do GPT-3 nos data centers da Microsoft nos EUA evaporou diretamente essa quantidade de água doce limpa, porém essas informações foram mantidas em sigilo. E o impacto não se limita à fase de treinamento: responder a apenas 20 perguntas no ChatGPT pode consumir cerca de 500 ml de água, e a geração de imagens, tendência crescente entre usuários, consome ainda mais.
O problema é agravado pelo funcionamento dos mega data centers, onde os equipamentos eletrônicos dissipam quantidades imensas de calor e exigem resfriamento constante. Para isso, milhões de litros de água são retirados de rios, lagos e aquíferos diariamente. Segundo o The New York Times (2022), os centros de dados do Google em Mesa, Arizona, utilizam bilhões de galões de água potável em pleno deserto. Em The Dalles, Oregon, a empresa consumiu o equivalente a mais de um terço da água de toda a cidade em um ano: cerca de 355,5 milhões de galões.
Além da escassez direta, há impactos indiretos e muitas vezes ignorados. O vapor de água devolvido à atmosfera nem sempre retorna aos ecossistemas de origem, causando assoreamento de rios e outros desequilíbrios ambientais. Como afirma o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) em seu relatório de 2025, “a demanda global por água relacionada à IA pode superar o uso anual de países inteiros”.
E o Brasil está no radar. A combinação de riqueza hídrica e energia barata torna o país um alvo estratégico para a expansão desses centros. Com a COP-30 marcada para Belém do Pará, o debate sobre o custo ambiental da IA se torna ainda mais urgente. Embora a IA ofereça potenciais benefícios para o meio ambiente — como no monitoramento de desmatamento, modelagem climática e análise de biodiversidade — seus malefícios não podem ser ignorados nem relegados ao segundo plano da inovação.
A questão central é a desproporção entre benefício e custo ecológico, especialmente no caso da IA generativa. Como explica Noman Bashir, em entrevista ao MIT News, “o que é diferente sobre a IA generativa é a densidade de energia que ela requer. Um cluster de treinamento pode consumir sete ou oito vezes mais energia do que uma carga computacional típica”. A energia necessária para tratar a água usada no resfriamento chega a 80% do total energético de um centro de dados, o que se soma à crescente pegada de carbono da indústria.
A cadeia de produção também é voraz em recursos. A TSMC, maior fabricante mundial de chips (utilizados por Apple, Nvidia e Qualcomm), usa milhões de litros de água ultra pura por dia para lavar as pastilhas de silício e resfriar os equipamentos, segundo seu Relatório de Sustentabilidade (2023). A localização da fábrica em Taiwan, ilha que já enfrenta crises hídricas frequentes, torna o cenário ainda mais delicado.
É neste contexto que emergem propostas audaciosas — e controversas. Uma startup americana cogita afundar GPUs na Baía de São Francisco como forma de resfriamento natural, segundo a revista Wired (2024). A ideia de “afundar a nuvem no mar” já levantou alertas de reguladores e ambientalistas, preocupados com o impacto sobre ecossistemas marinhos.
Enquanto isso, a regulação ainda engatinha. Ex-engenheiros de data centers, ouvidos pela Wired em 2023, revelaram que a eficiência hídrica costuma ser sacrificada em nome do desempenho computacional. O silêncio das big techs e a falta de transparência nos dados operacionais alimentam a insatisfação de ONGs, ambientalistas e setores acadêmicos, que cobram medidas urgentes.
O debate é inevitável: como garantir que a revolução da IA não seja, paradoxalmente, a sentença de escassez de um dos nossos bens mais preciosos? A filósofa Donna Haraway já alertava, nos anos 1980, para o risco de cultuar tecnologias sem repensar as relações entre natureza, ciência e poder. Hoje, essa advertência soa como profecia: “Precisamos estar mais atentos aos sistemas que criamos do que às fantasias que projetamos neles.”
A Inteligência Artificial tem o potencial de transformar positivamente nossa relação com o planeta — mas para isso, é preciso reconhecer que sua inteligência ainda depende da nossa sabedoria natural. E sabedoria, neste caso, exige limites, regulação, transparência e escolhas políticas que priorizem a vida.
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