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Tecnologia
Estudo de Stanford e Google DeepMind propõe nova fronteira na pesquisa, mas acende alertas
Publicado em 20/05/2025 1:08 - Semana On
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Seria possível conversar com uma versão digital de si mesmo – e não notar a diferença? Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Stanford e da Google DeepMind sugere que sim. Com apenas duas horas de entrevista, cientistas conseguiram criar réplicas digitais capazes de reproduzir com 85% de precisão a personalidade de mais de mil pessoas, abrindo caminho para um futuro em que “gêmeos digitais” poderão ser utilizados para investigar o comportamento humano – ou, em cenários menos idealizados, para manipular a própria identidade.
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Liderado por Joon Sung Park, doutorando em Stanford, o experimento envolveu 1.052 participantes nos Estados Unidos. Em vez de recorrer a testes padronizados ou dados demográficos, a equipe optou por conversas aprofundadas, em que uma voz sintética e amigável guiava os entrevistados por memórias de infância, preferências pessoais, visões políticas e dilemas cotidianos. A abordagem qualitativa permitiu capturar nuances subjetivas e traços idiossincráticos de cada indivíduo – uma estratégia que, segundo Park, foi inspirada em sua experiência pessoal com entrevistas para podcasts.
“Depois de uma entrevista de duas horas, pensei: agora as pessoas sabem muito sobre mim”, declarou Park à revista MIT Technology Review.
Precisão superior à dos próprios humanos
O teste de eficácia dos agentes virtuais foi tão revelador quanto sua criação. Duas semanas após as entrevistas, tanto os participantes reais quanto suas versões digitais foram submetidos a testes de personalidade. Curiosamente, os humanos só conseguiram lembrar e repetir suas respostas anteriores em 81% dos casos, enquanto os modelos de IA acertaram 85% das vezes.
Mais do que reproduzir memórias, os “gêmeos digitais” mostraram capacidade para simular padrões estáveis de comportamento, superando os modelos tradicionais de previsão baseados apenas em dados demográficos em 14 pontos percentuais.
Nova ferramenta para as ciências sociais
O potencial dessa tecnologia vai além do fascínio tecnológico. Os pesquisadores propõem a aplicação dos agentes digitais como substitutos éticos e eficientes em estudos sobre políticas públicas, reações sociais a eventos traumáticos ou análise de consumo, especialmente em situações em que seria inviável – ou moralmente controverso – usar participantes reais.
“Podemos criar um agente de uma pessoa – uma réplica de IA – que capture muitas de suas complexidades e naturezas idiossincráticas”, afirmou Park à revista New Scientist.
Limites e riscos
Nem tudo, no entanto, funciona com a mesma precisão. Os agentes de IA demonstraram dificuldades em replicar decisões econômicas ou interações sociais mais complexas, onde o contexto, a empatia e os impulsos emocionais desempenham papel decisivo. Além disso, os próprios autores do estudo alertam para os riscos de uso indevido dessas réplicas digitais, como a criação de perfis falsos ou a manipulação de opiniões públicas online.
Para mitigar esses perigos, a equipe adotou salvaguardas éticas: todos os participantes podem solicitar a exclusão ou restrição do acesso aos seus dados, e os “gêmeos digitais” só podem ser utilizados em pesquisas acadêmicas.
A preocupação com os desdobramentos éticos é compartilhada por estudiosos da área. A filósofa Sherry Turkle, autora de Reclaiming Conversation e professora do MIT, argumenta que “a tecnologia nos oferece versões de conexão sem a complexidade da intimidade humana” (New York Times, 2015). A criação de duplicatas digitais pode aprofundar esse paradoxo: quanto mais parecidos com nós mesmos, mais difícil será distinguir o que é autêntico do que é apenas programado para parecer real.
O que vem a seguir?
Enquanto o estudo acadêmico permanece restrito ao campo experimental, empresas como a Tavus já trabalham com modelos comerciais de personalização digital baseados em pequenos trechos de vídeo ou texto. Hassaan Raza, CEO da Tavus, afirmou ao MIT Technology Review que a pesquisa de Stanford e Google “abre caminho para métodos mais eficientes” e menos invasivos na criação de réplicas digitais.
Ainda que a tecnologia prometa revolucionar as ciências sociais e os sistemas de simulação comportamental, ela também impõe um desafio inescapável: como manter o controle ético sobre uma tecnologia capaz de simular – e talvez influenciar – a psique humana com tamanha precisão?
Num mundo cada vez mais mediado por algoritmos e perfis digitais, a pergunta que se impõe não é apenas o que a IA pode fazer, mas quem ela pode se tornar – e, sobretudo, a serviço de quem.
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